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De retailtech para healthtech: quais as tendências para as empresas do setor?

Entenda o que vem pela frente para empresas como Amazon, GPA, Netflix, Ambev, Magazine Luiza, Natura além das Healthtechs.

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A análise apropriada das estratégias das empresas, combinada a indicadores de interesse, suporta profundidade na escolha de quais empresas investir ou evitar.

Muitas vezes, de fora, vemos apenas a ponta do iceberg ou um conjunto de números que eventualmente tiram a atenção do que é importante: a estratégia que poderá (ou não) influenciar a expectativa de crescimento e lucros futuros no negócio. 

A partir da análise dos comunicados das empresas de capital aberto e de notícias na mídia, tenho aplicado conceitos e metodologias na área de estratégia e de inovação para arriscar algumas predições e provocações, sempre com cuidado, respeitando limites éticos e com embasamento de princípios de negócios.

São princípios ligados à inovação, marketing e finanças que tenho tido o privilégio de ensinar em aulas, palestras e workshops a milhares de executivos em programas que coordeno ou ministro no Brasil e nos Estados Unidos por mais de 15 anos.

Além disso, estou sempre de olho, e eventualmente participando, no que acontece em mercados como Estados Unidos e Ásia para antecipar algumas tendências que podem se encaixar futuramente no Brasil.

Com base nisso, preparei um balanço de algumas dessas predições, além de novas apostas para os próximos anos. 

Começando pelo GPA (PCAR3), em novembro de 2022, a mídia reportou comunicados dizendo que James Delivery seria extinto após ser incorporado pelo varejista.

Antes, desde 2021, já observava nas minhas análises que o James Delivery dificilmente funcionaria porque era muito centrada nos interesses da própria empresa, que anunciava não querer compartilhar dados com a Rappi, do que centrada nos interesses dos consumidores que queriam um único aplicativo para resolver suas necessidades de compras de alimentos.

Até aquele momento, a mídia noticiava o GPA dizendo que James Delivery seria maior do que a Rappi em poucos anos: “Vamos ser maiores que a Rappi nos próximos três anos. Temos tudo para ser. Entendemos que dentro do processo de transformação digital pelo qual passamos, talvez essa seja a decisão mais importante que a companhia tomou. Trazer para dentro do grupo um parceiro como a James vai fazer com que ganhemos alguns anos na implementação da estratégia”, disse na mídia o então diretor-presidente do GPA, Peter Estermann.

Ao identificar que, de fato, a decisão foi um erro na estratégia, em 2022, ele anunciou parcerias com o iFood, a retomada da parceria com a Rappi, Mercado Livre e várias outras iniciativas em colaboração. Isso faz mais sentido e poderemos potencialmente ver melhores resultados no futuro decorrentes destes ajustes na estratégia, especialmente pela atenção do mercado no varejo de alimentos. Atuar em colaboração faz total sentido e o GPA tem potencial para contribuir com várias colaborações com grandes plataformas já estabelecidas.

A guinada da Netflix

No ano passado, após a Netflix (NFLX34) ter apresentado forte queima de caixa e perdido assinantes, analisei a estratégia da empresa, seu modelo de negócio e fiz a seguinte provocação: até quando Netflix vai ficar no vermelho?

A ideia era simples: sem conteúdos como filmes e séries novos e de qualidade, perderia assinantes. Com conteúdos novos, ganharia assinantes, mas queimaria caixa – mesmo dando lucro – devido a um alto valor para produzir conteúdo e que é amortizado a cada ano em suas demonstrações de resultados. 

Argumentei que Netflix poderia destravar o valor de suas ações se quebrasse essa regra. Dito e feito: no resultado divulgado para o terceiro trimestre de 2022, a empresa cresceu o número de assinantes em 2,4 milhões contra 1 milhão que era o esperado pelo mercado. 

Além disso, diante de produções de sucesso como a quarta temporada de Stranger Things, o lucro continuou aparecendo e, desta vez, o free cash flow foi positivo, em 472 milhões de dólares. 

