As companhias americanas estão aumentando seus níveis de endividamento para sustentar uma nova onda de fusões e aquisições que pode chegar a US$ 1 trilhão. Trata-se de uma reversão do movimento dos últimos anos de redução da alavancagem.

Nesta semana, a Keurig Dr Pepper anunciou a compra da fabricante de cafés JDE Peet’s NV, operação que será financiada por um empréstimo-ponte de € 16,2 bilhões (US$ 19 bilhões).

Já a AT&T informou que vai adquirir licenças de espectro da EchoStar Corp. por cerca de US$ 23 bilhões, transação que deve ser parcialmente bancada por emissões de títulos de dívida.

Virada no apetite por endividamento

No segundo trimestre, a relação entre dívida e lucro das empresas atingiu o maior nível desde 2021. O movimento representa uma mudança de postura em relação a 2022, quando, diante da alta dos juros promovida pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), companhias correram para reduzir passivos. A própria AT&T vinha diminuindo sua alavancagem até o início de 2025.

Agora, com o Fed prestes a iniciar um ciclo de cortes de juros, o custo de captação tende a cair. Além disso, a administração Trump é vista como mais favorável a aprovar fusões corporativas. Diante dessa percepção, incertezas sobre a carga tributária foram dissipadas — fatores que abriram espaço para um novo ciclo de consolidação.

“Enfrentamos muita incerteza no início do ano. A resolução de parte dela é o que está destravando essa onda de fusões e aquisições (M&A)”, disse Hans Mikkelsen, estrategista de crédito do TD Securities.

Mercado de crédito privado ganha fôlego

Até agora, operações de M&A representaram cerca de 10% das emissões de títulos de grau de investimento em 2025, abaixo dos 15% registrados em 2019, segundo dados do JPMorgan. Gestores, no entanto, mostram apetite para comprar papéis de longo prazo em um cenário de juros ainda elevados, mas que podem começar a recuar.

Profissionais do mercado estimam que muitas das aquisições anunciadas só cheguem ao mercado de dívida em 2026, já que empresas costumam esperar o fechamento das transações para refinanciar empréstimos-ponte com captações no mercado de capitais. O acordo da Keurig deve ser concluído no primeiro semestre do próximo ano, enquanto a AT&T prevê finalizar sua compra em meados de 2026.

Algumas companhias, contudo, podem antecipar emissões se os custos de captação caírem ainda mais. Nesse caso, os títulos viriam com cláusulas que permitem recompras em caso de fracasso da aquisição.

“Se virmos uma queda adicional nas taxas, as empresas terão mais incentivo para reduzir o risco da parte de dívida das transações”, afirmou Ryan Morrell, do PNC Financial Services Group.

Expectativa para 2026

A expectativa é de que 2026 seja marcado por uma enxurrada de operações financiadas por dívida entre empresas de grau de investimento.

“Depois do susto de abril, vemos um renascimento do apetite por risco”, avaliou Piers Ronan, do Truist Securities. “Isso certamente vai se prolongar por 2026 — e, esperamos, além disso.”