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Raízen: dívida insustentável e renegociação iminente trazem suspense ao balanço

Divulgação dos resultados de 2025, nesta quinta, revelará o tamanho da dívida a ser renegociada

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A Raízen, maior produtora de etanol de cana do Brasil e responsável pela operação dos postos Shell, divulga na noite desta quinta-feira (12) os resultados de 2025. Os números devem revelar o tamanho exato da dívida que a companhia terá de renegociar com credores no Brasil e no exterior. 

No dado mais recente, de setembro, a dívida líquida somava R$ 53,4 bilhões, com alavancagem de 5,1 vezes. Em termos simples: a dívida equivale a cinco anos do tanto que a operação da empresa gera de caixa – quando o saudável para o setor girar entre duas e três vezes. Se considerar a dívida bruta, já são R$ 68,6 bilhões.

Os juros, sozinhos, consomem R$ 7,5 bilhões por ano.

Numa prévia sobre os resultados que serão divulgados nesta quinta, a XP afirma esperar um aumento adicional da alavancagem, mesmo depois de a Raízen já ter vendido R$ 6 bilhões em diversos ativos para diminuir a dívida.

De acordo com os analistas, a saída para uma crise financeira dessa magnitude passa por dois caminhos.

O mais imediato é a renegociação da dívida. A Raízen já contratou assessores para conduzir o processo, sinalizando que buscará descontos relevantes nessas dezenas de bilhões de endividamento, enquanto os credores também já estão reunindo seus times jurídico e financeiro para a negociação. A revelação das cifras de endividamento nesta quinta será o ponto de partida.

Dilema Shell-Cosan

O segundo caminho é a necessidade de uma capitalização, estimada hoje em R$ 20 bilhões pelos controladores, Shell e Cosan – e é aí que surge o impasse. 

Enfrentando sua própria crise, a Cosan, do empresário Rubens Ometto, não tem fôlego financeiro para liderar um aporte dessa magnitude. Do lado da petroleira britânica, não há disposição de ancorar sozinha a injeção de recursos.

Uma fonte próxima à Cosan afirmou ao InvestNews que o grupo pode ao menos ajudar a reforçar o caixa da Raízen, mas que “qualquer decisão de capitalizar a Raízen terá de partir da Shell”. A postura mais defensiva da holding também reflete a mudança recente em seu controle. 

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Desde o fim do ano passado, Ometto deixou de ser o único acionista dominante e passou a dividir o comando com o BTG Pactual, de André Esteves.

Representado pelo sócio Renato Mazzola, o banco tem promovido um ajuste rigoroso de gastos na Cosan e suas controladas Raízen, Rumo, Compass e Moove. Além da austeridade, a disposição para buscar renegociação de dívidas faz parte da natureza do BTG.

Em paralelo, a Raízen está em tratativas finais para vender sua operação na Argentina para o grupo Mercuria por US$ 1 bilhão, apurou o InvestNews. Ainda não há um acordo vinculante assinado entre as partes, mas espera-se uma definição nas próximas semanas.

Desde o fim de 2024, a Raízen passou a executar um programa de venda de ativos. O “saldão” levantou até agora cerca de R$ 6 bilhões com venda de usinas e negócios de geração de energia solar.

Ponto de partida

Para entender como a Raízen saiu da condição de maior IPO de 2021 para o centro de uma crise financeira, é preciso voltar a algumas apostas estratégicas que não entregaram o retorno esperado. A principal delas foi o investimento no etanol de segunda geração (E2G), produzido a partir dos resíduos da moagem da cana e vendido como alternativa mais sustentável ao combustível tradicional.

O E2G foi o eixo da gestão do então CEO Ricardo Mussa e o coração do discurso que ajudou a levantar R$ 6,9 bilhões no IPO de agosto daquele ano. A promessa era ambiciosa: usar a maior parte dos recursos para construir 20 plantas até 2030. O pitch se sustentava na ideia de que haveria consumidores dispostos a pagar um prêmio por um combustível mais verde — algo que nunca se materializou.

No fim de 2024, o plano foi revisto e Mussa deu lugar ao executivo Nelson Gomes, um dos braços direitos de Ometto. A meta de 20 unidades foi abandonada e a estratégia encolheu para cinco usinas dedicadas ao E2G. 

