Entre um investimento multibilionário em ativos digitais e um plano de plataforma de negociação 24/7 para títulos baseados em blockchain, a tradicional bolsa passa por sua transformação mais ambiciosa — e possivelmente mais arriscada — ao usar a tecnologia de registro distribuído por trás do bitcoin para reinventar o sistema que ajudou a construir ao longo de séculos.
“Nós estivemos na vanguarda da evolução dos mercados, do analógico ao eletrônico, e agora estamos vendo, um quarto de século depois, a próxima onda de transição do eletrônico para o digital”, disse Michael Blaugrund, vice-presidente de iniciativas estratégicas da Intercontinental Exchange, controladora da NYSE.
Ele vê um “futuro altamente provável” em que o blockchain se torne um pilar central das operações da bolsa — incluindo negociação, compensação, liquidação, formação de capital e distribuição de dados.
Essa convicção, liderada pelo fundador e CEO da ICE Jeffrey Sprecher, abriu caminho para um investimento de cerca de US$ 200 milhões na exchange cripto OKX em março, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. O acordo avalia a OKX em US$ 25 bilhões e ocorreu um ano após a exchange fundada na China encerrar uma investigação federal com pagamento de mais de US$ 500 milhões.
O movimento faz parte de uma tendência mais ampla em Wall Street de avançar sobre apostas antes consideradas proibidas, como mercados de previsão e criptomoedas. O ambiente regulatório mais favorável da administração Trump e a demanda de investidores por ativos mais arriscados ajudaram a acelerar essa onda.
Aposta em cripto
As apostas da NYSE em cripto acontecem em um momento difícil para os entusiastas do setor. O bitcoin registrou o pior início de ano desde 2018, sendo negociado recentemente em torno de US$ 75 mil — bem abaixo do pico de US$ 126 mil atingido em outubro.
Mesmo com a queda, o apetite de Wall Street não diminuiu. A rival Nasdaq anunciou parceria com a exchange Kraken para desenvolver ações tokenizadas, enquanto bancos como JPMorgan Chase e Bank of America avaliam lançar suas próprias stablecoins.
Em dezembro, Sprecher e o fundador da OKX, Star Xu, se encontraram em um restaurante em Londres, onde descobriram afinidade por formação em engenharia e perfis discretos.
Mais adiante neste ano, a ICE vai licenciar preços de cripto da OKX e lançar contratos futuros regulados nos EUA baseados nesses ativos. A OKX também poderá oferecer acesso a futuros da ICE e ações tokenizadas da NYSE, em um passo importante rumo à digitalização de ativos reais em blockchain.
A NYSE também anunciou parceria com a Securitize para desenvolver uma plataforma de valores mobiliários tokenizados com negociação 24 horas por dia e liquidação instantânea, incluindo uso de stablecoins.
A bolsa ainda expandiu sua aposta para mercados de previsão — setor em crescimento que permite apostas sobre eventos como política e esportes. Em outubro, a ICE concordou em investir até US$ 2 bilhões na Polymarket, elevando sua avaliação para US$ 9 bilhões.
O acordo nasceu de experiências comuns envolvendo investigações do FBI. Em novembro de 2024, o fundador da Polymarket, Shayne Coplan, teve seu apartamento invadido por agentes federais em meio a uma investigação sobre uso da plataforma por americanos.
Sprecher entrou em contato após o caso ser arquivado e disse que Coplan havia sido “acusado injustamente”.
“Eu sou velho e careca. Ele é jovem e desgrenhado. Eu tenho um armário cheio de gravatas. Ele provavelmente não tem nenhuma”, disse Sprecher. “A empresa em que estamos foi fundada em 1792. Ele tem a fintech mais quente de 2025.”
Assim como as criptos, os mercados de previsão também enfrentam controvérsias regulatórias sobre se suas apostas devem ser tratadas como jogos de azar.
A NYSE, porém, tenta se afastar de polêmicas mais sensíveis, priorizando apostas ligadas a eventos como clima e resultados corporativos.
A aposta em mercados de previsão não é a primeira incursão da ICE em setores emergentes. Em 2015, a empresa investiu na Coinbase, quando o bitcoin ainda era um ativo marginal, e lucrou cerca de US$ 900 milhões ao vender sua participação em 2021.
Nem todas as apostas deram certo. O caso mais emblemático é o da Bakkt, criada pela ICE em 2018 para oferecer futuros de bitcoin. A empresa mudou de estratégia diversas vezes, acumulou prejuízos bilionários e chegou a receber alerta de deslistagem da NYSE.
Hoje, tenta se reposicionar como uma plataforma de infraestrutura baseada em inteligência artificial, mas ainda enfrenta incertezas sobre seu futuro.
