Antes sinônimo de desempenho consistente acima da média, os papéis do conglomerado de US$ 1 trilhão passaram a ficar atrás do mercado desde que Warren Buffett anunciou, há um ano, sua aposentadoria e a transição do comando para Abel.
Até quarta-feira (29), as ações Classe B acumulavam desempenho inferior ao S&P 500 Index em mais de 37 pontos percentuais nos últimos 12 meses — o pior resultado anual desde 2000. Nesse período, o valor de mercado da empresa caiu US$ 139 bilhões.
Kraft Heinz
Perdas recentes em participações como Kraft Heinz ajudam a explicar parte do desempenho fraco, assim como um mercado acionário caro e impulsionado pela inteligência artificial, que deixou poucas oportunidades de valor para alocar os US$ 373 bilhões em caixa da Berkshire.
Mas, embora Abel deva abordar esses temas na reunião de sábado, outro fator pode ser mais difícil de contornar: sem o “Oráculo de Omaha”, alguns investidores passaram a avaliar com mais rigor as fragilidades da empresa — ao menos até que o novo CEO, de 63 anos, conquiste parte da confiança que Buffett e seu falecido sócio Charlie Munger tinham.
“Como investidores, recebemos bem a abordagem de continuidade de Abel”, disse Christopher Davis, da Hudson Value Partners, que detém ações da companhia desde 2019. No entanto, “o mercado parece querer ver uma grande aposta clássica da Berkshire como prova de que a máquina funciona da mesma forma com um novo operador”.
O desempenho fraco das ações evidencia o desafio enfrentado por Abel — que assumiu o cargo em janeiro — ao liderar uma empresa que por muito tempo carregará a marca de Buffett, amplamente considerado um dos maiores investidores da história. Um porta-voz da Berkshire se recusou a comentar.
Impulsionadas pela habilidade de Buffett na escolha de ações e na alocação de capital, as ações da companhia superaram consistentemente o S&P 500 ao longo de seus 61 anos como conglomerado.
Embora essa vantagem tenha diminuído nas últimas décadas, o desempenho ainda impressiona: os papéis Classe B registraram ganho médio anual de 11% desde 1997 sob Buffett, um ponto percentual acima do retorno anualizado do índice no período.
Como resultado, investidores pagavam o chamado “prêmio Buffett”, geralmente avaliando as ações da empresa acima da média do mercado. Mas, embora Abel tenha prometido seguir a abordagem de Buffett em investimentos e gestão de risco — a reunião deste sábado tem como slogan “O legado continua” — pode levar anos até que os acionistas confiem plenamente que ele conseguirá replicar o desempenho do antecessor.
Aura psicológica
Buffett criou “uma mística, uma aura psicológica em torno da empresa”, disse Lawrence Cunningham, autor de diversos livros sobre o investidor e acionista de longa data da Berkshire. “Sem ele, parte dessa mística tende a se dissipar — e isso aparece no preço das ações.”
Essa cautela também aparece na relação preço/valor patrimonial da Berkshire, que caiu ao longo do último ano e hoje está em cerca de 1,4, ante quase 1,8 antes da assembleia do ano passado — embora o indicador já tenha oscilado bastante ao longo da história da empresa.
A saída de Buffett “foi um catalisador para que alguns investidores vendessem suas ações, dado o nível de valuation”, disse Brian Meredith, analista da UBS.
Analistas também destacam que Abel, um executivo operacional experiente que transformou o negócio de energia em um dos principais motores de lucro, não tem histórico em gestão de ativos, uma função central na Berkshire.
Apesar da sólida experiência operacional, ele “nunca geriu dinheiro profissionalmente”, afirmou Cathy Seifert, da CFRA Research.
Ao mesmo tempo, fatores que já vinham pressionando as ações há anos ficaram mais evidentes após a saída de Buffett.
O crescimento fraco de receitas e resultados decepcionantes nas operações de seguros pesaram sobre o sentimento dos investidores. O lucro operacional de subscrição caiu mais de 54% no quarto trimestre, enquanto concorrentes superaram expectativas.
Além disso, uma baixa contábil combinada de US$ 8,3 bilhões em investimentos na Kraft Heinz e na Occidental Petroleum afetou a reputação da empresa como compradora bem-sucedida. O lucro operacional total caiu 6% no ano passado.
Falta de transparência
Outro fator é a conhecida falta de transparência da Berkshire. A companhia é a única de seu porte que não possui uma área formal de relações com investidores nem realiza eventos além da assembleia anual em Omaha. O que era tolerado sob Buffett e Munger agora é visto com mais ceticismo.
Há ainda a questão das avaliações elevadas do mercado. Com o entusiasmo em torno da inteligência artificial levando ações a recordes — mesmo em meio a tensões geopolíticas — muitos ativos estão caros, inclusive segundo indicadores usados pelo próprio Buffett. Um deles, que compara o valor total do mercado acionário dos EUA ao PIB, está acima de 220%, próximo de máxima histórica.
“O mercado não espera que Abel repita os grandes acertos de Buffett no longo prazo, mas quer ver como ele identifica oportunidades de valor — algo que leva tempo”, disse Matthew Palazola, da Bloomberg Intelligence.
Mesmo pequenos sinais têm sido bem recebidos. As ações subiram após a Berkshire retomar recompra de papéis em março, depois de mais de um ano sem devolver capital aos acionistas.
Abel também fez mudanças na equipe de gestão, com a contratação de um diretor jurídico e a saída de dois executivos importantes. A reunião deste sábado deve dar mais visibilidade ao time executivo, com participação de Katie Farmer, da BNSF, e Adam Johnson, da NetJets.
Ainda assim, muitos investidores de longo prazo seguem a filosofia de Benjamin Graham, mentor de Buffett, que defendia que o preço das ações tende a refletir os fundamentos ao longo do tempo.
“Se alguém leu Warren Buffett, a última coisa que deveria fazer é prestar atenção ao preço das ações”, disse Cunningham.
Por ora, no entanto, os investidores esperam que Abel mostre que consegue manter os fundamentos da Berkshire sólidos.
“Buffett sempre teve enorme confiança e respeito do mercado”, disse Meyer Shields, analista da Keefe, Bruyette & Woods. “Não é uma crítica a Greg Abel dizer que ele tem sapatos muito grandes para preencher.”
