A estreia será no Shopping Cidade São Paulo, na Avenida Paulista, e marca a chegada à América do Sul de uma companhia que, em menos de uma década, deixou de ser um fenômeno doméstico para se tornar a maior rede de fast food do mundo, à frente do McDonald’s. São 60 mil lojas (contra 45 mil da americana), ainda que 90% delas estejam na China.
A empresa anunciou o plano em 2025, durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à China. Ela prevê um investimento de R$ 3,2 bilhões no Brasil, com a abertura de 2 mil unidades nos próximos anos e uso do país como base para sua operação latino-americana.
A partir de 2027, a ideia também é comprar café e frutas tropicais brasileiras para abastecer lojas da rede mundo afora.
A escolha do Shopping Cidade São Paulo para a estreia não foi por acaso. Segundo apurou o InvestNews, a conversa com a SYN, administradora do empreendimento, começou em 2025 e avançou rapidamente.
O shopping vem se consolidando como uma espécie de vitrine para grupos asiáticos em sua entrada no Brasil. Foi ali que a Huawei montou sua primeira pop-up store no país para vender celulares e smartwatches, e o espaço também recebeu ações da plataforma chinesa de delivery Keeta e da rede social Kwai.
A ofensiva não deve parar na Paulista. O InvestNews apurou que a Mixue já fechou novos pontos com outros grupos de administração de shopping centers no Brasil, que devem ser anunciados em breve. A rede também conversa com a SYN sobre futuras unidades em outros ativos do grupo, que é dono dos shoppings Grand Plaza e Tietê Plaza, além do Metropolitano Barra, no Rio.
A marca ainda é pouco conhecida no Ocidente, mas chega com credenciais difíceis de ignorar. Desde o IPO em Hong Kong, em março de 2025, a rede avançou para Estados Unidos e México e chega agora à América do Sul pela porta de São Paulo. A companhia levantou US$ 444 milhões em sua oferta pública inicial.
Estreia com ambição
A Mixue cresceu apostando em uma lógica quase oposta à de muitas cadeias globais de bebidas: menos experiência premium, mais consumo de massa. Em vez de vender sofisticação, construiu um negócio baseado em preço acessível, lojas enxutas, cardápio simples e giro alto.
Na China, uma casquinha barata e bebidas adoçadas ajudaram a transformar a marca em nome popular entre estudantes, jovens e consumidores de cidades menores. E isso ajudou a criar a força da marca que tem seus jingles que tocam nas lojas e um mascote de boneco de neve para chamar de seu.
A proposta de preços ajuda a explicar a aposta da rede no Brasil. A Mixue deve disputar menos espaço com cafeterias premium e mais com o consumo por impulso em shopping centers e redes de fast-food.
Suas bebidas adocicadas e sorvetes devem ficar em uma faixa próxima de R$ 7, enquanto sobremesas devem concorrer com itens como o sundae do McDonald’s, que custa perto de R$ 10. É uma estratégia coerente com o modelo que transformou a companhia em potência na Ásia: preços acessíveis, cardápio enxuto e giro alto.
O motor da expansão
A companhia já mostrou capacidade de escalar rápido em outros mercados, como Vietnã, Indonésia e Austrália.
A história da Mixue começou em 1997, quando Zhang Hongchao abriu em Zhengzhou, na província chinesa de Henan, uma pequena loja chamada Coldsnap Shaved Ice, embrião do grupo. O nome Mixue, ou Mi Xue Bing Cheng, foi formalizado em 1999.
Ao longo dos anos, a empresa foi sofisticando: montou fábricas, desenvolveu uma logística própria de fornecimento, abriu a primeira loja internacional no Vietnã em 2018 e criou também a Lucky Cup, marca de café do grupo.
A companhia funciona na prática como uma grande plataforma de abastecimento para franqueados. Mais de 99% das lojas eram franqueadas em setembro de 2024. E a maior parte da receita vinha da venda de insumos e equipamentos para a rede, não de taxas de franquia .
É esse desenho que ajuda a explicar como ela ganhou escala tão rapidamente. A empresa diz operar uma cadeia de suprimentos verticalizada, com rede global de compras em 38 países, cinco bases de produção na China e 27 armazéns próprios, além de sistema dedicado de logística.
Escalada por franquias
Esse deve ser também o caminho no Brasil, mas não de imediato. A operação começa, por enquanto, com lojas próprias. A lógica é usar as primeiras unidades como vitrine e laboratório, ajustando cardápio, preço, operação e aceitação da marca antes de acelerar uma expansão mais ampla.
Mais à frente, a franquia tende a virar o principal motor de crescimento local, se a empresa quiser aproximar a ambição de 2 mil unidades de algo factível. Foi esse modelo que sustentou a escalada global da companhia, afinal.
Segundo o prospecto do IPO, o investimento inicial e a taxa de franquia da Mixue ficam abaixo da média da indústria chinesa, o que ajudou a atrair operadores para a rede .
Os desafios no Brasil
A rede entra em um mercado com concorrência forte em várias frentes: cafeterias, sorveterias, operações de sobremesa, fast-food e quiosques de shopping. Também desembarca em um país com cultura de café muito forte e com consumidor sensível a preço, mas já acostumado a marcas locais consolidadas.
Há ainda a questão operacional. Enquanto não montar uma rede local de produção de insumos, a Mixue tende a depender, ao menos em parte, de ítens importados, o que gera exposição ao câmbio e pode pressionar exatamente o principal pilar do modelo: preço baixo. A empresa já sinalizou a intenção de desenvolver uma base produtiva no Brasil, mas sem cronograma definido.
