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Dólar barato e (ainda) pagando juro alto: o melhor momento em anos para mandar dinheiro para fora

Com a pausa dos cortes nos juros do Fed e o momento de fragilidade do dólar, abre-se uma porta de entrada para a renda fixa americana

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Prever o futuro do câmbio é como adivinhar qual pipoca vai estourar primeiro na panela. Impossível. Mas fato é que o dólar já caiu quase 20% desde o último pico, para abaixo dos R$ 5,20. Pelo menos em comparação com os últimos tempos é um momento bom para quem quer aumentar os investimentos em moeda americana. Há uma janela que não se vê há quase dois anos, com a divisa dos EUA no menor patamar ante o real desde maio de 2024.

E tem mais: com a pausa nos cortes de juros decidida pelo Fed na quarta-feira (28), os títulos de renda fixa nos EUA mantêm os retornos em um patamar ainda historicamente elevado, perto dos 4% ao ano – o ‘normal’ é dar metade disso, ou menos. E porque isso importa? Porque essa uma boa chance para o investidor brasileiro travar rendimentos altos em moeda forte.

O Fed tem sinalizado que a interrupção do ciclo de cortes de juros definida nesta última reunião de política monetária, na verdade, trata-se de uma pausa. O BC americano tem fornecido indicações que pode retomar a queda das taxas em algum momento em meados do ano.

E assim como no Brasil, onde o Banco Central já sinaliza o início do ciclo de cortes da Selic para março, o mercado se antecipa aos movimentos dos juros. A oportunidade é clara: como a imensa maioria dos títulos americanos são prefixados, ou seja, as taxas são definidas no momento no qual o investidor adquire o papel, existe a possibilidade de um ganho extra de rentabilidade.

Esse retorno maior ocorre porque o preço do papel que o investidor já tem em mãos sobe conforme as taxas caem. Isso na chamada marcação a mercado, ou seja, o cálculo diário do valor do título, que oscila conforme as expectativas econômicas, de política monetária e até geopolíticas. É claro que quem levar a aplicação até o vencimento vai receber exatamente o que contratou ao adquirir o produto de renda fixa.

De qualquer modo, existe a oportunidade para o investidor brasileiro criar uma espécie de reserva de emergência em dólar. Na prática, aproveitar as taxas ainda elevadas de aplicações de curto prazo que possam ser resgatadas rapidamente.

Ainda que a divisa americana esteja em um momento de fraqueza global, é sempre importante lembrar que o comportamento do câmbio é imprevisível. No médio e longo prazos, ter uma parcela do dinheiro aplicado em moeda forte se torna uma importante fonte de proteção, além de retornos consistentes e com pouca correlação às vulnerabilidades do nosso mercado.

Como montar a reserva em dólar

A estratégia mais eficiente é aproveitar os próximos meses para investir regularmente em um produto de renda fixa conservador e de alta liquidez nos EUA. Traduzindo: uma aplicação segura, com rendimentos diários e que você poderá sacar os recursos quando quiser.

Entre as oportunidades para montar a reserva em dólar, estão os títulos de renda fixa de curto prazo emitidos pelo governo americano, as T-bills. São papéis com vencimentos entre 4 semanas e 52 semanas, com alta liquidez no mercado secundário, o que permite ao investidor vendê-los rapidamente antes do vencimento, se precisar do dinheiro.

Os americanos usam as T-Bills da mesma forma como os brasileiros usam o Tesouro Selic. É nesses papéis, cujas taxas variam hoje entre 3,5% e 3,7% ao ano, que os americanos montam suas reservas de emergência. Eles não são pós-fixados, como os nossos. Mas, por serem prefixados de prazo curtíssimo, tendem a fazer com que o saldo suba constantemente. Esse tipo de aplicação pode ser acessada pelos brasileiros por meio das plataformas das contas globais de empresas como Avenue, Wise e Nomad, entre outras.

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Outra forma de investir na renda fixa de lá, até mais simples, são os ETFs de títulos públicos americanos de curto prazo.

Esses fundos de índices têm cotas negociadas na bolsa. Esses veículos mantêm uma carteira com até 80% aplicada em papéis do Tesouro dos EUA com prazos de até 3 meses.

O ETF VBILL da Vanguard, por exemplo, tem hoje um retorno em 12 meses de 3,44%. Outro fundo o TBLL, da Invesco, tem um yield em 12 meses de 3,8%. Funciona de maneira parecida com o nosso CDI.

