Se você costuma correr ou caminhar em algum parque da cidade, tem uma grande chance de já ter sido fotografado – e talvez nem tenha percebido. Faz algum tempo que fotógrafos especializados em eventos esportivos cruzaram os limites das provas de fim de semana e se espalharam pelos lugares onde tem gente apenas treinando. Isso inclui o parque Ibirapuera, a USP e o Minhocão, em São Paulo; o calçadão de Ipanema, no Rio; a lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte; o parque Monsanto, em Lisboa… e em qualquer dia da semana.

Quem deu a largada para essa onda foi a Fotop, plataforma aberta para fotógrafos freelancers que fazem as coberturas de eventos esportivos – de corrida a ciclismo, passando por triathlon e natação. Depois eles vendem essas imagens – por meio da plataforma – para os próprios esportistas. E esse pelotão tem tido bastante trabalho: o número de inscrições para eventos esportivos cresceu 45% em 2024, segundo dados da Ticket Sports, uma plataforma de gestão de eventos.

E quando se pensa apenas em corrida, são seis provas por fim de semana na cidade de São Paulo. Uma das mais importantes, a Maratona Internacional de São Paulo, que acontece neste domingo (6), vai reunir 21.763 atletas inscritos, 10% acima do número de 2024.

Mesmo com tudo isso, o circuito oficial ficou pequeno para quem trabalha nesse mercado. É que não foram só os atletas e entusiastas que se multiplicaram exponencialmente depois da pandemia. Junto com eles, surgiu uma infinidade de negócios e prestadores de serviços para atender a um público cheio de energia – e dinheiro – pra gastar.

Para se ter uma ideia, a capital paulista tem cerca de 1.500 empresas organizadoras de corrida, sendo que houve um aumento de 30% nesse número somente no primeiro trimestre deste ano. Isso significa que conseguir uma data e um local adequados para a prova na cidade é um desafio cada vez maior. E aí, para acomodar todo mundo nesse mercado, o jeito é aumentar a área de atuação. Quem organiza as corridas, por exemplo, está buscando circuitos alternativos, em cidades fora dos grandes centros, dentro de shoppings e até no autódromo de Interlagos.

A Fotop também sentiu esse efeito. O volume de vendas de fotos e vídeos dobrou no ano passado para perto de R$ 100 milhões. E o número de fotógrafos cadastrados também disparou: hoje, são 50 mil, atuando em diversas cidades do Brasil e também no exterior.

A Fotop tem fotógrafos cadastrados em dez países, incluindo Portugal, Espanha e Áustria. O jeito, então, foi expandir os horizontes, a agenda e correr para os treinos.

Aqui vale um esclarecimento: a presença de fotógrafos em locais públicos vem gerando desconforto em muita gente. Afinal, quem corre no parque, diferentemente de quem se inscreveu em uma corrida, não autorizou a captação de sua imagem. A Fotop, entretanto, afirma que está atenta a essa questão e que criou formas de os esportistas indicarem que permitem ser fotografados. Uma delas é por meio de pulseiras de identificação. Além disso, o acesso à plataforma é por meio de biometria: assim, somente a própria pessoa consegue encontrar sua foto lá dentro.

Efeito Instagram

A Fotop foi fundada em 2014 por um dentista e um administrador de empresas. Como muita gente que trabalha nesse mercado, André Chaco e Renato Cukier praticavam esportes da aventura, especialmente escalada. E aí, identificar oportunidades de negócios foi um pulo.

Ao longo de 20 anos de sociedade, os dois trabalharam com diferentes serviços dentro do mundo esportivo, de produção de conteúdo (quem gosta de corrida vai lembrar do WebRun, criado pela dupla) à venda de inscrição para os eventos (houve uma creperia no meio do caminho, mas isso não conta).

Esse novo ambiente de esporte, saúde e muita mídia social caiu como uma luva para a Fotop. Afinal, a regra é clara: não postou, não treinou. “A gente vende fotos há muito tempo, mas sem dúvida o consumo cresceu muito com o Instagram. Não foi só a nossa fatia que cresceu, o bolo todo é muito maior”, diz Chaco. “A gente achava que o ritmo de crescimento se estabilizaria, mas a verdade é que os treinos agregaram muito porque as pessoas estão valorizando esse tipo de experiência, não apenas a prova em si.”

E não é só isso. A figura do “fotógrafo empreendedor” acabou ajudando a popularizar o serviço e ampliar o volume de fotos vendidas. Muita gente começou nesse negócio trabalhando nas horas vagas. E muitos acabaram fazendo da fotografia do esporte – que agora acontece também durante a semana – sua principal fonte de renda. “A gente tem até muitos corredores que saíram dos seus empregos e passaram a fotografar”, diz o empresário. Segundo ele, a renda média desses profissionais pode chegar a R$ 15 mil, a depender da dedicação.

Na prática, o fotógrafo faz um cadastro junto à plataforma e fica habilitado a cobrir eventos esportivos com os quais a Fotop tenha uma parceria estabelecida. Ou pode fechar, ele mesmo, uma parceria com qualquer outro evento e simplesmente vender as fotos pelo site. E aí, valem tanto eventos esportivos como corporativos, ou até mesmo os sociais, como um casamento. Mas, claro, o que mais desperta interesse são as grandes provas esportivas, tipo maratonas ou o Iron Man. Como são eventos mais desafiadores e caros (somente a inscrição de um Iron Man custa cerca de R$ 4 mil), eles reúnem um público bem mais disposto a investir nesse registro fotográfico.

São Paulo, Rio e Belo Horizonte são os principais mercados – não só da Fotop como de todo o mundo da corrida. E, portanto, onde existe mais concorrência. Nessas cidades, independentemente da distância da prova, o participante se depara com um verdadeiro batalhão de fotógrafos posicionados (às vezes no meio do caminho) buscando o melhor ângulo, a melhor passada. Muita gente faz pose , mas apenas uma parcela – cerca de 20% dos participantes – de fato compra as fotos.

Somente a Maratona Internacional do Rio, uma das principais e mais bonitas provas do Brasil, que acontece anualmente entre julho e agosto, libera o credenciamento de 550 fotógrafos. Cabe a cada um deles escolher o melhor local pra conseguir a foto perfeita para 45 mil participantes – pense no quão matadora pode ser uma foto do corredor com o morro da Urca ao fundo.

Ritmo acelerado

Segundo dados do Strava, rede social de esportes com foco em corrida e ciclismo, o Brasil tem 19 milhões de usuários do aplicativo. Por esse critério, o país é o segundo colocado em número de corredores do planeta. A quantidade de maratonas, ultramaratonas e percursos de longa distância aumentou 9% em 2024, ritmo duas vezes maior do que no restante do mundo.

A Ticket Sports estima que, pelo ritmo de expansão que se viu nos primeiros meses do ano, o mercado de corrida – que envolve inscrição, patrocínios, assessorias esportivas, venda de camisetas e outros serviços – deve crescer 26% em 2025.

Mas, ao mesmo tempo em que muitos novos negócios surgem ao redor desse mercado em alta, muitos não estão conseguindo sobreviver. Ainda segundo a Ticket Sports, 39,9% dos organizadores que já foram seus clientes não existem mais. Apenas 16% das organizações estão no mercado há oito anos ou mais, enquanto 30% operam entre seis e sete anos.

São números que mostram que não é só o corredor que precisa investir em musculatura se quiser manter o ritmo forte nos próximos anos.

Agradecimentos: Alessandro Zonzini, da Fuse Eventos Esportivos, e Guilherme Celso, da Associação Brasileira dos Organizadores de Corrida e Eventos Outdoor (Abraceo).