Nos investimentos de renda fixa comuns, o Imposto de Renda come no mínimo 15% da rentabilidade – essa é a alíquota depois de dois anos de aplicação, a mais baixa da tabela regressiva, que começa em 22,5% para o dinheiro aplicado por até seis meses. Assim, um investimento de dois anos que renda exatamente a taxa Selic atual (14,75% ao ano) dá, no máximo, 12,54% ao ano líquidos.
No longo prazo, o pagamento de imposto faz diferença. É por isso que produtos financeiros isentos de Imposto de Renda atraem tanto os investidores e despertam atenção dos interessados em viver de renda.
Há uma variedade de títulos privados – emitidos não pelo governo, como os títulos públicos, mas pelas empresas – com isenção de Imposto de Renda. É o caso dos Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e do Agronegócio (CRAs), além das chamadas debêntures incentivadas. São encontrados com ampla oferta nas plataformas de investimentos.
No terceiro episódio da série Estratégias para Viver de Renda, do InvestNews, o editor-executivo Alexandre Versignassi mostra como os títulos privados podem ser usados em uma carteira de renda passiva.
A série, que tem patrocínio exclusivo do Nubank, estreia nesta quarta-feira (1) no canal do InvestNews no YouTube. Os oito episódios apresentam aos investidores as principais formas de obter renda passiva de um jeito descomplicado e sem promessas milagrosas. Inscreva-se para receber acesso em primeira mão:
O peso da tributação
Quem investe em CRIs e CRAs antecipa recursos para quem precisa do dinheiro imediatamente. É o caso, por exemplo, de uma construtora que vende apartamentos financiados, mas precisa de dinheiro antes para acabar a obra. Seus recebíveis – as parcelas de financiamento a serem pagas pelos compradores – são empacotados em um CRI e levados ao mercado.
Para o investidor, a isenção de IR é uma vantagem. Um exemplo real: em meados de março, era possível comprar CRAs de uma das maiores produtoras de sementes do Brasil com uma promessa de retorno de 13,7% ao ano e vencimento em 2032.
Isso é muito ou é pouco? Compare com um título público prefixado, que paga imposto. Para ter o mesmo retorno líquido, esse papel precisaria oferecer juros de 16% ao ano. Não há nada parecido com isso no Tesouro Direto – as taxas prefixadas mais altas atualmente são de 14%.
Viver de renda de grão em grão
Muitos títulos privados têm uma característica importante para quem busca renda passiva: o pagamento periódico de juros.
O CRA da produtora de sementes é um exemplo. Ele faz pagamentos mensais de juros. Assim, um investimento de R$ 50 mil gera cerca de R$ 540 por mês – ou mais de R$ 6,4 mil por ano – líquidos de imposto. E seus R$ 50 mil continuam lá, preservados, até o CRA vencer, em 2032.
O chamado “cupom” – pagamento regular de juros de um título – pode ser mensal, trimestral, semestral ou anual. O investidor pode estruturar um fluxo de caixa com base nas datas e taxas contratadas usando uma estratégia conhecida como ladder, “escadinha”, que combina títulos diferentes para criar uma sequência de recebimentos.
“Um título privado que paga cupom de juros no começo do ano pode servir para gerar renda e bancar material escolar, IPTU ou IPVA, por exemplo”, diz Paula Sauer, professora da FIA Business School. Para quem têm variações de remuneração ao longo do ano, é um bom jeito de garantir as contas em dia em momentos sabidamente críticos.Só que demanda organização.
Uma carteira títulos com fluxos diferentes tem sua complexidade. “É preciso controlar o que pagou, o que não pagou, se a combinação está correta. Pode terminar com 20 títulos na carteira sem conseguir acompanhar direito”, diz Marília Fontes, sócia da Nord Investimentos.
Isento é sempre melhor?
As debêntures são outra opção entre os títulos privados, especialmente as “incentivadas”, também isentas de Imposto de Renda. E assim como CRIs e CRAs, elas podem ter diferentes fluxos de pagamento de juros.
É importante lembrar, no entanto, que isenção não significa maior rentabilidade sempre. Não são raros papéis sem IR que oferecem retornos iguais ou menores do que investimentos tributados. Como os emissores sabem que a isenção é um atrativo, por vezes se dão ao luxo de pagar menos.