Com isso, no dia seguinte ao anúncio, a ação subiu 13%, uma alta considerável ainda mais em tempos de uma grande guerra no setor do streaming com Disney+, Amazon Prime Video, HBO Max e vários outros streamers.

Natura vai conseguir destravar valor?

Em outubro de 2022, vários veículos reportaram que a ação da Natura havia disparado quase 10% com o comunicado da empresa sobre possível spin-off ou IPO da sua marca australiana Aesop.

A título de curiosidade, antes deste anúncio, comentei em episódios de Por Dentro do Negócio que, para empresas altamente integradas, isto é, com vários negócios, marcas, mercados e com grande amplitude de atuação, o destrave de valor pode vir por meio de spin-offs, ou seja, da separação de alguns negócios.

O motivo para isso é simples: normalmente, algumas unidades de negócios ficam com uma precificação ruim dentro do atual valuation da empresa por causa da baixa representatividade de um ou outro negócio no Ebitda consolidado, e isso ainda piora quando a empresa não entrega bons resultados gerais.

Enquanto nos Estados Unidos e na Europa os spin-offs estão ficando mais comuns, inclusive entre empresas de capital aberto, as empresas no Brasil ainda tentam focar na integração de seus negócios tradicionais com novos negócios, como a Natura com suas várias aquisições, incluindo a Singu, um aplicativo de delivery de serviços de beleza no Brasil. Ainda, a integração entre lojas Americanas e B2W para unir o físico e virtual, ou da Ambev com o Zé Delivery e com a Bees. Muitas das empresas de capital aberto no Brasil falam em ecossistemas e super apps, algo que a meu ver é um conceito muito distante do que de fato acontece na realidade da atuação de algumas delas. 

Aos poucos, acredito que as empresas, incluindo a Ambev, vão perceber que a visão de ecossistema é complicada e tende a gerar mais distrações do que oportunidades válidas. Não será viável para todas que anunciam querer desenvolver um ecossistema. Conforme avança para novos negócios integrados, o escopo da competição muda, as competências necessárias são diferentes, e o modelo de negócio vai sendo transformado. 

Por isso, é importante ficar atento aos anúncios ou indícios de spin-offs de empresas que você investe, pois eles podem ajudar a destravar valor rapidamente.

De forma prática, se empresas como Ambev, Magalu e Americanas, apenas para mencionar algumas entre tantas outras, começarem a fazer isso da maneira correta e precisa, há grande potencial para melhorarem seus valores de mercado em um momento desafiador na economia no qual apresentar potencial futuro de lucro tem sido tão importante quanto mostrar capacidade futura de crescimento que podem causar prejuízos ou queimas de caixa no curto prazo. Com os desafios na economia, focar no que a empresa já faz bem e suas competências existentes (core business) poderá ser chave para evitar queimas de caixa e prejuízos. 

Quem vai se diferenciar na disputa entre varejistas e na corrida pela transformação digital?

Apontei em alguns programas anteriores em 2022 que as estratégias da Americanas, Via e Magazine Luiza estavam cada vez mais sobrepostas e seria complicado dar resultados no formato atual – mesmo com a breve euforia do mercado em 2022 com lucro da Americanas.

Em novembro de 2022, as notícias revelaram prejuízos das três empresas. Claro que há fatores externos como economia, consumo e outros, mas existem também fatores ligados aos seus modelos de negócios que ainda precisam ser balanceados de um jeito ou de outro. Entre elas, acredito que o maior potencial é o da Magalu, que tem a estratégia e execução mais alinhadas e com mais maturidade. 

Só que a competição com e-commerces asiáticos, além da Amazon e Mercado Livre não deixará o caminho fácil. 

Diante de tudo isso, o que deve acontecer nos próximos anos? 

Na minha análise, as varejistas que se transformaram em empresas de tecnologia vão ser cada vez mais questionadas e sentirão dois grandes impactos.

