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Cenário BlackRock

Inflação de preços, sim; inflação salarial, não

Remunerações mais altas não significam necessariamente uma inflação mais elevada; entenda.

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Axel Christensen

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Axel Christensen

Os salários, na maioria dos países, estão crescendo muito mais rápido que nas últimas décadas. Isto leva a nos perguntar se este é o início de uma “espiral salarial”, um ciclo vicioso no qual as empresas financiam salários mais altos elevando os preços, levando os funcionários a exigir salários ainda mais altos. Na verdade, parece estar ocorrendo o oposto. Os dados sugerem que a maioria das empresas enfrentam custos trabalhistas mais baixos por unidade de produção do que antes da pandemia, graças à maior produtividade e preços mais altos. Além disso, é possível que os salários aumentem sem gerar uma subida da inflação e até mesmo ajudem a normalizar o mercado de trabalho.

Nos EUA, os salários subiram 5% em 2021, o maior aumento desde a década de 80. Isto pode levar a supor que isso reflete um mercado de trabalho superaquecido e a antecipar aumentos de preços ao consumidor. Mas, salários mais altos não significam necessariamente uma inflação mais alta. O que é relevante é o custo unitário real de trabalho: quanto uma empresa paga aos trabalhadores para produzir uma unidade em relação ao preço de venda dessa unidade. Os trabalhadores americanos são 4,5% mais produtivos do que antes da pandemia, de acordo com as estatísticas trabalhistas desse país. Os salários realmente caíram desde então, ajustados para ganhos de produtividade e preços mais altos. Isto sugere que os salários têm espaço para aumentar, sem necessariamente gerar mais pressão inflacionária.

Existem outros sinais de um mercado de trabalho superaquecido? A taxa de desemprego nos EUA está no mínimo pré-pandemia. A proporção de vagas para desempregados está no nível mais alto já registrado. Mas, isso reflete um mercado ainda em recuperação, em vez de uma demanda excessiva de mão-de-obra. Mesmo que muitos trabalhadores estejam desistindo a taxas recordes para melhorar sua remuneração e estejam sendo relutantes em preencher as vagas existentes, a participação da força de trabalho (população em idade de trabalhar com um emprego ou procurando ativamente trabalho) ainda está um ponto percentual abaixo de seu nível pré-pandemia. Este é um problema dos EUA. Na Europa, a taxa de demissão é menor e os programas de apoio ajudaram a recuperar a participação rapidamente.

Como lidar com a diminuição da oferta de trabalho nos EUA? Um maior crescimento salarial poderia atrair os desempregados a preencher vagas e os empregados a permanecer em seus empregos atuais, em vez de demitir-se em busca de salários mais elevados. As vagas poderiam diminuir e o emprego poderia aumentar em 1,5 milhões, ou 1% da força de trabalho. É possível que o desemprego não caia muito mais, se salários mais altos induzirem aqueles que deixaram a força de trabalho durante a pandemia a retornar.

O caso do Chile tem sido um pouco diferente, por enquanto. Até fevereiro deste ano, o índice salarial subiu quase ao mesmo tempo que a taxa da inflação, 7,7% contra 7,8%, respectivamente. Mas é pouco provável que consiga sustentar esse aumento, após a alta de preços observada em março. Ao mesmo tempo, o desemprego começou a aumentar no início de 2022, o que deve limitar as pressões salariais futuras, especialmente se a economia chilena mostrar sinais de desaceleração, como projetado pelo Banco Central e recentemente pelo FMI.  

*Axel Christensen é diretor de estratégia de investimentos para a América Latina da BlackRock.

As informações desta coluna são de inteira responsabilidade do autor e não do InvestNews e das instituições com as quais ele possui ligação. 

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