Depois, o CEO circulou entre os convidados — entre os homenageados estavam Sylvester Stallone e George Strait — dentro do SyberJet Lounge, um espaço sofisticado que sua empresa patrocinou com milhões de dólares e que o presidente Donald Trump chamou de “deslumbrante”.
O fato de o empresário de 43 anos estar presente em um evento de gala ao lado de estrelas e da elite de Washington em dezembro mostra o quanto sua situação mudou drasticamente em 2025.
No início daquele ano, a Nikola, empresa de caminhões a hidrogênio fundada por Milton, entrou com pedido de falência. Ele havia deixado a companhia em 2020 sob suspeitas, e em 2022 foi condenado por fraudar investidores com o que promotores disseram serem mentiras repetidas sobre o desenvolvimento de caminhões de emissão zero e tecnologia da empresa.
Enfrentava uma pena de quatro anos de prisão — estava em liberdade enquanto recorria — e promotores federais buscavam cerca de US$ 676 milhões em restituição.
Tudo isso foi apagado com um telefonema. Em março de 2025, Trump ligou para Milton para dizer que havia assinado um perdão incondicional. Milton se apresentava como vítima política do governo Joe Biden — e Trump concordou.
Milton e sua esposa também doaram ao menos US$ 3,2 milhões para a campanha de 2024 de Trump e para grupos e figuras de seu círculo político, incluindo o secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr.. Milton disse que as doações não estavam relacionadas ao perdão.
Agora, Milton integra um grupo exclusivo de empresários que receberam perdão, aparentemente chancelados pelo favor de Trump.
“Entro em reuniões hoje e recebo ‘high-fives’ das pessoas mais ricas do mundo”, disse. “Eles dizem: ‘Bem-vindo ao clube. Você aguentou o fogo. Agora podemos confiar em você’.”
Milton não perdeu tempo em iniciar seu “segundo ato”.
Agora é CEO da SyberJet Aircraft, uma fabricante de jatos em dificuldades que, segundo ele, comprou com um grupo de investidores. Ele trouxe dezenas de ex-funcionários da Nikola para revitalizar a empresa. “Gosto de encontrar produtos incríveis que precisam de alguém com visão ou coragem para levá-los ao mercado”, afirmou.
Ele apresentou planos para um novo jato leve que, segundo ele, terá a maior velocidade, alcance — e o maior banheiro — da categoria. Documentos para investidores analisados pelo The Wall Street Journal indicam que o objetivo é criar o primeiro jato leve focado em voo com inteligência artificial.
Para chegar ao mercado, a SyberJet planeja desenvolver um sistema totalmente novo de aviônicos — comparando a iniciativa à abordagem da Tesla no design de seus sistemas de software. A empresa também precisa garantir mais financiamento, fornecedores e superar obstáculos regulatórios.
Separadamente, a SyberJet quer desenvolver um jato autônomo para uso militar. Segundo os documentos, a aeronave teria mais que o dobro do alcance de concorrentes e poderia decolar com mais peso, custando milhões de dólares a menos.
Em busca de US$ 1 bilhão
Elementos-chave de ambos os projetos ainda estão na fase teórica, enquanto Milton tenta atrair os recursos necessários. Os documentos indicam que a empresa busca levantar US$ 1 bilhão e afirma ter valuation de US$ 4 bilhões.
Os esforços lembram a forma como Milton gerou entusiasmo entre investidores na Nikola — que acabou colapsando em meio a promessas não cumpridas, acusações de fraude e disputas judiciais.
A própria história da SyberJet mostra os desafios. Em 40 anos, investidores de lugares como Dubai e Taiwan aplicaram centenas de milhões de dólares no desenvolvimento de seus jatos leves. Ainda assim, apenas quatro aeronaves foram entregues a clientes.
Milton, um empreendedor serial que abandonou a faculdade, tem um histórico misto. O que restou da Nikola o processa, enquanto outras startups suas fracassaram ou se envolveram em litígios. Ele nega ter cometido fraude e diz que foi acusado injustamente.
“Se você pegasse 100 pessoas e colocasse no que eu passei, 98 teriam morrido ou se matado”, disse. “Duas sobreviveriam — e eu fui uma delas.”
O colapso da Nikola
Milton foi um dos vários beneficiados por perdões de alto perfil concedidos por Trump. Entre eles, o presidente perdoou Changpeng Zhao, da Binance, e o bilionário britânico Joe Lewis. Também comutou a pena de David Gentile.
Trump também perdoou Juan Orlando Hernández, condenado por tráfico de drogas, além de centenas de outros — incluindo mais de 1.500 relacionados ao ataque de 6 de janeiro de 2021 ao Capitólio.
Milton fundou a Nikola em 2015, e a empresa abriu capital em 2020 via fusão com uma SPAC, prometendo crescimento acelerado e tecnologia de caminhões movidos a hidrogênio.
Promotores afirmaram que ele exagerou ou deturpou capacidades da empresa. Um exemplo: um vídeo de 2018 mostrava um caminhão aparentemente em movimento — depois a empresa admitiu que o veículo havia sido rebocado até o topo de uma colina e apenas desceu.
Meses após o IPO, a Hindenburg Research acusou Milton de mentir. Ele deixou a empresa dez dias depois. Um ano mais tarde, foi indiciado por fraude.
A Nikola fechou acordo com a SEC por US$ 125 milhões, sem admitir culpa. Em arbitragem, foi decidido que Milton era 97% responsável pelas declarações enganosas que levaram à multa.
Doações políticas
Milton apoiou a campanha de Trump em 2024, com mais de US$ 1,8 milhão em doações, além de contribuições adicionais. Também doou cerca de US$ 1,4 milhão a grupos ligados a Kennedy.
“Eu queria ver o Trump vencer — e graças a Deus ele venceu. Salvou minha vida”, disse.
Após sair da Nikola, Milton acumulou 1.500 horas de voo pilotando aeronaves leves. Em 2024, disse ter comprado a SyberJet.
Ele trabalha agora no lançamento do SJ36, um jato de nove lugares que poderia voar sem escalas de Nova York a Los Angeles. O plano é lançá-lo até 2032.
A empresa assinou contrato com a fabricante Williams International para fornecer motores.
Milton quer desenvolver internamente o sistema de aviônicos com inteligência artificial — uma estratégia considerada arriscada por analistas, já que normalmente essa tecnologia é terceirizada para empresas como a Honeywell.
Ele acredita que, no futuro, a empresa poderá vender essa tecnologia para outros fabricantes. “Eventualmente, todos terão que fazer o que estamos fazendo”, disse.
‘Sem garantias’
Documentos indicam que o jato militar da empresa poderia custar cerca de US$ 22 milhões, sendo mais barato que drones de empresas como Anduril Industries e General Atomics.
Mas o próprio Milton reconhece os riscos: “Dizemos a todos que a probabilidade de sucesso é mínima e o risco de fracasso é alto.”
A empresa também passou a incluir avisos legais, afirmando que não se responsabiliza por decisões tomadas com base em suas informações.
Milton concluiu: “Não há garantia de que chegaremos à produção.”
Escreva para Christopher Kuo em chris.kuo@wsj.com e Ben Foldy em ben.foldy@wsj.com
