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Guerra do Irã derruba fundos multimercados. Entenda o que aconteceu e como reagir

Categoria se recuperava desde 2025, mas devolveu parte do retorno com alta do petróleo e dos juro futuro. Mas tem papel essencial para diversificação

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O ano começou favorável para os fundos multimercados, com retornos que superaram o CDI e a volta gradual do apetite do investidor. Mas os conflitos no Oriente Médio, que se refletiram em disparada do preço do petróleo e aumento dos juros futuros, alteraram esse quadro.

O que despontava como uma potencial recuperação da “ressaca” dos últimos anos, marcada por fortes resgates de recursos dos produtos diante de rentabilidade mais baixa, se tornou novamente um cenário amargo. Agora a dúvida volta à mesa do investidor: qual o sentido de aplicar em tais fundos?

A vantagem dos multimercados não está necessariamente em entregar o maior retorno isolado, mas na forma como eles se comportam dentro da carteira. Por operarem diferentes classes de ativos, esses fundos tendem a apresentar correlação mais baixa com a bolsa e outros investimentos tradicionais, o que ajuda a reduzir a volatilidade do portfólio como um todo.

Cada investidor terá uma jornada diferente ao optar especificamente por um fundo multimercado e combiná-lo a outros ativos na carteira. Mas um exemplo simples ajuda a entender como eles trabalham para uma das características mais importantes em um investimento maduro: a diversificação.

O que um multimercado realmente faz por você

Vamos pensar em uma carteira com 60% de BOVA11, o ETF que segue o Ibovespa, e 40% de um produto pós-fixado simples, que replique 100% do CDI, a taxa de referência da renda fixa de curto prazo. Em 12 meses, o retorno desse portfólio seria de 25,8%,em média.

Mas, dado que a volatilidade do Ibovespa nos últimos 12 meses foi de 16,4%, essa carteira teria apresentado uma volatilidade total perto de 11%.

Agora, vamos imaginar um portfólio com 50% de BOVA11, outros 30% aplicados em um título pós-fixado e os 20% restantes em um fundo multimercado. Na média, esses fundos renderam 13,2% nos últimos 12 meses, segundo o IHFA, o índice que mede a rentabilidade média dos multimercados brasileiros. O retorno dessa carteira seria de 23,5%.

Acontece que a maioria dos multimercados no Brasil tem uma volatilidade que fica entre 6% e 8%, alguns bem abaixo disso, na casa dos 5%. São poucos que superam essa faixa. E isso significa a volatilidade total da segunda carteira simulada cai para cerca de 7%.

É nesse aspecto que é preciso levar em conta a sensação de prejuízo tão nociva causada pela volatilidade, que muitas vezes leva o investidor a se precipitar e a realizar perdas, ou seja, concretizar na prática um prejuízo que estava configurado no momento apenas na tela.

Um investimento de R$ 10 mil em uma carteira com volatilidade próxima de 11% pode passar por quedas que levem o patrimônio para perto dos R$ 8.900 em momentos de estresse. Para voltar aos R$ 10 mil iniciais, seria necessária uma alta de cerca de 12,4%.

Já em uma carteira com volatilidade mais próxima de 7%, a oscilação negativa tende a ser menor: uma queda para cerca de R$ 9.300 exigiria uma recuperação de 7,5% para retornar ao ponto de partida.

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Parece pouco, mas isso ajuda a explicar porque estratégias com menor volatilidade tornam a trajetória do investimento mais estável.

Desempenho relativo

O investidor precisa compreender que multimercados não são investimentos de curto prazo. O ideal é respeitar janelas que vão de 3 a 5 anos, pelo menos. E isso porque janelas curtas podem contar histórias muito ruins (ou muito boas) que não correspondem à experiência que o investidor terá no decorrer do tempo.

Nos últimos seis meses, os fundos multimercados brasileiros acumulam uma alta média de 2,3%, contra 7,2% do CDI. Mas, em seius meses até o dia 27 de fevereiro, quando a guerra dos EUA contra o Irã começou, os fundos subiam 7,6%, contra 6,2% do CDI. A diferença é grande.

Entre os maiores fundos da indústria, de gestoras independentes (não vinculadas a bancos), o comportamento em cinco anos reforça a visão positiva para esses produtos.

“Muitos gestores estavam com posições mais positivas e que não tinham no radar uma guerra iminente e, principalmente, a volatilidade no petróleo e os reflexos disso para os juros e inflação”, diz Pedro Rudge, diretor da Anbima, entidade que representa instituições financeiras e fundos no Brasil.

Foi exatamente o que aconteceu no caso das apostas de que o petróleo ficaria estabilizado perto dos US$ 80 o barril – o que era um amplo consenso do mercado depois de anos de cotações nessa faixa.

Depois da guerra, o preço da commodity disparou e muitos fundos com posições vendidas – ou short, que ganham com a baixa de um ativo – saíram “machucados” disso.

Apostas de fundos na queda dos juros

O mesmo aconteceu com as posições em títulos prefixados, escolhidos em um momento em que o início do ciclo de quedas de juros pautava o mercado de forma predominante.

As expectativas predominantes ainda são as de que os cortes da Selic devem acontecer ao longo dos próximos meses, mas a percepção de que isso poderia se dar de forma mais rápida esfriou.

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Na mediada das expectativas de mercado, as apostas na taxa Selic ao fim de 2026 passaram de 12,13% há quatro semanas para 12,50% no Boletim Focus divulgado na última segunda-feira (23).

Com o aumento da aversão ao risco, as taxas dispararam, fazendo com o que os preços dos prefixados “derretesse” – a dinâmica clássica da renda fixa. Isso bateu diretamente na cota dos fundos, que se desvalorizaram.

O cenário só não foi pior porque o Tesouro realizou recompras de títulos em volume elevado para dar liquidez ao mercado e corrigir as disfuncionalidades dos preços em meio ao caos.

Diante de tudo isso, dá para dizer que o trabalho dos gestores para entregar retornos e “convencer” os investidores a voltarem para os fundos será maior agora.

Os resgates desses produtos seguem no radar e isso tende a mudar à medida que a retorno entregue volte a aparecer e conforme outros elementos macroeconômicos passem a jogar a favor dos produtos de maior risco, como a ainda esperada queda da Selic.

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