Para gestores brasileiros ouvidos pelo Itaú BBA, as eleições funcionarão como um referendo indireto sobre o futuro do programa econômico.
“O mercado permanece sob pressão à medida que os investidores aguardam os resultados eleitorais; a liquidez é escassa, o posicionamento é cauteloso e os grandes fluxos não devem retornar até que o cenário esteja mais claro”, escreveram em relatório os analistas Ricardo Cavanagh e Daniel Gewehr.
Nos últimos dias, a cena política ganhou contornos ainda mais tensos.
Milei enfrentou protestos violentos durante um ato de campanha, com pedras atiradas contra sua comitiva e necessidade de sair do local às pressas. Ao mesmo tempo, gravações de áudio apontando para um esquema de corrupção em um órgão público — com menções à irmã do presidente, Karina Milei, e a aliados próximos — ampliaram a pressão. Pesquisas indicam que o escândalo afetou a imagem do governo, embora não tenha mudado substancialmente as intenções de voto. Ainda assim, o episódio alimenta a percepção de que a força política do presidente está em disputa.
Setembro como termômetro, outubro como decisão
No dia 7 de setembro, eleitores da província de Buenos Aires vão às urnas em eleições legislativas locais. É a maior base eleitoral do país e tradicional reduto do peronismo. Esse pleito não define a composição nacional, mas funciona como termômetro. Um desempenho ruim ali pode sinalizar desgaste precoce do governo e comprometer a estratégia para o pleito seguinte.
A eleição decisiva vem em 26 de outubro, quando metade da Câmara dos Deputados e um terço do Senado serão renovados. Será o primeiro grande teste de Milei desde a posse. Se conseguir ampliar sua representação no Congresso, o presidente fortalece a capacidade de avançar com cortes de gastos, reformas regulatórias e medidas pró-mercado. Caso contrário, ficará mais dependente de alianças frágeis e exposto ao bloqueio da oposição, em especial do peronismo.
Para o investidor estrangeiro, a continuidade ou não da agenda de ajuste fiscal e ortodoxia monetária depende de como Milei sairá das urnas. Sem maioria no congresso, o risco de reversão parcial ou atraso das reformas aumenta — e com ele, o prêmio exigido para investir no país.
Mercado em compasso de espera
O Itaú BBA registra em seu relatório que os ativos argentinos passaram de “distressed” a caros em poucos meses. Os títulos soberanos, que valiam 15 centavos por dólar em 2023, valorizaram quase 400% e hoje giram em torno de 70 centavos. A equação risco-retorno deixou de ser tão atraente, principalmente se comparada a oportunidades em outros países da região.
No curto prazo, a agenda eleitoral trava qualquer movimento mais relevante. Fundos preferem esperar. A aposta é binária: caso Milei saia fortalecido, haverá espaço para compressão dos spreads da dívida, valorização do peso e reabertura de canais de crédito. Caso contrário, o cenário é de câmbio volátil, juros altos por mais tempo e fuga de capital.
Por isso, a posição predominante é cautelosa. A liquidez está fraca e a exposição de fundos brasileiros ao risco argentino segue baixa. Mesmo assim, há uma corrente que começa a olhar papéis de setores estratégicos, como energia e agronegócio, apostando que a disciplina fiscal já deu um passo além do que o mercado precifica.
Assim, as eleições de setembro e outubro servirão como teste de legitimidade para o “experimento Milei” e, consequentemente, podem ser um divisor de águas para o apetite de investidores estrangeiros.