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Guerra fria 2.0: por que o mundo está louco por cobre

EUA e a China competem pelo metal, essencial para veículos elétricos e data centers. Também está no centro da batalha uma aquisição de US$ 43 bilhões

Por Julie Steinberg The wall street Journal
Publicado em
7 min
traduzido do inglês por investnews

Recentemente, depois que um dos maiores produtores de cobre do mundo passou por uma crise financeira, o governo Biden começou a se reunir com potenciais investidores que poderiam assumir uma participação nas minas zambianas da empresa no valor de quase US$ 3 bilhões. 

A busca não se restringe a empresas americanas, e entidades dos Emirados Árabes Unidos, Japão e Arábia Saudita — todos esses vistos como amigáveis aos interesses dos EUA — expressam interesse na participação nos ativos da First Quantum Minerals, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto. 

O objetivo é simples: mantê-la longe do domínio chinês e evitar que a superpotência asiática aumente seu controle sobre o fornecimento global de metais e minérios cruciais.

A licitação, que deve ser concluída ainda este ano, faz parte de uma corrida global para adquirir mais cobre, um componente chave em tudo, desde carros elétricos até linhas de transmissão e data centers que alimentam a revolução da IA. 

A oferta recorde de quase US$ 43 bilhões do BHP Group pela Anglo American, que foi rejeitada na segunda-feira (13), sinaliza a intensa demanda por cobre. Enquanto a Anglo, listada em Londres, produz uma série de commodities, desde diamantes até níquel, a australiana BHP deixou claro que valoriza mais os ativos de cobre da empresa. A Anglo rejeitou a primeira oferta da BHP no mês passado, e acredita-se que outras empresas estejam avaliando fazer suas próprias propostas.

Na terça-feira, a Anglo anunciou seu plano de recuperação, dizendo que sairia de seus negócios de platina, diamante e carvão siderúrgico — uma estratégia que torna o cobre ainda mais central para o futuro da empresa.

O presidente-executivo, Duncan Wanblad, disse em uma coletiva de imprensa que a empresa analisará o crescimento de seus negócios de cobre tanto organicamente quanto a partir de potenciais fusões e aquisições, como a ampliação de sua participação em ativos que já possui. 

“O cobre, claro, é a história do dia”, disse ele. 

Embora o governo dos EUA não tenha nenhuma supervisão sobre os acordos propostos, as autoridades comunicaram sua preocupação aos executivos da Anglo de que a consolidação poderia limitar o fornecimento geral de cobre, disseram pessoas familiarizadas com o assunto. Os EUA também estão preocupados que a China possa pressionar a BHP a vender alguns ativos ou concordar em vender mais de seu cobre ao país para lidar com potenciais preocupações anticompetitivas. 

Para os EUA, o frenesi atual destaca a importância de seu esforço de anos para garantir suprimentos de metais e minérios críticos para a transição para a energia verde. 

Espera-se que a demanda por cobre aumente à medida que certas minas fecham ou têm sua produção diminuída. Os futuros do cobre subiram 20% este ano.

Os EUA não têm um ministério de mineração, um fundo soberano ou uma indústria de mineração doméstica. Isso deixou o país em desvantagem frente à China, que pode direcionar suas empresas estatais a investir pesadamente, independentemente do desempenho dos preços das commodities.

O governo dos EUA tem limites em termos da quantidade de dinheiro que pode injetar diretamente em projetos de segurança nacional. Isso significa que deve trabalhar com empresas privadas no país e no exterior, além de países amigos com fundos soberanos, atraindo seus investimentos para ativos úteis aos interesses nacionais.

O Wall Street Journal noticiou no ano passado, por exemplo, que os EUA e a Arábia Saudita mantiveram negociações visando possíveis acordos na República Democrática do Congo, através dos quais a Arábia Saudita assumiria participações em minas, e empresas americanas garantiriam alguns dos direitos de produção. 

