Às vésperas de receber um aporte de R$ 500 milhões liderado pelo bilionário Rubens Menin, o Atlético Mineiro busca organizar de vez sua estrutura financeira e avançar na transição de um clube sustentado pelos donos para uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF) com modelo de negócios mais sustentável.
Vindo da consultoria EY, Daniel tem como missão recuperar a saúde financeira do clube. O Atlético fechou 2024 com a maior alavancagem entre os times da Série A do Campeonato Brasileiro, que começa nesta quarta-feira (28).
A relação entre dívida líquida e receita total do Galo chegou a 3,8 vezes, de acordo com os últimos números disponíveis, de 2024 – o balanço de 2025 só será divulgado em abril. Nota: o normal para o cálculo de alavancagem em empresas é comparar a dívida líquida com o lucro operacional (Ebitda) – um número invariavelmente menor que o faturamento. Mas a contabilidade do futebol, em geral, não faz dessa forma.
O ponto é que 3,8 vezes o Ebitda já seria muito. Como estamos falando aqui em 3,8 vezes o faturamento, fica claro que é a situação é ainda pior. Mesmo assim, trata-se de uma redução. Em 2023, a relação era de 4,4 vezes. E o clube opera no azul. Em 2024, registrou receita de R$ 607 milhões e despesas de R$ 452 milhões.
Para enfrentar o alto endividamento, concentrado sobretudo no curto prazo, a SAF estruturou um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) que captou R$ 90 milhões em sua primeira emissão em meados de dezembro. Agora, o novo aporte de R$ 500 milhões, capitaneado por Menin, deve dar fôlego adicional ao caixa.
“Quando falamos em perfil da dívida, o que queremos atacar com esse novo aporte é exatamente a dívida de curto prazo”, diz Daniel, em entrevista ao InvestNews. “Nosso índice de alavancagem vem diminuindo. Falamos hoje em uma relação dívida e receita em torno de duas vezes para 2025, mas ainda temos uma estrutura de endividamento complexa.”
SAFs na segunda fase
O movimento do Atlético-MG ocorre num momento em que as SAFs começam a entrar em uma segunda fase no futebol brasileiro: menos marcada pela euforia dos aportes iniciais e mais pressionada pela necessidade de provar que conseguem operar como empresas viáveis.
A escolha do novo CEO do clube está diretamente conectada a esse desafio. Pedro Daniel construiu sua trajetória profissional em projetos de reestruturação e governança de clubes de futebol no Brasil e atuou como consultor da CBF e de órgãos públicos no processo de implementação das SAFs e da proposta de fair play financeiro no país.
No caso do Atlético, sua chegada ao comando executivo tem um componente singular. No ano passado, o clube iniciou um processo de sucessão para substituir o então CEO Bruno Muzzi. Daniel, por meio da EY, foi contratado para apoiar a busca e, ao mesmo tempo, desenvolver um plano estratégico para o futuro da operação, batizado internamente de “Galo 2030”.
E no fim o arquiteto do projeto foi quem assumiu a missão de executá-lo. “Desenhei aquilo que imaginava para o clube, já conhecendo o funcionamento do Atlético, e eles me disseram que, então, eu teria a caneta para colocar o plano em prática”, afirma o executivo, que atuava como consultor do clube desde 2020 e acompanhou de perto a transição do modelo associativo para o empresarial.
O plano passa por ampliar receitas recorrentes. Entre os objetivos está a exploração mais intensa da Arena MRV como ativo comercial. Inaugurado em 2023, o estádio comporta 43 mil torcedores em dias de jogo e mais de 60 mil pessoas em shows.
O clube firmou uma parceria com a americana Live Nation para ampliar o uso da arena como espaço multiuso e também anunciou investimentos de cerca de R$ 10 milhões na estrutura da base, com o objetivo de aumentar a formação e a venda de jovens talentos.
Além da infraestrutura, o plano inclui uma estratégia mais agressiva de posicionamento de marca. A meta é ampliar o alcance nacional do clube e fortalecer a identidade do “Galo” para além da associação regional com Minas Gerais.
A ambição declarada é levar o faturamento do clube à casa de R$ 1 bilhão nos próximos anos – sem considerar eventuais ganhos extras com desempenho esportivo, que poderiam acelerar esse processo.
Distância dos líderes
O CEO reconhece que, hoje, o Atlético Mineiro não tem capacidade de receita suficiente para disputar em pé de igualdade com Flamengo e Palmeiras, hoje os dois principais clubes do país em termos de elenco, títulos e poder financeiro.
O Flamengo confirmou faturamento superior a R$ 2 bilhões em 2025, o maior da história do futebol brasileiro, impulsionado por sua enorme base de torcedores, receitas comerciais e direitos de transmissão, além de ter vencido os principais torneios da temporada.
