Um deles perguntou se a companhia sairia de Omaha, Nebraska, sede da empresa durante décadas sob a liderança de Warren Buffett. Não, respondeu Abel – a mudança não aconteceria.
A ideia teria soado absurda em praticamente qualquer momento da gestão de Buffett. Mas o que muitos dos funcionários certamente pensavam é que mudanças estão a caminho.
Abel retomou o programa de recompra de ações, parado desde 2024, promoveu aliados que trabalharam próximos a ele, e passou a receber salário maior que o de Buffett, com a promessa de usar a maior parte para comprar ações da própria empresa.
Também ampliou a presença da Berkshire no Japão, comprando participação em uma seguradora local.
Conhecido por ser mais operacional que Buffett, Abel examina os negócios e o portfólio de ações da Berkshire com um olhar novo e mais crítico do que o de seu antecessor, afirmam pessoas a par do assunto. A expectativa é que ele aja com firmeza diante de companhias, posições acionárias e até executivos seniores que não atenderem às suas expectativas, segundo essas fontes.

“Warren, Charlie e eu temos algumas diferenças, seja de estilo ou, obviamente, na maneira como abordamos as coisas”, disse Abel em entrevista, referindo-se a Buffett e a seu antigo sócio, o já falecido Charlie Munger. “Nossos valores fundamentais continuam sendo a base sobre a qual construímos a empresa”, completou.
Abel, de 63 anos, que assumiu como CEO em janeiro, prometeu preservar o que torna a Berkshire uma empresa tão singular: sua cultura e seus valores, uma operação de seguros dominante, um conglomerado de negócios sem relação entre si e um portfólio de ações gerido pelo próprio presidente-executivo.
Em vários dias da semana, Abel entra num carro que o espera em frente à sua casa em Des Moines, Iowa, e faz o trajeto de duas horas até Omaha. Ele não tem planos imediatos de se mudar para a cidade e deve continuar morando no Iowa pelo menos até o filho concluir o ensino médio, daqui a alguns anos, segundo pessoas a par do assunto.
Não é incomum que Abel esteja em estados diferentes no mesmo dia. Boa parte da sua semana de trabalho é passada cruzando o país em um jato executivo operado pela NetJets, subsidiária da Berkshire, para visitar os executivos das empresas do grupo.
Em sua primeira carta anual aos acionistas, divulgada em 28 de fevereiro, Abel deixou claro que há posições que considera “centrais”, como Apple, American Express, Coca-Cola e Moody’s. Fontes a par dos investimentos da Berkshire afirmam que Abel já se desfez das ações geridas por Todd Combs, que recentemente migrou para o JPMorgan Chase. Combs era um dos dois gestores de investimento recrutados por Buffett. Segundo essas fontes, é improvável que Abel contrate alguém para ajudá-lo a administrar o portfólio.
Funcionários e acionistas da Berkshire sabem que Abel sucederia Buffett desde que Munger deixou o anúncio escapar durante a reunião anual da empresa em Omaha, em 2021. Mas o momento exato da transição permaneceu um mistério após a morte de Munger, em novembro de 2023, e só foi revelado em maio do ano passado, quando Buffett, aos 95, declarou no mesmo palco que pretendia se aposentar no fim do ano.
“Foi aí que a transição realmente começou”, disse Abel.
No almoço de dezembro em Omaha, as outras perguntas dos funcionários eram menos pesadas; uma delas questionava se a chegada de Abel, um canadense apaixonado por hóquei, significaria rinques de gelo melhores na cidade. Quando o almoço acabou, a comida de Abel estava fria e praticamente intocada no prato de papel à sua frente.
Abel passou o último ano priorizando o aprendizado sobre o negócio de seguros da Berkshire e as reuniões com Ajit Jain, o cérebro por trás da operação. A expectativa é que Jain continue à frente da área de seguros, embora a empresa também tenha preparado um plano de sucessão para ele. “Ele provavelmente vai ficar na companhia pelo tempo que puder”, disse Buffett em entrevista.