Existem outros ETFs com carteiras baseadas nos títulos curtos do Tesouro americano. Os dois mais líquidos além do VBILL são o SPDR Bloomberg 1-3 Month T-Bill ETF e o iShares 0-3 Month Treasury Bond ETF. As cotas desses ETFs têm sido negociadas por preços entre US$ 75 e US$ 100.

A aplicação em T-bills ou em ETFs também ajudam a atenuar os efeitos do sobe e desce do dólar ante o real pelo efeito dos juros compostos. Isso significa que quanto mais tempo o dinheiro ficar investido maior a vantagem na rentabilidade da carteira.

O “fundo DI” dos EUA

Os Estados Unidos também têm um produto equivalente ao nosso fundo DI. O produto brasileiro tem como características ser uma aplicação segura, com liquidez diária e retorno próximo ao do CDI, que é nossa taxa de remuneração mais conservadora.

Lá no mercado americano essa função é do chamado money market, que poderia ser traduzido, literalmente, como “mercado de dinheiro” ou “mercado monetário”. O nome diz tudo: aplicações no money market são considerados como equivalente a dinheiro em caixa na contabilidade de empresas, instituições e investidores institucionais. Isso devido à segurança e altíssima liquidez.

A remuneração desses produtos segue de perto as taxas de curto prazo definidas pelo banco central americano, o Federal Reserve. Em janeiro de 2026, estavam em torno de 3,5% ao ano em dólar. As plataformas de investimentos digitais permitem aos brasileiros acessar fundos de money market e outras opções nos EUA.

O investimento mínimo fica em torno de US$ 1 mil no money market.

Visão de longo prazo

O momento é oportuno também para que quer manter os recursos no longo prazo. Nesse caso, o investidor pode aproveitar os títulos públicos americanos mais longos e também os papéis emitidos por companhias com melhor perfil de crédito, os chamados bonds.

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No caso dos brasileiros, uma estratégia eficaz é aplicar em bonds de companhias nacionais, como Petrobras e Vale. Essas gigantes costumam pagar taxas mais elevadas que seus pares para captar em moeda forte. Isso porque o mercado enxerga nossas gigantes como empresas de mercados emergentes que precisam pagar um prêmio maior comparadas aos grupos americanos.

A Petrobras tem um bond com vencimento em 2035 que hoje está sendo negociado com uma taxa de retorno (yield) de 6% ao ano. Outro papel com prazo em 2041 oferece um yield de 6,75% anual.

O bond da Vale com vencimento em 2036 é negociado a uma taxa de 5,30%. Outro título em dólar da mineradora com prazo até 2039 paga atualmente um yield de 5,5% ao ano.

Os títulos do Tesouro dos EUA, conhecidos como Treasuries, representam um mercado de quase US$ 30 trilhões. É um dos maiores e mais líquidos do mundo. A Treasury de 10 anos tem sido negociada com uma taxa de 4,2% ao ano, enquanto a de cinco anos oferece atualmente um retorno de 3,8%.

Tanto os bonds quanto as Treasuries são oferecidas como opções de investimentos tanto nas plataformas digitais de investimentos quando nas atreladas às contas globais.

Contas globais de investimentos se popularizam

Os aplicativos de várias instituições financeiras e bancos digitais já oferecem a abertura de contas em dólar, euro e outras moedas.

Por meio das contas globais, o usuário pode fazer o câmbio a qualquer momento, em qualquer lugar onde esteja. A maior parte dessas plataformas oferece contas de investimento atreladas às contas-correntes internacionais.

Isso conta porque a alíquota do imposto sobre operações financeiras (IOF) sobre recursos enviados ao exterior é mais vantajosa do que aquela que incide nos pagamentos com cartão das contas de consumo. No caso do câmbio feito para uso em pagamentos, a alíquota é de 3,5% para cada operação e de 0,38% quando a pessoa vai repatriar os recursos, ou seja, converter para reais.

É bom lembrar ainda que as instituições costumam cobrar taxas operacionais em torno de 2% para as operações de câmbio. É o chamado “spread“.

Na conta investimento, o IOF é de 1,1%. Isso é importante porque você pode aplicar o dinheiro lá fora e quando precisar do dólares, resgatar da aplicação e transferir o dinheiro da conta investimento para a conta-corrente global.

Sobre essa operação não há IOF e, como não há conversão para o real, também não paga o spread cobrado pela instituição para a compra e venda de dólares. No entanto, o investidor terá de recolher imposto de renda sobre os ganhos. O IR tem alíquota única de 15%.

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