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Há retorno social com a contratação de Cristiano Ronaldo?

Colunista explica porquê fundos soberanos investem milhões de dólares em contratos com jogadores, na compra de clubes de futebol e no investimento em Ligas de Futebol.

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Tempo médio de leitura: 4 minutos

No final do ano passado todo o mundo ficou perplexo com os valores de salário acordados entre o clube árabe Al Nassr e o astro Cristiano Ronaldo. Desde lá, o ganhador da bola de ouro, Karim Benzema, saindo do Real Madrid e 3 dos melhores jogadores do Chelsea também foram contratados. Por trás de todo esse investimento está o Fundo Soberano da Arábia Saudita. 

Criado em 1974 pela família real do país, como todo fundo soberano o objetivo é o de elaborar uma carteira de investimentos que consiga no longo prazo gerar uma rentabilidade que seja capaz de se financiar em momentos de crise ou, principalmente, gerar condições de desenvolver o país para obter um melhor futuro para seus habitantes. 

Fundos soberanos são aqueles criados por governos nacionais para investir recursos oriundos dos ganhos em royalties, excedentes de arrecadação fiscal ou lucros de estatais, por exemplo.

Mas por que um fundo soberano investiria milhões de dólares em contratos com grandes jogadores, na compra de clubes de futebol e no investimento na Liga de Futebol do país? 

Lhes digo, por conta do retorno social imenso que o investimento em entretenimento como o futebol dará para o país, diversificando o seu portfólio de investimentos para outros setores econômicos além do petrolífero.

Imagem de um touro ao lado de bola de futebol

Só agora, pode-se compreender melhor a estratégia que está por trás da contratação de Cristiano Ronaldo que só de salário ultrapassa R$ 94 milhões mensalmente e jogou os holofotes para um país sem tradição no futebol. O fundo soberano comprou 4 clubes do país e está investindo na liga de futebol, assim como investiu pesadamente no Golf e investirá em outros esportes. 

Tudo isso porque o príncipe Mohammed Bin Salman instituiu um plano governamental para a Arábia Saudita, utilizando o Fundo Soberano como motor financeiro para execução de um programa de crescimento econômico intitulado Vision 2030. Se trata de um plano para afastar a Arábia Saudita de sua dependência da riqueza petrolífera e expandir sua economia para outros setores como turismo, entretenimento, tecnologia e saúde. 

Mas, o principal retorno social esperado pelo governo saudita para tanto investimento é a geração de empregos no setor privado para a grande população jovem do reino.

Devo aqui esclarecer que se trata de um país bastante controverso em questões sociais, principalmente no que tange à equidade de gênero, mas até mesmo nisso tais investimentos e a abertura econômica está contribuindo para o aumento das liberdades e direitos das mulheres como as recentes conquistas desde 2015 como poder dirigir carros, obter passaportes, viajar, ter contas em bancos e votar sem precisar da permissão de um responsável masculino para isso.

Na verdade, não escrevi esse texto para engrandecer a Arábia Saudita ou para explicar a contratação do Cristiano Ronaldo, mas porque me causou perplexidade no anúncio feito pelo governo federal e BNDES do planejamento estratégico para aplicação dos recursos financeiros do Fundo da Amazônia e não conter diretrizes para obtenção de retornos sociais para a população amazônica, além dos investimentos em ações ambientais, já esperadas por obviedade.

Apesar de não se tratar de um fundo soberano puro, o Fundo da Amazônia possui aspectos que o assemelha bastante no formato e estratégia e que por isso na minha opinião, como todo fundo dessa natureza deveria ser criado pelo governo para possuir um caráter social obrigatório que é o de utilizar os recursos financeiros para o desenvolvimento de sua comunidade em torno da preservação ambiental, também obrigatória. 

Vai aqui minha dica, pense nisso governo e BNDES e olhe o exemplo dado por outros países, até mesmo aqueles que precisam como a Arábia Saudita evoluir muito nos seus aspectos sociais.

Alexandre Furtado é Presidente do Comitê de Informações ESG da Fundação Getúlio Vargas, Sócio e Diretor de ESG da Grant Thornton.

As informações desta coluna são de inteira responsabilidade do autor e não do InvestNews e das instituições com as quais ele possui ligação. 

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