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‘Unicórnios’ brasileiros passam por ajuste, mas bom momento não chegou ao fim

Recentemente, Quinto Andar, Loft e Creditas anunciaram demissões em massa, o que chamou atenção para um mercado que, em 2021, bateu recorde de investimento no país.

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Apesar das expectativas positivas para os “unicórnios” brasileiros não terem mudado até agora, as companhias avaliadas em mais de US$ 1 bilhão no país passam por um período de “ajuste” em meio ao cenário macroeconômico, segundo especialistas ouvidos pelo InvestNews. Para eles, o bom momento dessas startups não está no fim e elas continuam com muito potencial de crescimento.

Recentemente, “unicórnios” brasileiros como Quinto Andar, Loft e Creditas anunciaram demissões em massa, o que chamou a atenção para um mercado que, até 2021, estava em franca expansão no país.

No ano passado, segundo a plataforma de inovação Distrito, as startups brasileiras receberam investimento recorde de US$ 9,43 bilhões, valor 2,5 vezes maior que no ano anterior. Enquanto isso, a Associação Brasileira de Startups (Abstartups) prevê que o número de unicórnios no Brasil deve passar dos atuais 20 para 100 até 2026.

Rubens Approbato, co-fundador da Poli Angels, associação de investidores e empresários, explica que a jornada das startups tem etapas e que Quinto Andar, Loft e Creditas, por exemplo, já estão bem na frente rumo a fazer um IPO (do inglês para “Initial Public Offering” ou oferta pública inicial de ações, em português), o que, segungo ele, requer ajustes destas companhias.

“Isto sempre exige ajustes, em particular quando o ambiente externo muda. O fato delas reagirem às mudanças com velocidade e tomarem as ações necessárias para continuar sua jornada com sucesso é extremamente positivo e mostra que sua liderança continua focada e ativa, ajustando rapidamente seu posicionamento e estratégia quando necessário”, diz Approbato.

Daniel Marigliano ,COO da FCJ Triangulo, destaca que estas empresas passam por ciclos e um deles é contratar mão-de-obra para realizar um movimento específico na organização, como um produto novo, uma nova frente, um canal diferente etc.

“Porém, com o crescimento das organizações, as startups estruturam as suas entregas e automatizam seus processos. Com isso, vem as suspensões de contratos de trabalho. Tecnicamente falando, vejo (as demissões) mais como um ajuste estratégico”, diz Marigliano.

Outros motivos para demissões

Ana Paula Debiazi, CEO da Leonora Ventures, destaca que há uma série de fatores envolvidos nestas demissões. O primeiro deles é o ambiente macroeconômico global não favorável, com o aumento da taxa de juros e inflação no mundo impactando empresas que precisam “enxugar” suas operações para continuar no caminho do crescimento. 

O segundo fator, de acordo com a CEO da Leonora Ventures, é o impacto da pandemia nas empresas do setor imobiliário, com os valores dos aluguéis reduzidos para manter o inquilino, o que impacta nas taxas de transação e comissão. Debiazi destaca ainda que, no período mais agudo da pandemia, o dólar teve um aumento significativo, impactando também diretamente nas contas das startups, que contratam a maioria de seus serviços na moeda norte-americana, como serviço de nuvem. 

Debiazi aponta ainda que estas empresas que receberam aportes estão fazendo aquisição de outras companhias no mercado, e precisam reacomodar alguns cargos e posições, o que faz com que alguns cargos deixem de existir, além da imaturidade financeira e operacional de algumas startups que começam a receber investimento e queimam caixa com muita rapidez, muitas vezes, de forma desnecessária, precisando fazer ajustes.

“Eu não vejo surpresa nas demissões. Nosso mercado macroeconômico não está favorável, não estamos falando de Brasil apenas, e, sim, do mundo todo, e permanecerá assim por algum tempo. As empresas, sejam startups unicórnios ou tradicionais, precisam ter seu planejamento estratégico de crescimento ligado a um financeiro saudável. E isso faz com que a operação tenha que se encaixar dentro de um orçamento saudável, para manter o crescimento da empresa”, defende a CEO da Leonora Ventures.

O que dizem Quinto Andar, Loft e Creditas

Procurada pelo InvestNews sobre o atual momento de redução em seu quadro, a Loft, startup que utiliza tecnologia para a compra e venda de apartamentos, informou que conclui o processo de integração com a CrediHome, empresa do mercado de originação de crédito imobiliário que foi adquirida pela Loft em setembro do ano passado. 

