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ESG

Ver ESG como ideológico é absurdo e ciência não tem ideologia, diz Alperowitch

Sócio da Fama Investimentos direcionou carta a Larry Fink questionando a mudança de postura da gestora.

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Fabio Alperowitch

Toda vez que Larry Fink divulga sua carta anual, investidores, gestores e CEOs param para ler. O presidente da maior gestora de fortunas do mundo sinaliza nestas publicações onde está a sua atenção e como vai alocar os recursos daqueles que depositam nele (lê-se BlackRock) sua confiança e capital.

Na última década, as inquietações apresentadas por Fink apontaram para um novo direcionamento no modelo de negócios da gestora. Temas como boa governança, a importância dos stakeholders, propósito, liderança, sustentabilidade e transição para baixo carbono foram colocados em pauta. No entanto, a última carta foi como um balde de água fria para quem de fato se importa com a agenda ESG.

Na carta de 2022 direcionada aos CEOS das empresas onde investe, a BlackRock apontou para um novo direcionamento: a gestora disse que vai apoiar um número menor de propostas climáticas apresentadas pelos acionistas em assembleias quando comparado com um ano antes. O motivo? A postura ativista em excesso de parte de seus acionistas cujas propostas não têm o objetivo de criar valor no longo prazo para seus investidores. 

A guinada declarada prevê apoiar as propostas que busquem uma maior transparência nas informações e dados para direcionar na tomada de risco/oportunidade nos investimentos.  

“Apoiaremos propostas relacionadas ao clima que incentivem as empresas a fornecer aos seus investidores informações sobre como suas atividades político-corporativas apoiam sua estratégia de longo prazo”, diz. “Por outro lado, não estamos propensos a apoiar propostas que se destinam a microgerenciar empresas, constranger na tomada de decisão do conselho ou gestão ou abordar assuntos que não estão relacionados à geração de valor no longo prazo aos acionistas”.

No entanto, a gestora não é a única a questionar se os fatores sociais, ambientais e de governança nos investimentos estariam indo longe demais além de relacionar o tema com ativismo. No mês passado, o chefe de investimento responsável  do HSBC Asset Management, Stuart Kik, disse em uma reunião transmitida ao vivo pelo “Financial Times” que, embora a mudança climática esteja acontecendo, ele acredita que o risco demonstrado nos mercados financeiros é exagerado – ou “apocalíptico”.

Ele também fez outra provocação: “quem se importa se Miami estiver seis metros debaixo d’água em 100 anos? Amsterdã está seis metros debaixo d’água há muito tempo e é um lugar muito bom”.

Robert Eccles, ex-professor de Harvard e docente da escola de negócios de Oxford, que estuda a importância do ESG nos investimentos, acredita que as posições estão extremadas. Ele também defende que banir companhias ou setores dos portfólios de fundos por não serem alinhadas aos propósitos ESG não resolve o problema. 

A questão é que, independentemente da pausa no tema daqueles que direcionam voluntariamente ou não os esforços dos agentes do mercado, as mudanças climáticas não param. E quem entende do assunto diz que essa é a pior hora para recuar. 

Fabio Alperowitch, sócio fundador e gestor da Fama Investimentos, responsável pelo segundo melhor fundo global de investimento ESG em mercados emergentes, direcionou uma carta a Larry Fink questionando a mudança de postura da gestora.

Segundo ele, a relevância das cartas de Fink trouxe para o debate ESG atores que antes rejeitavam o tema, inclusive interditando. No entanto, a atual postura pode causar um retrocesso. A publicação, divulgada no perfil de Aperowitch no LinkedIn, começa assim: 

“Caro Larry,

Não nos conhecemos. Você certamente nem sabe que eu existo. Não tenho nenhuma esperança que um dia você lerá esta carta mas escrevo mesmo assim na forma de desabafo.

…. o recente anúncio de que a BlackRock passará a votar contra a agenda do clima nas assembleias corporativas neste ano por serem muito ‘radicais’ é um verdadeiro tapa na cara”… e continua. 

Em entrevista ao InvestNews, Alperowitch fala sobre como o timing da BlackRock recuar de seus compromissos climáticos assim como outras atitudes semelhantes de agentes do mercado não poderia vir em momento pior. A gestora não havia se pronunciado sobre a carta até a publicação desta entrevista.

IN$: É correto afirmar que existe uma certa “bagunça” na agenda ESG?

Alperowitch: O assunto sustentabilidade é muito antigo. Não tem nada de novo. Mas ele veio para a pauta do mercado financeiro e para o mundo corporativo há muito pouco tempo. Para muitas pessoas, especialmente homens brancos de meia-idade, que são os donos do poder, das decisões e do poder econômico, essas pautas de direitos humanos, meio-ambiente etc não são naturais. São naturais mais para a geração Z e salvas as exceções de quem sempre se importou com o tema.

E para os donos das decisões, talvez a ficha não tenha caído. Para uma maioria, caiu mais ou menos, e para muitos, essa é uma questão mais oportunista, do tipo: “fluxos financeiros indo para ESG… é lá que eu quero estar”. 