O primeiro afeta principalmente empresas com modelos de tecnologia orientados a reportar números que comprovem o crescimento, e acontece pelo aumento das taxas de desconto e inflação que pressionam os custos, a demanda e a avaliação dos seus fluxos de caixa futuros que passam a valer menos. Enquanto isso, o seu modelo de investimentos para sustentar receitas e crescimentos custa mais.

O segundo impacto ocorre porque algumas delas estão no meio do caminho entre varejo e tecnologia. Elas serão afetadas pelas dinâmicas desses dois setores, para o bem ou para o mal. Nessa transição, a meu ver Magalu estava mais avançada, enquanto algumas ainda estavam no meio do caminho, como a Renner, Via, Americanas, Centauro/SFB, CVC, Natura e tantas outras. Ainda assim, a estratégia de empresas focadas em menos segmentos, como a Centauro do Grupo SBF, focada em esportes, pode ter vantagens e acelerarem os resultados positivos de suas iniciativas de crescimento ao concorrerem com plataformas mais generalistas.

Para qual direção olhar? De retailtech para healthtech 

Na minha análise, o próximo ‘retail tech’ visto por investidores poderá acontecer na área de saúde. Empresas como Raiadrogasil, Grupo Fleury, ou empresas que oferecem planos de saúde como Hapvida e redes de hospitais como a Rede D’Or, passam a ter enormes potenciais reprimidos, que serão, aos poucos, destravados.

O que está acontecendo nos Estados Unidos ajuda a entender o que, de certa forma, pode acontecer no Brasil.

A Amazon (AMZO34), empresa que combina negócios nas mais diferentes indústrias como varejo, tecnologia e streaming, está fazendo muitos e grandes movimentos no setor de saúde.  

Em julho de 2022, ela anunciou a compra da plataforma de saúde One Medical por 3,9 bilhões de dólares. A One Medical é uma plataforma que permite o atendimento virtual de clientes e pacientes 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Vale lembrar também que a Amazon comprou, em 2018, a PillPack por 750 milhões de dólares, para daí lançar sua farmácia digital nos Estados Unidos. A empresa também testou algumas parcerias com vários grandes provedores de serviços e seguros de saúde para oferecer planos a um custo menor para que empresas contratem e ofereçam aos seus funcionários e colaboradores.

Outro exemplo é Everlywell, uma startup americana que transformou o tradicional serviço de exames laboratoriais e diagnósticos. A inovação foi que o paciente, em vez de ter que ir ao laboratório, ganhou acesso a kits vendidos digitalmente para realização de exames em casa, de maneira acessível e conveniente, resolvendo a insatisfação de quem precisava gastar muito tempo, esforço e dinheiro para realizar, esperar e retirar seus exames nos laboratórios tradicionais. Estima-se que a empresa tenha atingido um valor de mercado próximo a 3 bilhões de dólares. 

No Brasil – assim como foi o setor de varejo antes da entrada da Amazon e fortes investimentos do Mercado Livre -, o setor de saúde ainda tem fôlego para que as empresas aqui listadas possam buscar alternativas para se prepararem com maior precisão e intensidade para este futuro digital.

O Grupo Fleury, por exemplo, já está agindo: anunciou que quer ir além da medicina diagnóstica e integrar ao negócio diversas soluções e plataformas. Em 2020, lançou a startup Saúde iD, uma plataforma que une pacientes, médicos, empresas e operadoras, além de testar modelos de parcerias com redes de farmácias como a Pague Menos. 

A RaiaDrogasil também está fazendo um trabalho interessante e anunciando várias iniciativas e aquisições para além do seu core business, que é a venda de medicamentos. Ela diz querer integrar serviços e produtos em um ecossistema de saúde.

Enquanto isso, startups tentam agir no Brasil, como a Far.me Box, criada por farmacêuticas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e que replica o que a PillPack fazia nos EUA, que é a separação, organização e entrega de medicamentos rotineiramente na casa das pessoas.

Por todos esses motivos e exemplos, há muitas oportunidades ao combinar empresas de saúde e tecnologia, e vale monitorar as movimentações de empresas do setor listadas na bolsa.

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