Apenas três meses após atingir o preço até então inimaginável de US$ 4.000 por onça troy, os preços do ouro estão à beira de chegar a US$ 5.000.
Os contratos futuros subiram mais de 2%, sendo negociados acima de US$ 4.800 na manhã de quarta-feira. Na terça-feira, tiveram alta de 3,7%, fechando em recorde de US$ 4.759,60 por onça, impulsionados pelas ameaças de Trump de aplicar tarifas adicionais sobre a Europa em sua busca por Groenlândia e pelo aumento da preocupação com a independência do Federal Reserve. O ganho de US$ 171,20 em apenas um dia foi o maior já registrado.
Aqui estão cinco fatores que impulsionam o mercado:
1-A aposta contra desvalorização
Entre os compradores mais otimistas de ouro estão aqueles preocupados com a força do dólar e de outras grandes moedas. Eles compraram o metal precioso como reserva de valor, esperando que ele resista a choques econômicos.
Recentemente, Trump deu motivos de sobra para cautela. Só neste mês, ele autorizou uma incursão na Venezuela para depor o ditador Nicolás Maduro, aumentou a pressão sobre o presidente do Fed, Jerome Powell, para reduzir juros por meio de investigação do Departamento de Justiça, e ameaçou impor tarifas adicionais a aliados europeus caso não concordem com sua busca pela Groenlândia.
Conhecida em Wall Street como “debasement trade”, a estratégia é impulsionada pelo medo de que a incapacidade dos governos de controlar a inflação ou reduzir dívidas corroa o valor das moedas que sustentam o sistema financeiro global.
No início de 2025, investidores correram para o ouro enquanto a onda de tarifas de Trump contribuiu para o pior primeiro semestre do dólar em 50 anos. Depois que Powell, em agosto, sinalizou que o Fed começaria a cortar juros apesar da inflação acima da meta, o ouro continuou subindo.
Enquanto isso, a expansão da dívida e políticas econômicas expansionistas na Europa e no Japão adicionaram combustível à alta. À medida que os operadores avaliavam os temores renovados de uma guerra comercial transatlântica, uma venda de títulos no Japão elevou os rendimentos da dívida de longo prazo do país a recordes.
Analistas afirmam que a estabilidade dessas bases de mercado, bem como das instituições que as supervisionam, poderá ditar o rumo do ouro.
“O rali do ouro é sobre confiança”, disse Daniel Ghali, estrategista da TD Securities, a clientes na terça-feira. “Por enquanto, a confiança se dobrou, mas não quebrou. Se quebrar, o momentum continuará por mais tempo.”
2- Juros mais baixos
Os cortes de juros do Fed, que reduziram o rendimento de títulos do governo e de dinheiro em caixa, também estão levando investidores a ouro.
Títulos públicos considerados superseguros tornaram-se atrativos em 2022, quando o Fed começou a elevar juros para combater a inflação do período da Covid. O montante em fundos de mercado monetário, que compram títulos do Tesouro, subiu para US$ 7,7 trilhões no final do ano passado, ante cerca de US$ 5,1 trilhões no início de 2022, antes da alta dos juros.
Com retornos mais baixos (e possivelmente a caminho de novos cortes caso Trump consiga reduzir taxas ainda mais), títulos e fundos de mercado monetário perderam parte de sua atratividade.
Retornos menores de ativos considerados livres de risco reduzem o custo de oportunidade de manter ouro, que não rende juros, mas tem potencial de valorização muito maior.
Se apenas uma fração do montante em fundos de mercado monetário for convertida em ouro, isso pode ter impacto significativo no preço do metal. Analistas do Goldman Sachs estimam que fundos negociados em bolsa (ETFs) de ouro representam apenas 0,17% das carteiras financeiras privadas dos EUA e que, para cada aumento de 0,01%, impulsionado por compras, e não pela valorização, o preço do ouro subiria 1,4%.
3 – Compras de bancos centrais
Enquanto isso, investidores precisam competir pelo ouro com um grupo para o qual o preço raramente é problema: os bancos centrais.
Bancos centrais, que foram vendedores líquidos de ouro por muitos anos, tornaram-se compradores líquidos em 2010, após reavaliarem riscos depois da crise financeira desencadeada pelo colapso hipotecário americano. Eles aceleraram as compras em 2022, após o Ocidente sancionar a Rússia pela invasão da Ucrânia. Países com relações tensas com o Ocidente, como a China, estão se afastando de ativos atrelados ao dólar e adquirindo ouro, fora do alcance de investidores estrangeiros.
Outros, como o Banco Nacional da Polônia, que aprovou outra grande compra recentemente, buscam assegurar a estabilidade de suas próprias moedas adicionando ativos sem os riscos da dívida soberana.
“Bancos centrais compram ouro não só pelo desempenho do preço, mas pelo papel que ele pode desempenhar nas reservas estrangeiras”, disse Juan Carlos Artigas, chefe de pesquisa do World Gold Council. “O ouro é muito útil para proteger ou diversificar reservas.”
4- Ações caras
Como o ouro, os principais índices de ações atingiram recordes. Seus preços vertiginosos deixam investidores nervosos.
A forma mais comum de avaliar ações é pelo múltiplo de lucros. Uma medida popular, ajustada ciclicamente, indica que as ações só estiveram mais caras uma vez nos últimos 100 anos: antes da bolha da internet em 2000.
As ações de tecnologia continuam sendo a principal preocupação, em que poucas gigantes, como Nvidia, Tesla e Amazon, podem puxar o índice S&P 500 para cima ou para baixo independentemente das outras 490 ações.
Na terça-feira, por exemplo, cada uma das chamadas “7 Magníficas” de tecnologia terminou em queda, eliminando coletivamente US$ 683 bilhões e arrastando o S&P 500 2,1% para baixo. Enquanto isso, o índice Russell 2000, de empresas menores, caiu 1,2%, mas superou o S&P 500 pelo 12º dia consecutivo, mostrando como investidores buscam alternativas às grandes ações de tecnologia.
5 – Momentum
O ouro tende a continuar subindo, pois os ralis do metal são geralmente duradouros. Em cinco dos seis anos antes de 2025 em que os futuros de ouro subiram pelo menos 20%, eles subiram novamente no ano seguinte. Nessas cinco vezes, o aumento médio foi superior a 15%, segundo analistas do Citi.
O padrão se manteve em 2025, quando o ouro seguiu o aumento de 27% em 2024 com uma alta de 65%.
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