Tanure é conhecido no mercado por comprar empresas em crise e conduzir reestruturações duras. Mas seu modelo de negócios passa por um momento de fragilidade financeira.
A renegociação da dívida da Ligga Telecom, fechada no início de dezembro, escancarou esse problema, que espalhou-se pelos negócios de Nelson Tanure no decorrer do ano passado.
Após não conseguir honrar o vencimento de cerca de R$ 1,2 bilhão em debêntures emitidas para financiar a compra da operadora, em 2020, Tanure obteve um prazo adicional junto aos credores — mas ao custo de aceitar condições duras. Entre elas, a obrigação de buscar a venda de ativos relevantes do seu portfólio, como a própria Ligga e sua posição de controle na Alliança Saúde.
A crise de liquidez do empresário já ganhou eco na Faria Lima, com banqueiros especulando os próximos passos de Tanure. “Vai ser complicado, pois a Ligga é um ativo difícil de vender muito acima do valor da dívida. A Alliança é outro ativo com poucos interessados”, afirma um banqueiro ouvido pelo InvestNews.
A renegociação envolvendo a compra da Ligga fechou um ano que começou com planos ambiciosos de Tanure e que terminou em modo defensivo, com ativos à venda e maior escrutínio do empresário por parte de credores e autoridades.
Ao longo de 2025, Tanure já havia perdido o controle da geradora de energia Emae por inadimplência, além de ver suas tentativas de avançar sobre empresas como a varejista GPA e a petroquímica Braskem não saírem conforme o esperado.
Em paralelo, a crise do Banco Master. Tanure utilizou a instituição financeira em operações por empresas de seu portfólio. A liquidação do banco acabou afetando uma de suas investidas mais recentes, o supermercado Dia, que chegou a comprometer parte relevante do caixa aplicando em CDBs do banco.
E agora, com seu nome envolvido nas investigações sobre o banco, configura-se um cenário de crise para o empresário de 73 anos.
Os avanços recentes
Há um ano, o cenário era bem diferente.
Após uma sequência de aquisições realizadas entre 2020 e 2024, Nelson Tanure consolidava-se como um dos investidores mais ativos na compra de empresas em dificuldades financeiras. O ambiente parecia feito sob medida para um empresário que construiu sua reputação explorando crises e reestruturando ativos estressados.
Nos anos anteriores, Tanure havia montado um portfólio diversificado a partir de negócios considerados fora do radar de grandes grupos.
Comprou a Copel Telecom, posteriormente rebatizada de Ligga, apostando na consolidação do mercado de fibra óptica; assumiu o controle da Alliança Saúde, rede de diagnósticos médicos; virou um dos investidores de referência da Light; ampliou sua influência na incorporadora Gafisa; e, já no fim de 2024, fez parte do fundo que comprou a operação brasileira da rede de supermercados Dia.
Com esse histórico, 2025 se desenhava como um ano propício para novas investidas. A primeira grande aposta veio no varejo alimentar. Após concluir a compra do Dia, Tanure passou a articular uma combinação de negócios com o GPA, grupo dono das redes Pão de Açúcar e Extra, como forma de ganhar escala rapidamente e acelerar a reestruturação de dois negócios pressionados.
O plano envolvia ampliar sua influência na governança do GPA, que atravessa uma crise financeira, e abrir caminho para uma reorganização mais profunda da companhia. A movimentação chegou a animar parte do mercado no início do ano.
A estratégia, no entanto, encontrou resistência. Em 5 de maio, a assembleia de acionistas do GPA rejeitou parte da chapa apoiada por Tanure, que não conseguiu eleger a maioria de seus indicados para o conselho de administração. Com isso, perdeu espaço para o bloco formado pelo Grupo Coelho Diniz, hoje controlador do GPA, e pelo investidor Rafael Ferri.
Sem espaço na nova estrutura, Tanure vendeu rapidamente sua posição acionária. O movimento abrupto pressionou as ações da varejista e encerrou de forma precoce a tentativa de consolidação no setor, marcando seu primeiro grande revés de 2025.
A aposta petroquímica
A derrota no GPA não levou Nelson Tanure a recuar. Poucos dias depois, em 23 de maio, ele voltou suas atenções para um alvo ainda maior: a petroquímica Braskem, companhia que atravessa um dos períodos de maior pressão financeira de sua história.
Na ocasião, Tanure assinou um acordo de exclusividade com a Novonor — antiga Odebrecht e controladora da Braskem — para negociar a aquisição de uma participação que lhe daria o controle da companhia. Apresentou-se como alguém capaz de destravar um impasse histórico que envolve a família Odebrecht, bancos credores e a Petrobras, segunda maior acionista da petroquímica.
O discurso público foi cuidadosamente calibrado. Tanure defendeu maior protagonismo da Petrobras na gestão da Braskem, acenou a bancos credores e condicionou o avanço da operação à resolução de passivos relevantes, como as indenizações relacionadas ao desastre ambiental de Maceió.