“Para esta reorganização, a CrediHome by Loft – como passa a ser denominada a área de crédito do grupo – desligou 159 funcionários, a maioria das áreas comercial e de operações. Outros 52, de produto e tecnologia,  foram transferidos para outras empresas do grupo, como o próprio marketplace da Loft, a CredPago, Nomah e Vista” disse a Loft. 

Já o QuintoAndar informou à reportagem que, apesar da expansão de produtos em 2022 e de um crescimento de 30% no primeiro trimestre deste ano em relação ao trimestre anterior na compra e vendas e de avanço de 23% em aluguel, também na mesma base de comparação, frequentemente faz ajustes internos buscando mais eficiência operacional.

 “Neste processo, repriorizamos algumas de nossas iniciativas internas e alguns times e funções deixaram de existir, gerando uma redução de 4% da nossa equipe”, disse o QuintoAndar.

Já a Creditas informou ao InvestNews que a única área que teve ajuste interno foi a equipe de gestão de escritórios e espaços físicos, com a redução de 11 pessoas, por causa da adoção do modelo de trabalho híbrido. Atualmente, a empresa está usando 15% da capacidade de seus dos espaços físicos.

“Nosso número de colaboradores se manteve estável durante os meses de março e abril deste ano, acima de 4.000 funcionários. Seguimos com ritmo de crescimento de receita acelerado e projetamos crescimento de novo em 2022 de mais de duas vezes”, informou a Creditas.

Novas perspectivas para as startups?

Com a necessidade de isolamento social para contenção da covid-19, foi necessário buscar alternativas para setores continuarem atuando à distância. E as startups se destacaram neste período mais crítico da pandemia, por causa dos processos de avanços da digitalização.

Apesar de a pandemia ter arrefecido recentemente no país, com a melhora nos números de casos e mortes no Brasil, Diogo Catão, CEO da Dome Ventures, acredita que este cenário não deve impactar negativamente as startups, pois elas têm capacidade de adaptação e mudança rápida em meio a momentos incertos.

“De uma forma geral, as startups conseguiram se sobressair e utilizar o lado criativo para criar soluções inovadoras  para  passar pela pandemia. Com uma nova alteração do comportamento da população, as startups vão se adaptar também”, avalia Catão.

Rubens Approbato, da Poli Angels, também compartilha da opinião. Segundo ele, a aceleração da utilização de recursos digitais e da inclusão digital facilitou a vida de muitas pessoas e novas possibilidades surgiram para as cadeias de suprimento, para as formas de interagir, para o aumento de produtividade, para ganhar tempo e reduzir custos. “Estas coisas vão ficar e continuarão a gerar oportunidades para as startups”, acredita.

Redução de investimentos em startups: um risco?

Apesar de as startups brasileiras terem recebido investimento recorde em 2011, no primeiro trimestre de 2022 o valor investido cresceu menos. Foram US$ 2 bilhões em aportes nas startups, 4% acima do mesmo período do ano passado, segundo a plataforma Distrito. O crescimento é bem menor que no comparativo entre o 1º trimestre de 2021 e o 1º trimestre de 2020, quando o avanço foi de 368%.

Approbato não interpreta este cenário não como de desaceleração.  “Por um lado, a entrada de recursos nas startups, com a chegada de muitos fundos de venture capital e formação de novos grupos de investidores-anjos, foi muito rápida e em uma velocidade muito acima da entrada de novos talentos e de criação de novas startups no ecossistema. Assim, a disputa pelos bons projetos está acirrada. Muitos atores financeiros estão buscando alocar os recursos já disponibilizados antes de colocar mais recursos”, diz o co-fundador da Poli Angels.

Já Ana Paula Debiazi, CEO da Leonora Ventures, explica que grandes fundos estão sinalizando que deverão investir menos este ano, em função da instabilidade e incertezas do mercado econômico, mas que será algo temporário.

“Acreditamos que será uma pisada no freio de curto prazo, já que, para as startups, o mercado está aquecido. Isso é demonstrado pelas grandes corporações criando suas áreas de inovação, fundos de investimento em startups”, afirma Debiazi.