Na prática, a tese que ganhou força no setor foi outra: ampliar a produção de etanol a partir do milho, aproveitando o tamanho da oferta do grão no país. Esse movimento favoreceu o avanço de grupos especializados, como a Inpasa, do empresário José Odvar Lopes, que se tornou a maior produtora de etanol do Brasil no ano passado graças à aposta no cereal.

Além disso, estratégias menores, como apostar na rede de lojas de conveniência Oxxo – um negócio que nada tem a ver com o core business – passou ao mercado uma percepção de que a Raízen estava dispersa de sua principal atividade.

Safras ruins

A crise financeira da Raízen coincide com um dos ciclos agrícolas mais voláteis da história recente do setor sucroenergético. Após a supersafra de 2023/24, com recorde de produtividade e geração de caixa, o Centro-Sul – principal área de atuação da companhia – foi atingido por seca severa e incêndios que derrubaram a moagem em 2024/25 e elevaram os custos de produção a níveis inéditos. 

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O setor entrou em 2025/26 num cenário de estabilização na baixa: menos cana disponível e um novo patamar estrutural de custos.  A deterioração agrícola aparece também nos números da própria Raízen. 

Em sua prévia operacional mais recente, divulgada no fim de janeiro, a empresa reportou queda na moagem, na produtividade dos canaviais e na produção de açúcar e etanol, atribuindo o desempenho a um ciclo de seca, queimadas e geadas que atingiu o Centro-Sul. 

O impacto é direto: menos cana para diluir custos num momento em que o balanço exige geração de caixa.

Informalidade nos combustíveis

A crise da Raízen também se insere num ambiente de concorrência distorcida no mercado de combustíveis. Estudos do Instituto Combustível Legal (ICL), que representa empresas do setor, estimam que a informalidade, a sonegação e as fraudes operacionais geram perdas de cerca de R$ 14 bilhões por ano aos cofres públicos.

O avanço de devedores contumazes, empresas de fachada e redes ligadas ao crime organizado pressiona as margens das companhias que operam dentro das regras. Rubens Ometto tornou-se um dos críticos mais contundentes desse fenômeno e já classificou a infiltração criminosa no setor como um “câncer” que corrói a concorrência e pune quem paga impostos.

Para grupos como a Raízen, o efeito é direto: competir num mercado em que parte dos agentes simplesmente não recolhe tributos eleva o custo relativo da operação formal e comprime a rentabilidade. A própria companhia reconhece esse impacto. Em sua prévia operacional mais recente, associou a melhora no desempenho da distribuição no Brasil aos “avanços no combate ao mercado ilegal”, sinalizando que a rentabilidade do negócio formal depende do grau do aperto regulatório.

Assessores em campo

A renegociação da dívida da Raízen já entrou em fase formal. De acordo com apuração da Bloomberg, a empresa contratou o banco Rothschild como assessor financeiro e escritórios jurídicos para conduzir o processo, enquanto um grupo de detentores de bonds internacionais se organizou e contratou a Moelis e o escritório White & Case para representá-los nas tratativas. 

Na mesa estão cenários que vão de alongamento de prazos a descontos sobre parte dos débitos, além da necessidade de um aumento de capital. De acordo com o colunista Lauro Jardim, existem conversas para que o BNDES entre na sociedade com Shell e Cosan e ajude a completar o cheque de R$ 20 bilhões na capitalização.

A deterioração do crédito já teve efeito imediato: a Raízen perdeu todos os seus graus de investimento e passou a figurar entre os títulos especulativos, o que desencadeou venda forçada de papéis por fundos institucionais, derrubando a precificação dos bonds e dos títulos de dívida da empresa no mercado secundário para menos da metade do valor de face.

O contágio se espalhou pelo grupo Cosan. Após o downgrade, a Rumo suspendeu a precificação de uma emissão de R$ 1,5 bilhão em debêntures incentivadas porque investidores recuaram diante do aumento da percepção de risco. O episódio mostra que a crise deixou de ser um problema isolado da produtora de etanol e pode passar a afetar o acesso à capital do conglomerado.

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(Colaborou Raquel Brandão)

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