Calculadora de renda fixa do InvestNews: simule investimentos e compare a rentabilidade
Mais um exemplo real: em meados de março, as debêntures incentivadas de uma distribuidora de energia eram negociadas com juros de 6,25% ao ano mais correção pelo IPCA, com vencimento em 2029. Se esse título fosse tributado, a taxa equivalente para pagar o retorno acima citado teria que ser de 8,04% ao ano mais IPCA.
Não há títulos públicos com remuneração tão alta. Mas debêntures comuns, que são tributadas, existem. No mesmo dia, as debêntures tradicionais de uma empresa de mobilidade, também com vencimento em 2029, ofereciam 8,65% ao ano mais IPCA – mesmo sujeitas a IR, pagavam mais do que o papel isento.
Para conseguir comparar títulos isentos e não-isentos, algumas instituições financeiras já mostram o cálculo para você. Indicam que aquela rentabilidade do isento equivale a um CDB que rende x% do CDI, por exemplo. Se você quiser, também pode consultar uma calculadora desenvolvida pelo InvestNews que faz essas contas para você.
O dilema da fase de acumulação
Se você acompanhou as primeiras reportagens da série Estratégias para Viver de Renda, já sabe que, para ter renda passiva, é preciso gastar um bom tempo acumulando patrimônio. E, nesse período, reinvestir o que entra na conta faz muita diferença.
Veja o caso do CRA de um grande frigorífico que, em meados de março, oferecia juros prefixados de 12,75% ao ano. Com vencimento em 2032, esse papel paga juro todo semestre. Se uma pessoa investisse R$ 50 mil nele, receberia cerca de R$ 3,1 mil a cada seis meses na conta. Até 2032, os R$ 50 mil investidos se transformariam em R$ 87 mil, dos quais R$ 37 mil de juros pagos periodicamente ao investidor.
Mas se aplicasse o mesmo valor, com a mesma taxa de juros, em um CRA de mesmo prazo sem pagamento de juro a cada seis meses (o “cupom”), o resultado seria outro. Os R$ 50 mil virariam quase R$ 103 mil, sendo quase R$ 53 mil só de juros. Esse valor seria pago de uma vez, no vencimento.
Tudo por causa do efeito dos juros sobre juros, os juros compostos. É uma diferença de mais de de R$ 15 mil em relação ao CRA com pagamento semestral.
Riscos existem; como se proteger?
Quando você investe em título privado, é muito provável que ganhe mais do que em um título público. Mas a um preço: maior risco.
Os títulos públicos são considerados os investimentos com menor risco de crédito. A chance de tomar um calote do emissor (o governo) é baixa. Na teoria, se tudo der errado, o governo é o emissor da moeda e pode usar essa prerrogativa para arrumar dinheiro e pagar seus credores. Uma empresa, não. Por isso, escolher um título privado exige olhar além da remuneração. É importante estar seguro quanto à capacidade de pagamento empresa.
“Mas muitas vezes, o investidor não tem ferramentas para fazer uma análise de crédito adequada”, diz Marília, da Nord. Então, vale ficar atento ao checklist abaixo:
- Um título que oferece retorno muito acima da média geralmente está associado a um risco também mais elevado;
- A macroeconomia importa. “Em cenários de deterioração, o risco de crédito aumenta”, diz Ana Rodela, CIO (Chief Investment Officer) da Bradesco Asset. A percepção de risco pode mudar e afetar tanto o preço quanto a segurança dos títulos;
- Nem sempre é fácil vender títulos privados antes do vencimento. Mesmo quando há liquidez (interessados em comprar), pode haver perdas devido às condições de mercado.
Um dos instrumentos que ajudam a avaliar riscos são os ratings de crédito, notas atribuídas por agências de classificação, como Moody’s, S&P e Fitch. Mas, sozinhos, não bastam. São comuns os casos em que as agências estão olhando para o retrovisor e demoram para alterar a nota de uma empresa. Por isso, vale o mantra dos consultores de investimentos: diversificar os recursos entre vários produtos ajuda a diluir riscos e a proteger o patrimônio.
No quarto episódio da série Estratégias para Viver de Renda, você aprenderá sobre dividendos de ações como fontes de renda passiva. Acompanhe no YouTube e no site do InvestNews.
