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ESG

Conceito de sustentabilidade acelerou na pandemia, diz Accor

Em entrevista ao InvestNews, Antonietta Varlese, chefe de sustentabilidade da rede hoteleira nas Américas, fala sobre o custo de não agir em questões ESG.

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Com 5.300 hotéis espalhados em 110 países e mais de 40 marcas no portfólio, a rede Accor, cujas ações são listadas na bolsa Euronext e acumulam alta de mais de 24% nos últimos 12 meses, vem focando em manter um negócio cada vez mais sustentável. O que pode ser interpretado como um paradoxo, uma vez que o setor hoteleiro tem forte uso de energia, água, além de um alto registro de desperdício de alimentos. Globalmente, são servidas mais de 200 milhões de refeições em todos os 10 mil restaurantes da rede.

Antonietta Varlese, chief sustainability officer da Accor Americas


O grupo, que é conhecido no Brasil pelas marcas Ibis, Novotel, Sofitel, Mercury e Grand Mercury, mas em nível global tem sob tutela de marcas como F1, Astore, Fairmont, Paris Soceity e Gekko, falou ao InvestNews sobre o que mudou durante a pandemia e como suas operações no Brasil estão alinhadas com a agenda ESG. 

A rede, que teve um crescimento de 2,4% na abertura de novos hotéis pelo mundo até o terceiro trimestre de 2022, tem na Europa sua maior fonte de receitas. Mas foi na América do Sul, mais precisamente no Brasil, que viu os negócios se recuperarem de maneira mais rápida se comparado ao período pré-pandemia. As taxas de ocupação no país permaneceram acima do nível de 2019 ao longo do terceiro trimestre de 2022. 

Ao InvestNews, Antonietta Varlese, chief sustainability officer da Accor Americas (em tradução livre: líder de sustentabilidade) na divisão da Premium, Midscale & Economy Brands, fala sobre sustentabilidade nas marcas operadas pela rede no Brasil. 

IN$: O que mudou no setor hoteleiro após a pandemia ? Acredita que o conceito de sustentabilidade foi redefinido? 

Varlese: O conceito de sustentabilidade não foi redefinido, e sim acelerado durante a pandemia. O tema, que já era prioritário para os principais players do setor, passou a ser parte central da estratégia de negócios. Entende-se que o custo de não agir em questões de sustentabilidade é sempre mais alto, seja por questões relacionadas a mudanças climáticas, seja por reputação e imagem.

A transformação da sociedade é iminente e o setor hoteleiro tem de estar preparado para essa transição que passa pela economia de baixo carbono, eco eficiência, além de questões sociais como justiça climática e desenvolvimento local.

IN$: Hoje, quais os desafios para o setor hoteleiro se enquadrar cada vez mais dentro da agenda ESG?

Varlese: Os desafios ESG do setor de hospitalidade passam por diversas áreas, sempre com o intuito de mitigação de impactos negativos das operações e potencialização dos impactos positivos no meio ambiente e na sociedade. Do ponto de vista ambiental, temos o desafio da descarbonização do setor, que para a Accor significa reduzir emissões atmosféricas em 50% até 2030 e atingir net zero até 2050. Essas ações estão diretamente relacionadas à redução do consumo de energia além da gestão eficaz das emissões atmosféricas ao longo da cadeia de suprimentos de alimentos e bebidas.

No campo social, o setor tem desafios de fomentar o desenvolvimento de comunidades locais, com geração de emprego e renda, e evitar práticas de turismo que não respeitem a capacidade socioambiental de um destino em receber turistas, chamado de “Overtourism”, que pode ter consequências muito negativas.

IN$: Quais os resultados desde que a Accor passou a implementar programas de sustentabilidade em suas unidades?

Varlese: Historicamente, a Accor tem investido em um programa amplo de sustentabilidade há mais de 10 anos. Depois da pandemia, porém, fortalecemos nosso programa com frentes importantes.

Conduzimos a transição energética de nossos hotéis para 100% de energia renovável, comprada diretamente no mercado livre de energia, conduzimos um projeto para eliminação do plástico de uso único da experiência dos hóspedes, antes presente em mais de 48 ítens que foram removidos ou substituídos por alternativas menos nocivas ao planeta. Além disso, reforçamos o programa de combate ao desperdício alimentar, com meta de redução em 30% do montante de resíduos orgânicos dos hotéis.

Tudo isso passa necessariamente por uma transformação cultural, e a sensibilização dos colaboradores é um passo importante. Em 2022, lançamos um programa de treinamento amplo em sustentabilidade, chamado “School for Change”, que foi aplicado a todos os colaboradores de escritórios corporativos da Accor, e nesse ano passa a fazer parte da trilha obrigatória de formação de lideranças.