Diogo Catão, CEO da Dome Ventures, também considera que o cenário é passageiro, impactado, principalmente, pelo momento de alta da taxa Selic, que faz o apetite do investidor aumentar pela renda fixa. Segundo ele, o cenário é temporário e, eventualmente,  nos próximos meses vai mudar, com tendência de uma expectativa grande de investimento a partir do quarto trimestre deste ano e início de 2023.

Boom dos ‘unicórnios’ ameaçado?

Apesar da redução dos valores em aportes em startups e demissões nestas empresas, Catão considera que o bom momento de startups não está chegando ao fim. Ele explica que são ciclos e tendências de um mercado muito forte, com modelos de negócios com alto potencial de inovação de escalabilidade e replicabilidade.

“A tendência natural é que volte a crescer com força, em especial no final deste ano para o início do próximo ano. Vamos ver uma taxa de crescimento bastante acelerada mais em termo geral. O boom vai continuar e tem muito a expandir, tem um campo de oportunidade gigantesco”, defende o CEO da Dome Ventures. 

Para Catão, hoje, as empresas e startups de energia estão fortes e as govtechs (startups que geram inovação para a gestão pública) também, sendo as que estão mais sustentáveis e vem se destacando.

Rubens Approbato também está otimista com o futuro dos “unicórnios”. Para ele, o Brasil tem um grande mercado, muitos problemas mal resolvidos e muita inclusão a ser feita, o que gera oportunidades para essas startups.  

Approbato explica que o investimento em startups tem seu retorno no longo prazo, de 5 a 10 anos, então, é importante entender as grandes tendências de médio e longo prazo relativas aos segmentos do que escolher segmentos para investimentos baseado no cenário atual.

Daniel Marigliano – COO da FCJ Triangulo, também avalia que os “unicórnios” brasileiros continuam tendo muito potencial. “Antigamente você demorava muitos anos para chegar em um valuation de bilhões. Agora você já tem algumas ‘receitas prontas’ que podem te ajudar a chegar nesse patamar tão desejado. As empresas começaram olhar o mercado e, principalmente, o internacional para crescimento”, destaca Marigliano.

Desafios para os ‘unicórnios

Approbato aponta que alguns desafios são claros para as startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão, como o marco legal das startups, que, na avaliação dele, ainda deixou muito a ser corrigido para facilitar o crescimento e o investimento nestas empresas.

Outro desafio citado por Approbato é a disponibilidade de pessoas treinadas em tecnologias de ponta. Para ele, ainda é baixa no Brasil a capacidade de gerar e treinar novos talentos nas áreas técnicas, tecnológicas e de engenharia se comparado com outros países.

Para Debiazi, o maior desafio para os “unicórnios” é demonstrarem que o investimento recebido foi bem feito, pois estas startups precisam dar retorno a seus investidores. Para a CEO da Leonora Ventures, conhecer a operação, números e ajustar o que for necessário é importante para ter uma operação crescente e rentável.

Já Diogo Catão, CEO da Dome Ventures, destaca que o grande desafio para startups e “únicornios” brasileiras é ter um crescimento sustentável, ter lucro. “Há uma grande maioria das startups unicórnios que não geram lucro e os investidores estão cobrando essa performance, o que acabou refletindo nas demissões em massa para equilibrar a receita e despesa. Então, esse é o maior desafio atualmente”, acredita Catão. 

O lado do investidor

Debiazi  avalia que o investidor deve buscar formas de diminuir risco, ser cauteloso na escolha dos fundos que irá investir. Segundo a CEO da Leonora Ventures, é preciso buscar fundos que tenham uma metodologia bem estruturada para ajudar no crescimento saudável das startups.

Já Approbato alerta que o investidor de startups tem que estar preparado para perder o que investiu, ou seja, só pode investir aquilo que pode perder. O co-fundador da Poli Angels lembraa que o investimento em startups é de altíssimo risco e baixíssima liquidez e que, por isso, investir em startups exige montar uma carteira de pelo menos 10 a 15 startups ou entrar em fundos que montam suas próprias carteiras.

Para Daniel Mariglian, COO da FCJ Triangulo, o principal desafio é encontrar bons empreendedores. Mariglian explica que, assim como na startup, tudo isso é relativo ao estágio de maturidade daquele investimento, mas que, no começo, se fala da excelência em um bom time de fundadores e, com o decorrer do crescimento, o foco em multiplicadores e bons estrategistas fica cada vez maior.

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