Já o Palmeiras estima encerrar o ano com uma receita de R$ 1,7 bilhão, com uma parcela relevante vinda da venda de jovens talentos – como Estêvão, negociado com o Chelsea por 61,5 milhões de euros (mais de R$ 360 milhões, em valores da época do acordo).
Para Cesar Grafietti, sócio da consultoria Convocados, o desafio do Atlético é menos esportivo e mais estrutural. “O principal problema do Galo é a dívida, avalizada pelos donos, principalmente os Menin. Estamos falando de um custo financeiro de mais de R$ 250 milhões por ano”, afirma.
“O segundo – e mais importante – é fazer com que o clube opere dentro dos seus limites. Não adianta resolver R$ 1 bilhão em dívidas se continuar trabalhando com prejuízo, endividando-se para tentar acompanhar Flamengo e Palmeiras”, prossegue Grafietti.
Implementado em 2021, o modelo de SAF mudou a lógica dos investimentos no futebol brasileiro. Clubes tradicionais como Atlético Mineiro, Botafogo, Cruzeiro e Vasco passaram a ver no formato uma porta de acesso ao mercado de capitais e uma alternativa para tentar reorganizar passivos históricos.
No caso do Atlético, a transformação foi concluída em 2023, com a criação da Galo Holding, avaliada em cerca de R$ 2,1 bilhões à época. A operação atraiu investidores de peso da economia mineira, como Rubens e Rafael Menin (ligados à MRV e ao Banco Inter), Ricardo Guimarães (BMG) e Renato Salvador (Mater Dei).
Atualmente, a 2R Holding S.A., de Rubens e Rafael Menin, detém 55,7% da Galo Holding, que por sua vez controla 75% da SAF do Atlético. Os 25% restantes seguem em ações mantidas pelo clube associativo.
O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, também participou da composição societária, mas sua participação na holding foi suspensa em meio aos problemas judiciais que cercam o empresário por conta da liquidação do Master. Com o novo aporte de R$ 500 milhões, a tendência é que sua fatia seja ainda mais diluída na estrutura acionária.
A sombra do rival
Além da dificuldade para reduzir a distância em relação a Flamengo e Palmeiras, o Atlético-MG passou a conviver, nos últimos dois anos, com um fator adicional de pressão: o ressurgimento do maior rival, o Cruzeiro.
Primeiro grande clube brasileiro a adotar o modelo de SAF, o time celeste foi comprado em dezembro de 2021 por Ronaldo Fenômeno, mas vive hoje uma nova fase sob o controle do empresário Pedro Lourenço, dono da rede Supermercados BH. Em 2024, ele adquiriu 90% da SAF do Cruzeiro por cerca de R$ 350 milhões.
A entrada de um investidor com ainda mais capacidade financeira acirrou os ânimos entre as torcidas em Belo Horizonte e mudou o equilíbrio recente entre os rivais. Enquanto o Cruzeiro acelerou os investimentos e passou a disputar em pé de igualdade os principais títulos da última temporada, o Atlético entrou em um processo de ajuste de rota, com foco no controle das dívidas.
O contraste também apareceu dentro de campo. Apesar do título estadual em 2025, o Atlético terminou o Campeonato Brasileiro na 11ª colocação, enquanto o Cruzeiro ficou em terceiro lugar, atrás apenas de Flamengo e Palmeiras.
“Agora é o Cruzeiro que tem, teoricamente, dinheiro e um investidor disposto a fortalecer o clube, enquanto o Atlético precisa lidar com problemas que foram criados nos últimos anos justamente por ter tentado crescer rápido demais”, avalia Cesar Grafietti, da consultoria Convocados.
Poder de negociação
No horizonte do CEO do Atlético, um tema ganha força: a reorganização dos direitos de transmissão. Os clubes se dividiram em duas ligas — Libra e LFU (Liga Forte União) – em busca de maior poder de negociação e novas fontes de valor para o “produto” Brasileirão.
Em outubro, o Atlético deixou a Libra e passou a integrar a LFU após divergências sobre os critérios de distribuição de receitas no acordo fechado com a TV Globo. A liga é formada com apoio de um consórcio de investidores que inclui General Atlantic, Life Capital Partners e XP, e tem atraído mais clubes – hoje são 12 times da série A na LFU e oito na Libra.
A mudança não gera impacto financeiro imediato para o clube, que tem contrato de transmissão vigente com a Globo até 2029. A aposta, porém, é que a atuação coletiva a partir de 2030 amplie o poder de barganha dos clubes nas negociações futuras.
“O Brasil talvez seja o último grande mercado do futebol em que o produto ainda é o clube, e não a liga. Nosso foco é ajudar a estruturar melhor o Campeonato Brasileiro como produto”, resume o CEO do Atlético.
