Companhias como Lyft, DaVita e GitLab disseram ao The Wall Street Journal que estão enfrentando o desafio da proliferação de agentes de IA — tentando conter o problema sem desestimular o uso da tecnologia.
O fenômeno, conhecido como “AI agent sprawl” (“proliferação de agentes de IA”), decorre em parte da facilidade com que até funcionários sem formação técnica conseguem criar bots independentes de IA, graças a plataformas como o Claude Cowork, da Anthropic. O OpenClaw, ferramenta de código aberto que coordena múltiplos agentes, também ajudou a popularizar esses sistemas no ambiente de trabalho.
Mas ter agentes de IA demais — especialmente vários executando as mesmas tarefas — pode criar problemas de cibersegurança e gestão para os departamentos corporativos de tecnologia da informação, além de elevar os custos de computação, disseram as empresas.
“Como todo mundo consegue fazer isso, provavelmente acabaremos com muitas pessoas tendo os mesmos tipos de agentes”, afirmou Michael Friedlander, diretor de tecnologia para as Américas da Magnum Ice Cream, dona da Ben & Jerry’s.
Segundo Friedlander, a fabricante de sorvetes eventualmente precisará condensar e centralizar todos os agentes de IA criados dentro da companhia, embora tente fazer isso sem sufocar a criatividade dos funcionários.
“Dependendo de como tudo isso evoluir, haverá tokens, haverá custos e então surge a questão: ‘Como administrar isso para garantir um modelo financeiramente responsável?’”, acrescentou.
Nos próximos dois anos, a empresa média da Fortune 500 deverá operar mais de 150 mil agentes de IA, segundo a consultoria Gartner. Mas apenas 13% das organizações acreditam ter governança adequada para esses agentes.
Gerenciando os riscos da proliferação
Por enquanto, a maioria dos agentes de IA é usada por profissionais de escritório para tarefas como escrever código, resumir e-mails, fazer atendimento ao cliente e analisar dados. Mas agentes mais complexos já são utilizados para “pesquisa profunda” e automação de fluxos completos de trabalho.
Ainda assim, esses agentes podem estar rodando em laptops de funcionários, servidores ou outros sistemas corporativos, dificultando o controle por parte das equipes de TI, disse Jai Das, cofundador e presidente da gestora de venture capital Sapphire Ventures.
Mike Trkay, diretor de clientes e de tecnologia da Fair Isaac — conhecida como FICO por causa de sua famosa pontuação de crédito — disse que os 3.500 funcionários da empresa criam dezenas de novos agentes de IA diariamente.
“Todos os dias, literalmente, novos agentes estão sendo criados, e praticamente em todos os níveis da estrutura hierárquica”, afirmou Trkay.
Segundo ele, os agentes vão desde bots individuais para tarefas como gerenciar e-mails ou redigir resumos até agentes de maior escala capazes de administrar conjuntos de dados para múltiplos projetos.
A empresa agora implementa práticas de governança para evitar que agentes demais forneçam resultados conflitantes para o mesmo problema.
“Reconhecemos o risco que isso representa”, disse Trkay.
Funcionários da DaVita criaram mais de 10 mil agentes de IA, afirmou a CIO Madhu Narasimhan. Para ajudar a evitar riscos de cibersegurança, ela disse que a empresa de cuidados renais não permite ferramentas de agentes de IA “voltadas ao consumidor” em seu ambiente corporativo.
“Como cuidamos de pacientes, precisamos escalar com segurança”, afirmou.
A DaVita também desenvolveu uma plataforma interna que permite reduzir inferências e controlar custos de tokens quando necessário, além de ampliar os gastos com os agentes de IA de melhor desempenho.
Tentando organizar os bots
Alguns executivos de tecnologia adotam uma postura igualmente proativa para administrar seus agentes de IA, tentando evitar que a proliferação se torne um problema ainda maior.
Na Lyft, Jason Vogrinec, vice-presidente executivo de transformação em IA da empresa, disse que a companhia disponibilizou o Claude para seus funcionários e encontrou uma forma aprovada pela área de TI para compartilhar “habilidades” — conjuntos de instruções que ajudam os agentes Claude a executar tarefas específicas.
A Lyft também trabalha na criação de uma plataforma centralizada com controles de TI para todos os seus agentes.
Ter agentes demais cria um desafio para “uma empresa de capital aberto com muitas obrigações regulatórias”, afirmou Vogrinec.
A Anthropic disse que lançou recursos para ajudar administradores de TI em áreas como acesso baseado em funções, controle de gastos, análises de uso, registros de auditoria e bibliotecas de plug-ins selecionados.
Manu Narayan, CIO da GitLab, afirmou que os mecanismos de governança e proteção já existentes na empresa “estão segurando a onda” para evitar proliferação excessiva de agentes de IA.
Mas também existem benefícios em ter agentes demais — ao menos por enquanto.
“Haverá proliferação de agentes no curto prazo”, disse Narayan, “e estamos, na verdade, confortáveis com isso por causa das oportunidades que a IA oferece.”