O novo CEO também tem dado atenção aos líderes das subsidiárias, em especial à BNSF Railway, a ferroviária do grupo, e à Berkshire Hathaway Energy, onde foi presidente-executivo por muitos anos, segundo pessoas a par do assunto.
“Se eu penso nos meus primeiros 100 dias”, afirmou Abel, “o foco em excelência operacional não diminuiu.”
Buffett tem deixado claro, dentro e fora da Berkshire, que quem manda agora é Abel. Quando empresários enviam cartas a Buffett na esperança de fechar algum negócio, ele responde, mas encaminha cópia da resposta e da carta original para Abel. Embora Abel tenha mostrado sua primeira carta aos acionistas a Buffett antes da publicação, o fundador fez poucas alterações no texto, segundo pessoas a par do assunto.
Natural das Pradarias canadenses, Abel incorpora, em muitos aspectos, o charme do interior e a reputação de conciliador simpático que marcaram Buffett. Durante as Olimpíadas, torceu pela seleção masculina de hóquei do Canadá e pela feminina dos Estados Unidos — um gesto diplomático para não tomar partido. Continua treinador do time de hóquei do filho e cumprimenta com um toque de mãos todos os jogadores quando eles deixam o gelo.
Uma das diferenças entre Buffett e Abel, segundo quem conhece os dois, é que Abel não foge de confrontos. Buffett já afirmou que mantinha pessoas em cargos de gestão mesmo quando não atendiam a seus padrões, preferindo evitar os aspectos desagradáveis do trabalho. Abel, por sua vez, não hesita em fazer o necessário para melhorar o negócio — mesmo que isso signifique demitir alguém.
Apesar de ter reforçado que o prazo preferido de investimento da Berkshire é “para sempre”, se um negócio não atender às expectativas, uma venda não está descartada, segundo essas fontes. A Berkshire raramente se desfaz de subsidiárias integrais — vendeu o negócio de jornais em 2020 e encerrou a área têxtil em 1985.
Lawrence Cunningham, autor de vários livros sobre a Berkshire, contou que perguntou a Abel, em uma conversa há cerca de um ano, se ele pretendia seguir a tendência de Buffett e Munger de fazer vista grossa para subsidiárias de desempenho fraco.
“Ele disse: ‘Não vou fazer isso. Acredito em autonomia, acredito em descentralização. Mas, se houver quem esteja ficando para trás, vou apontar'”, contou Cunningham.
Enquanto Buffett ficava fora da operação, a menos que sentisse que as empresas não estavam no nível esperado, o estilo de Abel é agir preventivamente para deixar suas expectativas claras, afirmam pessoas a par dos negócios da Berkshire.
“Greg gosta de estar envolvido, então ele vai ser mais prático e mais atento aos detalhes do negócio”, afirmou Vicki Hollub, CEO da Occidental Petroleum, na qual a Berkshire tem participação relevante. “É um negociador duro, mas, repito, honesto e justo.”
Na carta anual, Abel afirmou que a Berkshire manterá sua “abordagem concentrada” nos investimentos em ações, citando as maiores posições como exemplo — com exceção de Bank of America e Chevron. O conglomerado não enxerga essas participações como centrais, segundo fontes a par do assunto.
Para muitos acionistas, o verdadeiro teste do valor de Abel será sua capacidade de usar o caixa recorde de US$ 373,1 bilhões da Berkshire em grandes aquisições.
“Só vou conseguir avaliar o quanto ele é bom quando chegar a próxima recessão profunda”, disse Chris Bloomstran, diretor de investimentos da Semper Augustus Investments, acionista antigo da Berkshire. “A missão que os acionistas devem dar ao Greg é: você tem de estar disposto a colocar US$ 300 bilhões para trabalhar. A expectativa é que ele faça isso — e de forma mais agressiva do que Warren fez nos últimos anos.”
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