O anúncio de que o Mercosul e a União Europeia finalmente chegaram a um acordo comercial já mobiliza alguns dos setores que podem ser os mais impactados.

Ainda que a ratificação do acordo precise ser feita em cada país (o que não deve ser tarefa fácil), entidades de classe dos setores agrícola e automobilístico já afirmaram que querem estudar ponto a ponto do que foi negociado entre os blocos.

E alertaram que os impactos reais ainda devem levar vários anos para serem vistos.

Automóveis

No caso da indústria automotiva, a associação de montadoras instaladas no Brasil, Anfavea, afirmou à Reuters que apoia “acordos bilaterais e multilaterais que fomentem um ambiente de maior competitividade para a indústria nacional… (o que) parece ser o caso deste acordo”.

Mas ela acrescentou que o setor se aprofundará nos detalhes quanto aos termos do acordo nos próximos dias, para “ter um julgamento mais apropriado” sobre seus impactos.

O anúncio oficial sobre o acordo diz que haverá termos específicos que protegem a indústria automotiva brasileira de eventuais riscos decorrentes do aumento da importação de veículos europeus.

Setor automotivo brasileiro ainda quer entender em detalhes as proteções contra o risco de aumento de importações de carros europeus. Crédito: Bloomberg

Segundo o governo federal, o Brasil poderá suspender por três anos o cronograma de liberalização de tarifas de todo o setor ou retomar a alíquota de 35% em vigor atualmente, sem necessidade de oferecer compensação à União Europeia. A suspensão poderá ser renovada por dois anos.

Atualmente, segundo a associação, atualmente a China responde por metade dos carros importados para o Brasil que vêm de fora do Mercosul.

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Agricultura

As associações de agricultores têm um grande motivo de entusiasmo pela frente: a abertura do mercado europeu para seus produtos. Esse era um dos maiores temores dos europeus, especialmente da França.

Mas o setor agrícola sul-americano teme ter problemas para aproveitar todo o potencial do livre acesso. Especialmente se o documento assinado pelos governantes trouxer cláusulas ambientais.

Parte das diferenças entre os blocos decorre das exigências ambientais e sociais feitas pela Europa, como limites ao uso de sementes geneticamente modificadas e ao desmatamento, práticas comuns na América do Sul nas últimas décadas e ligadas ao avanço da produção agrícola.

“Qualquer abertura de mercado é favorável, acho que é uma oportunidade, mas temos que ver as letras miúdas, quais são as condições”, disse à Reuters Carlos Castagnani, presidente das Confederações Rurais Argentinas (CRA), uma das maiores associações agropecuárias do país. “Teremos que analisar o acordo ponto a ponto e trabalhar com os diferentes pontos de vista. Temos que garantir que nossa maneira de produzir seja respeitada.”

A Argentina é a maior exportadora mundial de óleo e farelo de soja e, há mais de uma década, a maior fornecedora mundial de biodiesel — um setor cuja atividade foi duramente atingida por medidas protecionistas da Europa.

Também por isso, a câmara argentina de exportadores e processadores de grãos destacou o impacto real do novo documento não será imediato.

Lavoura de soja na Argentina
Lavoura de soja na Argentina

“O cronograma de redução de tarifas acordado com a Europa significa que os produtos do complexo de cereais e oleaginosas, especialmente produtos como óleo e biodiesel, não terão reduções significativas até o sétimo ou décimo ano.”

Gustavo Idígoras, presidente da Ciara-CEC, em entrevista à reuters

Héctor Cristaldo, presidente da União de Grêmios da Produção, principal associação de produtores de soja do Paraguai, explicou que ainda precisa estudar as entrelinhas. “Estamos esperando o texto primeiro para aprofundar a análise, é um passo que foi dado, mas… os parlamentos têm de aprová-lo, é um processo complexo.”

O documento agora precisa ser legalizado, traduzido e aprovado pelos Estados-membros e pode até ser bloqueado, com a França como seu oponente mais feroz.