Um dos principais conselheiros do presidente Biden, Amos Hochstein, é um dos pilares desse esforço. Hochstein e uma pequena equipe do Departamento de Estado estão voando pelo mundo, reunindo-se com autoridades de governos da África Subsaariana em um dia e com investidores americanos no outro. 

Em relação ao cobre, “não temos muita oferta nova chegando pelo mundo”, disse Hochstein em entrevista. “O que me preocupa é que, mesmo quando uma mina é descoberta, pode levar entre sete e 15 anos até que o primeiro cobre seja extraído.”

Os EUA comprometeram mais de US$ 1 bilhão no Lobito Corridor para o desenvolvimento da infraestrutura local, incluindo energia limpa e uma ferrovia ligando Angola, Congo e Zâmbia para exportar minérios críticos. Também na Zâmbia, os EUA pediram no ano passado que os Emirados Árabes Unidos considerassem investir nas minas de cobre de Mopani, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto. 

O esforço foi bem-sucedido: em dezembro, a Zâmbia escolheu a International Resources Holding dos Emirados Árabes Unidos como sua nova parceira de capital.

Hochstein não quis comentar sobre negócios específicos.

Hochstein afirmou que ele e sua equipe deixaram claro aos governos de nações da África que os EUA estão tentando apresentar um modelo alternativo que não resulte em dívida, corrupção e degradação ambiental.

“Estamos investindo nosso dinheiro em algo importante para nós”, disse.

Uma parte central do esforço dos EUA é a International Development Finance Corp., agência federal que ajuda a financiar projetos no exterior. A agência concordou em investir US$ 740 milhões no ano passado no setor de mineração, acima dos US$ 245 milhões que havia dedicado a projetos de mineração anteriores. 

Atualmente, está negociando o financiamento de uma mina de cobre multibilionária no Paquistão que, quando entrar em operação em 2028, estará entre os maiores projetos de cobre do mundo, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto. 

Uma empresa irlandesa chamada TechMet é um de seus principais investimentos. Sob os governos Trump e Biden, a agência deu à TechMet cerca de US$ 105 milhões em financiamento e se tornou sua segunda maior acionista. Uma empresa de investimentos apoiada por um descendente da família Walton também investiu na mais recente rodada de captação de recursos, que avaliou a empresa em mais de US$ 1 bilhão. 

“Estamos em uma segunda Guerra Fria”, disse o CEO da TechMet, o sul-africano Brian Menell. “Cada vez mais, é preciso escolher lados. Para mim nunca foi um momento de dúvida. É uma competição entre os valores ocidentais e a ditadura.”

A TechMet possui participações em mineradoras de lítio, cobalto, níquel, vanádio e terras raras.

Enquanto isso, mineradoras chinesas, com apoio do governo, estão rapidamente comprando ativos. Nos países do Cinturão e Rota (rotas terrestres e marítimas), que não incluem Brasil nem Austrália, a China investiu mais de US$ 19 bilhões no ano passado em metais e mineração, um aumento de 158% em relação a 2022, de acordo com o Centro de Finanças Verdes e Desenvolvimento da Universidade Fudan, em Xangai. Esse é o maior patamar desde 2013. 

No exemplo mais recente, uma empresa chinesa está em negociações avançadas para comprar a Chemaf, produtora de metais que está desenvolvendo uma mina de cobalto e cobre no Congo, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto. 

Pelo menos dois pretendentes ocidentais estavam interessados em comprar a empresa, segundo pessoas familiarizadas com o assunto, incluindo a Chilean Cobalt Corp., ou C3, empresa americana com operações de cobre/cobalto no norte do Chile.

Duncan Blount, presidente-executivo da C3, contou que conversou com a International Development Finance Corp e o Departamento de Estado sobre abrir uma licitação, mas concluiu que seria muito caro. Mesmo assim, disse: “Eles foram incrivelmente prestativos nesse empreendimento e em outros projetos. Estão ansiosos para ver empresas e empreendedores americanos voltarem ao Congo.”

Escreva para Julie Steinberg em [email protected]

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