Batizado de SCL03, o novo centro tem capacidade para receber cerca de 53 mil servidores e representou investimento de R$ 615,6 milhões. A unidade iniciou atividades oficialmente no começo de junho e já está com toda sua capacidade locada por 15 anos para um único cliente de grande porte (conhecido como “hyperscale“) cujo nome não foi revelado.
Em paralelo, a empresa anunciou ainda a construção de duas novas unidades no país andino, cujo investimento previsto é de R$ 5,5 bilhões em uma área de 60 mil metros quadrados próxima ao complexo atual, com entrega programada para 2027 e 2028, respectivamente.
A potência instalada das novas unidades será de 150 MW. Com todos os data centers em operação, a Ascenty terá capacidade de 192 MW — oferta de energia elétrica suficiente para abastecer uma cidade do porte de Campinas.
Sob os Andes
A escolha do Chile como um dos hubs de expansão da Ascenty – maior operadora de data centers da América Latina – tem muito a ver com a geografia das conexões de internet. Ao operar nos mercados chileno e brasileiro, as companhias de data centers conseguem acesso aos cabos submarinos tanto do Oceano Pacífico quanto do Atlântico.
Ademais, o país andino serve como “porto seguro” para atender mercados mais voláteis economicamente, como a Argentina, onde a instabilidade cambial e regulatória desestimula investimentos de longo prazo no mercado local.
Para garantir latência mínima – o tempo de atraso na transmissão de dados entre dois pontos – entre Santiago e Buenos Aires, existem instalados cabos de fibra óptica que atravessam a Cordilheira dos Andes – uma proeza de engenharia que conecta fisicamente dois dos maiores mercados da região, cobrindo uma distância de aproximadamente 2.550 quilômetros em rotas subterrâneas e montanhosas.
“Para a Ascenty, o Chile é estratégico. A estabilidade regulatória e a qualidade da energia disponível nos dão a certeza de que este é o lugar correto para seguir crescendo”, afirmou o diretor de vendas e estratégia da Ascenty, Marcos Siqueira.
Outra característica técnica a favor do Chile é que, em breve, o país terá cabos com conexão direta com a China, um dos principais mercados mundiais em termos de processamento de dados, por meio dos projetos Humboldt (do Google) e Chile-China Express.
Com mais de 37 data centers operacionais, o país já concentra 13,5% dos investimentos regionais no setor. Para além dos fatores técnicos, o Chile é um dos mais avançados na legislação da indústria, tendo aprovado recentemente um marco regulatório para o setor no fim do ano passado (o chamado PData), com duração inicial de seis anos.
Essa combinação fez do Chile um terreno fértil para investimentos em infraestrutura digital, atraindo outros aportes polpudos. Além da Ascenty, a Scala Data Centers anunciou US$ 328 milhões para três novos data centers no país, enquanto a Amazon Web Services (AWS) anunciou investimento de mais de US$ 4 bilhões nos próximos 15 anos para implantar sua infraestrutura de nuvem no Chile.
E o Brasil?
Mesmo com a posição estratégica e segurança regulatória vistas no Chile, o Brasil segue sendo o principal mercado para data centers na América do Sul, representando mais de 41% dos investimentos totais na região. O mercado chileno e brasileiro são os preferidos dos clientes hyperscale, nicho que é o sinônimo de big techs nesta indústria.
Para atender esses grandes clientes, no caso da Ascenty, estão em curso planos para entregar outros quatro novos data centers em São Paulo até 2028. A empresa investe anualmente no país cerca de R$ 1,3 bilhão, entre gastos com construção de novas unidades e manutenção das já existentes.
A companhia também estuda expansão para o Nordeste brasileiro, priorizando pontos conectados a cabos submarinos que garantam conexões de baixa latência — vale lembrar que Fortaleza é outra capital brasileira com acesso a cabos submarinos de internet.
Entre as concorrentes, chamam atenção os projetos de “AI City”. No Rio de Janeiro, a Elea Data Centers anunciou um projeto de 1,5 GW em parceria com Oracle e Nvidia, enquanto a Scala Data Centers investirá R$ 3 bilhões para sua própria “cidade de IA” em Eldorado do Sul (RS).
Por parte das big techs, a Microsoft anunciou no ano passado um pacote de quase R$ 15 bilhões para reforçar sua infraestrutura de cloud no país.
Regulação no Brasil
Do ponto de vista regulatório, o setor ainda aguarda a aprovação do Redata, um regime fiscal específico que prevê isenções sobre importações de equipamentos, considerado mais efetivo para atrair investimentos. O texto segue em discussão entre o governo federal e o Congresso e ainda não há data para a publicação.
Outra medida em análise pelo setor são os efeitos da Medida Provisória 1.307/2025, assinada em julho, que abriu as Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) para prestadores de serviço como data centers, desde que haja vínculo contratual com empresas industriais já instaladas.
A norma também impôs a “regra de adicionalidade”, obrigando o uso de energia renovável apenas de usinas inauguradas após a publicação da MP. Segundo cálculos do setor, essa exigência pode elevar o custo da energia em 10% a 20% nos primeiros contratos e reduzir o número de fornecedores.
Crescimento latino-americano
O pacote de investimentos da Ascenty e de suas concorrentes na América Latina retrata o crescimento da indústria de data centers na região.
Segundo dados do setor, o mercado latino-americano de data center deverá dobrar dos US$ 7,16 bilhões investidos em 2024 para US$ 14,3 bilhões até 2030, impulsionado por uma demanda sem precedentes por processamento de iniciativas de inteligência artificial e pelo aumento da migração de dados empresariais para a nuvem.
A Ascenty, fundada em 2010 pelo empresário americano Chris Torto, foi uma das primeiras a apostar na expansão de data centers quando o cloud ainda era incipiente e não se fazia a mais vaga ideia da ascensão da inteligência artificial. Atualmente, a empresa conta com 25 data centers em operação no Brasil, Chile, México e Colômbia, além de 13 em construção.
Torto, que na década de 1990 fundou a Vivax — empresa que chegou a ser a segunda maior operadora de TV a cabo do Brasil, vendida à Net em 2007 —, trouxe para a Ascenty dois sócios de peso: a Digital Realty, maior empresa de data centers do mundo com mais de 300 unidades, e a gestora canadense Brookfield, que tem mais de US$ 900 bilhões sob gestão.
*O repórter viajou a convite da Ascenty