E vejo que os compromissos de grande parte das empresas, assim como do mercado financeiro, são frágeis, porque não são viscerais. Eles são frágeis porque, embora muitas pessoas entendam o que está acontecendo, ainda tem o mindset de colocar o “eu” em primeiro lugar, antes do coletivo.

Quando a gente vê atitudes como a da BlackRock, ou mesmo o discurso do chefe de investimentos do HSBC, ou ainda o recuo da União Europeia na questão do carbono, essas hesitações são naturais de pessoas que não entenderam a importância de tudo isso, o senso de urgência. Porque, se entendessem, eles jamais agiriam deste jeito. Não há como. Estamos em uma situação catastrófica, perto de um ponto de não retorno, que pode ameaçar significativamente vários aspectos sociais e econômicos e que não tem volta. 

E às vezes alguns sacrifícios precisam ser feitos. Só que ninguém quer fazer sacrifícios. Tem aquela velha teoria dos jogos que as pessoas querem que o outro faça o sacrifício para que eu não precise fazer. E esse é o sistema econômico hoje, o sistema vigente que é governado em todas as esferas, no público, no privado, no mercado financeiro, por pessoas que pensam mais ou menos parecido.

Então, toda vez que tiver qualquer tipo de obstáculo, como alta no preço do petróleo, guerra, as pessoas vão recuar. E acho isso muito complicado diante de uma agenda que deveria ser urgente. 

IN$: Você acha que a carta de Larry Fink aponta que a gestora está tratando a agenda ESG como ideológica?  

Alperowitch: Tratar ESG como ideológico é um absurdo. Isso é uma questão científica, e ciência não tem ideologia. Direitos humanos também não tem ideologia. Meio ambiente também não tem ideologia.

Só que designar como ideológico é a maneira mais fácil e conveniente para atender aos interesses pessoais. Então ESG fica em um jogo de um empurra-empurra, o público versus privado, o que só expõe as hesitações e a fragilidade daqueles que entraram nessa ‘onda’ como onda e não como compromisso. E os compromissos são frágeis. Então é uma pena, estou realmente bastante preocupado com essa situação. Essas hesitações, como a da Black Rock entre outras, compromete bastante a pauta.  

IN$: Quais avanços você viu no mercado quanto ao tema? Acha que a guinada da carta de Fink pode vir a custar caro?

Alperowitch: Vamos fazer uma analogia: nós estamos na estaca zero e precisamos ir para a casa 100. Então é verdade que algumas empresas estão dando alguns passos – e isso é bom. Mas andamos um ou dois passos e ainda faltam 98. E é exatamente aí que se apresenta um outro problema: as pessoas que são de fato comprometidas com a agenda (ESG) celebram estes dois passos. Mas, ao celebrar estes dois passos, as empresas e os participantes do mercado entendem que o que foi feito já é suficiente e que o problema acabou. Então vamos ficar parados na casa dois em vez de andar para a casa 100.

Então, essas celebrações, embora sejam em alguns casos justas, no outro lado é puro greenwashing (maquiar como sustentável o que não é). E elas também são perigosas por darem a falsa sensação de dever cumprido.

Estamos na máxima histórica quanto a emissões de gases de efeito estufa. As emissões em 2022 estão em seu maior patamar da história. Então cadê o efeito do que já foi realizado? Uma empresa só não salva nada. Estamos piorando. E as emissões são cumulativas. Ou seja: o gás de efeito estufa que foi emitido hoje fica na atmosfera por cem anos. A questão não é deixar de emitir no ano que vem. O que foi emitido no ano passado já está na atmosfera. O que emitiu hoje também, e assim sucessivamente. Então, esse corte precisa ser muito abrupto, não dá para deixar pra depois.

Essas pessoas que ficam colocando essa agenda em suspensão achando que podemos dar um tempo nela estão cientificamente erradas. E não tem nada a ver com ideologia. É uma pena, e eu lamento. 

IN$: Sobre a guerra na Rússia: alguns dizem que ela vai acelerar a transição energética. Outros, que vai atrasar. Acha que hoje há uma maior “conivência” com os combustíveis fósseis dado este cenário de guerra e sanções à Rússia quando comparamos com um ano antes? 

Alperowitch: A guerra ocasionou uma súbita valorização do barril de petróleo com efeito em cascata para várias cadeias industriais nas mais variadas geografias, uma vez que a Rússia é um dos maiores exportadores de petróleo do globo, sendo responsável por 11% do volume exportado.

Na lista dos dez maiores exportadores, além da Rússia, figuram nomes como Arábia Saudita, Iraque, Emirados Árabes, Kuwait e Nigéria – países com regimes não democráticos ou com democracia frágil.

Será que o mundo vai querer manter o risco de continuar dependente destes países?

As eventuais soluções para esta situação são antagônicas: ou acelerar a transição energética para outras fontes, reduzindo a dependência do petróleo… ou desenvolver novas fronteiras de exploração (por exemplo, o pré-sal brasileiro, entre outros), reduzindo a dependência destas nações. Uma solução tem foco na agenda climática; a outra, na geopolítica.

É evidente que o boicote é uma importante força de pressão na mão de um relevante stakeholder: o consumidor. Mas será que, considerando a filosofia ESG, o mesmo é de fato efetivo?

Que tipo de boicote cabe na agenda ESG? Todo? Nenhum? Algum? Quais?

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