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Com ‘Uber’ das marmitas, desempregados encontram na cozinha uma fonte de renda

A foodtech Eats for You já gerou R$ 1,5 milhão para donos e donas de casa e agora prepara uma forte expansão em 2021.

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Enquanto as portas se fecham para muitos brasileiros no mercado de trabalho, alguns encontraram no microempreendedorismo dentro de casa uma alternativa para pagar as contas. Karina Martin Dal Bem, de 39 anos, é uma delas. Até março, ela trabalhava como gerente de marketing em uma produtora, mas com a crise perdeu o emprego.

Muitos brasileiros passaram pela mesma situação recentemente: o Brasil enfrenta níveis recorde de desemprego. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), até o segundo trimestre do ano (encerrado em julho), 13,13 milhões de pessoas estavam desempregadas. A taxa de desemprego de 13,8% é a maior da série histórica desde 2012, efeito da crise provocada pela pandemia da covid-19 na economia brasileira.

Moradora do bairro Planalto Paulista, na zona Sul de São Paulo, Karina encontrou em um passatempo antigo um novo jeito de gerar renda. “Eu amo cozinhar, aprendi desde criança e sempre acompanhei dicas de nutricionistas, sem pensar que isso poderia se tornar uma profissão”, conta.

Quando ficou desempregada, ela começou a procurar por alternativas nas redes sociais até que se deparou com a página do Eats for You, um aplicativo que conecta pessoas que gostam de comida caseira a donos e donas de casa dispostos a preparar a refeição. A startup, que nasceu em 2018, reúne hoje em seu sistema mais de 26 mil clientes cadastrados.

Karina fez seu cadastro em março e recebeu a visita de um dos funcionários da empresa, que fez a degustação da comida preparada por ela e avaliou se as condições tinham os cuidados sanitários respectivos.

Karina Martin vende marmitas pelo Eats for You desde o começo da pandemia. Foto: Arquivo Pessoal

Com o cadastro liberado, tudo mudou. Sempre no final da tarde, Karina publica no aplicativo o novo cardápio do dia seguinte. Sua rotina começa cedo, por volta das 6h30, quando higieniza a cozinha e faz os preparativos das refeições. Às 11h, começam a chegar os pedidos pelo aplicativo. É quando ela finaliza as marmitas. Em seguida, um profissional da startup vai até a casa dela para pegar as marmitas, na sequência elas são entregues pelo Eats for You.

Diariamente, Karina vende em média 25 marmitas, todas entregues nos bairros próximos a sua casa, na Zona Sul de São Paulo. Por morar em uma região onde as famílias têm um poder aquisitivo maior, ela diz lucrar entre R$ 2 mil a R$ 2,5 mil por mês. Mas a renda consegue ser maior quando há feriados, por exemplo.

As únicas despesas que ficam por conta dos cozinheiros são os alimentos. Até embalagens, saches e molhos são bancados pelo aplicativo. “Tive que abrir uma MEI (registro de microempreendedor individual) para poder receber. É tudo muito organizado. Pretendo continuar trabalhando nesta atividade depois da pandemia”, aponta.

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Inclusão produtiva

Karina não é a única desempregada que garante uma renda pelo Eats for You. O aplicativo, que começou a funcionar em 27 de fevereiro de 2018, já conta com 3 mil donos e donas de casa cadastrados em seis cidades: São Paulo (zona sul, zona oeste e centro); Alphaville (Barueri); Mauá (ABC Paulista); São José dos Pinhais (Paraná); Belo Horizonte (MG) e Cuiabá (Matogrosso).

Nestes dois anos, foram mais de 120 mil refeições vendidas pelo aplicativo e uma geração de renda formal de R$ 1,5 milhão para as pessoas cadastradas. A startup pretende satisfazer duas necessidades sociais: garantir a alimentação saudável para muitas famílias e promover a inclusão produtiva de pessoas desempregadas, auxiliando a empreender.

“Ajudamos as pessoas a assumir o protagonismo das suas vidas, garantindo a segurança financeira, sem depender de empregadores ou do estado”, afirma Nelson Andreatta, fundador e CEO da Eats for You.

Enquanto a pandemia não acaba, Andreatta está ciente de que o consumidor não será o mesmo e que o ambiente de negócios é desafiador, por isso investe constantemente em mudanças. Recentemente, até contratou profissionais que trabalharam no Uber para somar com sua expertise às estratégias.

Até 2022, o empresário pretende duplicar o número de cozinheiros cadastrados, de 3 mil para 6 mil. Com o aumento do desemprego no mundo e a ausência de recursos no Brasil, ele encontrou na crise a oportunidade: recrutar mais cozinheiros nos próximos meses e auxiliar pessoas em situação de rua com a doação de marmitas.

Pessoas físicas e jurídicas podem comprar uma refeição pelo aplicativo para doação. A entrega é por conta da startup. “Começamos na pandemia e pretendemos continuar enquanto tiver necessidade nas ruas”, comenta.

A startup também conta com um sistema de doação de marmitas para moradores de rua. Foto: Luciney Martins

Reinventando o negócio

Nelson Andreatta, fundador da Eats for You. Foto: Divulgação

Antes da pandemia, a startup trabalhava apenas com um canal de entregas: os pontos de retirada. Os clientes compravam as refeições pelo aplicativo, a Eats for You pegava a comida na casa dos cozinheiros e as entregas eram feitas em pontos próximos a centros empresariais. O público-alvo da companhia era de pessoas que trabalhavam em empresas e buscavam comida caseira no almoço.

No entanto, a quarentena e o home office obrigaram a startup a se reinventar. Com pessoas trabalhando em casa, o fluxo diário de entregas despencou 70% apenas no mês de março. Foi quando Nelson optou por implantar um segundo canal: o delivery. Desta forma as pessoas poderiam receber a refeição na porta de casa.

Com a novidade, a startup agora conta com 3 canais de entrega no modelo de negócios: delivery, pontos de retirada e doação de marmitas (foodbank).

Embora algumas empresas estejam retomando as atividades nos escritórios, Nelson desconfia que o home office deve permanecer por mais tempo. As incertezas com a segunda onda do novo coronavírus na Europa também o preocupam.

Por este motivo, ele decidiu implantar três novos canais de entrega. Um deles é dentro dos condomínios e outro em supermercados, ambos em fase de testes. “Entendemos que precisamos ir aonde o público alvo está, e se ele está em casa, iremos até lá”.

O executivo não descarta a expansão do negócio para outras cidades e garante que em 2021 muitos planos devem ser colocados em prática para a empresa crescer. Contudo, espera com cautela a chegada de uma vacina. Com o desemprego atingindo recordes, Nelson defende que está nas mãos do empreendedorismo e dos aplicativos dar uma saída para os milhares de desempregados. “As vezes o governo fica focado no emprego formal e esquece de plataformas que promovem a inclusão produtiva de forma não predatória”, diz.

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