O treinamento tem cinco módulos que captam desde a formação do sistema terrestre, destacam a alta prioridade de ação diante da emergência climática causada pela humanidade, e permitem aos colaboradores agir diante de sua própria pegada de carbono, o que tem sido transformador. Os colaboradores só trazem para o trabalho aquilo que acreditam e que praticam em seu dia a dia em casa.  

IN$: Se fosse analisar os custos da companhia (no Brasil), acredita que a energia ainda está entre as maiores despesas? Qual o maior desperdício da Accor?

Varlese: A respeito de energias limpas, o Brasil é um país privilegiado quando comparado a outras regiões, pois nossa fonte de energia é mais de 80% renovável, não resultando em aumento de custos relevante para os hotéis em sua utilização. O maior desafio nesse ponto é a redução do consumo (eco eficiência), que muitas vezes está diretamente relacionado a investimentos altos em sistemas com mais tecnologia na utilização da energia para ar-condicionado, iluminação, e aquecimento. Muito tem sido feito nesse sentido, utilizando as tecnologias mais atuais em projetos novos, ao mesmo tempo que viabilizando investimentos em hotéis mais antigos para modificações estruturais.

O desperdício de alimentos é um item importante dentro de nossa estratégia de sustentabilidade. Sua redução representa não só economia para as operações, como também redução de emissões atmosféricas significativas ao longo de toda a cadeia de fornecimento, o que é chamado de carbono escopo 3. Essas emissões representam uma fatia importante somando os elos da cadeia desde a produção agrícola de alimentos até seu transporte, preparação, consumo e reciclagem de resíduos e embalagem. A redução dos desperdícios em 30% representa uma economia significativa para as operações de A&B e um benefício tangível para o planeta, reduzindo a pegada hídrica e de carbono. 

IN$: Acredita que o grupo está mais preparado para atender a exigência de consumidores que se preocupam inclusive com certificações ecológicas antes de escolherem onde se hospedar?

Varlese: As certificações socioambientais (Ecolabels) são um tema relevante dentro da Accor, e que passam a configurar entre as prioridades de 2023. Apesar de termos um programa interno de certificações de sustentabilidade, em que os hotéis são convidados a traçar uma trilha de melhoria contínua de suas operações, a evolução das expectativas dos clientes e da sociedade civil fez com que nos últimos anos considerássemos a necessidade de uma organização externa nos avaliar.

IN$: É correto afirmar que há um paradoxo entre ser sustentável dentro da hospedagem de luxo?

Varlese: A hospitalidade de luxo, ao mesmo tempo em que possui as maiores emissões atmosféricas do setor, possui também as maiores oportunidades de implementação de ferramentas de mitigação dessas emissões por meio de investimentos e novas tecnologias e transformação do modelo de negócios com tendência de uma maior valorização de experiências locais, e valorização da sociobiodiversidade.

IN$: A Accor tem metas de diversidade, de aumentar o número/porcentagem de pessoas negras, pardas e de pessoas LGBTQIAP+ em seu quadro de funcionários? Quais são essas metas e como está o caminho para atingi-las?

Varlese: A Accor possui a diversidade em seu DNA, e trabalhamos fortemente para que todas as pessoas de todos os segmentos da sociedade sejam bem recebidos em nossos hotéis, bares, restaurantes e coworkings.

Para isso, temos de buscar uma base de colaboradores cada vez mais diversa, e esse é o papel dos grupos de trabalho que são divididos em quatro pilares da diversidade: equidade de gênero, com a busca de maior presença de mulheres em cargos de liderança (hoje temos 60% de mulheres em posição de gerente geral em nossos hotéis); LGBTI+, trabalhando empregabilidade para pessoas Trans e apoiando os principais eventos do setor; étnico racial, buscando maior representatividade de pessoas pretas e pardas em nosso quadro de colaboradores; pessoas com deficiência, aumentando a acessibilidade de nossas instalações para receber bem esse público tanto como hóspedes quanto como colaboradores.

IN$: Quanto ao conselho do grupo, como está a proporção entre homens, mulheres, pessoas negras e a comunidade LGBTQIAP+?

Varlese: A empresa não possui conselho. Em 2023, será conduzido um censo de diversidade pela primeira vez, após superados entraves de legislação dos vários países em que atuamos, para que possa ser realizado de maneira tranquila e respeitando a LGPD e outras legislações de proteção de dados.

IN$: Existe algum programa de formação e promoção oferecido pela Accor para cargos de serviços gerais – profissional este tão necessário dentro da hotelaria e que geralmente recebe os menores salários?

Varlese: Por meio do programa Accor Solidarity (fundo de investimento social), a empresa apoia a formação de jovens em situação de vulnerabilidade para hotelaria. O programa ocorre há mais de uma década em parceria com a Unibes em São Paulo, além de outros programas em países como Chile, Argentina e Peru. A formação de jovens para posições de entrada no mercado de trabalho tem sido um sucesso, atingindo em 2022 mais de 90% dos participantes empregados ao fim do programa.

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