O próprio empresário reconheceu à Reuters que as negociações se mostraram mais complexas do que o esperado. A sensibilidade política do tema, a falta de consenso com os bancos e o surgimento de outros interessados, como a gestora IG4, minaram a viabilidade da transação.
O prazo de exclusividade, de três meses, expirou sem acordo, e Tanure acabou recuando da disputa. No início de dezembro, a IG4 encaminhou um acordo com a Novonor, bancos e a Petrobras, colocando fim a uma disputa societária que se arrastava desde 2018. A operação ainda depende de aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
A virada da maré
O ponto de inflexão mais duro veio no segundo semestre, com a perda do controle da Emae. A geradora de energia paulista, adquirida na privatização em 2024, acabou sendo tomada pelos credores e vendida à Sabesp após Nelson Tanure não honrar o pagamento de um financiamento usado para viabilizar a compra do ativo. Tanure entrou na Justiça para reverter a execução da dívida e retomar o controle da Emae.
A perda da Emae foi precedida pela crise da Ambipar, empresa de gestão ambiental que entrou em recuperação judicial após uma rápida deterioração financeira.
O controlador da Ambipar, Tércio Borlenghi Júnior, era sócio de Tanure na Emae, o que ampliou a exposição cruzada entre os negócios. Parte do financiamento da aquisição da Emae tinha como garantia ações da Ambipar, que perderam valor de forma acentuada em poucas semanas, corroendo o lastro da operação.

Esse quadro foi agravado pela crise do Banco Master, iniciada no fim de março e que atingiu seu ápice em novembro, quando o Banco Central decretou a liquidação da instituição financeira fundada por Daniel Vorcaro.
A debacle do banco afetou Tanure, que utilizava a instituição em diversas operações e aplicações por meio de empresas de seu portfólio. Na prática, o colapso simultâneo da Ambipar e do Master comprometeu garantias, restringiu fontes de financiamento e acelerou a execução de contratos.
Além da Emae, outros negócios de Tanure sentiram o impacto. A rede de supermercados Dia, adquirida no fim de 2024, chegou a manter mais de 70% de seu caixa aplicado em um CDB ligado ao conglomerado do Banco Master.
Dos cerca de R$ 163,3 milhões aplicados, o Dia conseguiu reaver aproximadamente R$ 20 milhões à vista e um precatório avaliado em R$ 116 milhões, como revelou o InvestNews. O saldo remanescente seria pago de forma parcelada, mas, com a liquidação da instituição financeira, o recebimento passou a ser incerto.
As renegociações
Foi nesse contexto que a crise da Ligga Telecom ganhou contornos maiores. À venda desde agosto, conforme antecipado pelo InvestNews, Nelson Tanure precisou renegociar cerca de R$ 1,2 bilhão em dívidas relacionadas à compra da antiga Copel Telecom após não conseguir honrar o vencimento do débito.
O acordo fechado no início de dezembro deu fôlego temporário, mas impôs uma condição clara dos credores: a busca pela venda da própria Ligga, avaliada em cerca de R$ 2,5 bilhões, e das ações da Alliança Saúde, estimadas em torno de R$ 4 bilhões — dois dos principais ativos do portfólio construído ao longo dos últimos anos.
No caso da Alliança, a companhia informou ter contratado o BTG Pactual para assessorar a avaliação de alternativas estratégicas que podem incluir reorganizações societárias, entrada de sócios ou a venda parcial ou total da participação dos acionistas controladores – no caso, Tanure.
Paralelamente ao aperto financeiro, o empresário passou a enfrentar maior escrutínio institucional. Também dezembro, após o Ministério Público Federal (MPF) apresentar denúncia em um caso relacionado a um possível uso de informações privilegiadas na Gafisa, a defesa de Nelson Tanure pediu que o processo fosse remetido ao Supremo Tribunal Federal (STF) e submetido a sigilo total, sob o argumento de conexão com apurações mais amplas envolvendo o Banco Master, que tramitam exclusivamente na Corte.
Tanure nega qualquer relação societária com a instituição financeira e afirma que sua atuação sempre se limitou a relações comerciais e operações financeiras, sustentando que os temas em discussão devem ser tratados exclusivamente no âmbito judicial.
Do turnaround ao turnaround
O balanço de 2025 também ajuda a iluminar o próprio estilo de atuação de Nelson Tanure, um investidor de perfil old school que construiu sua trajetória comprando ativos pressionados em momentos de crise e apostando em reestruturações profundas.
Ao longo de décadas, sua estratégia se baseou em identificar empresas em dificuldade, assumir riscos elevados e negociar duramente com credores para tentar reescrever contratos e recuperar valor Em entrevista dada ao podcast “Atrás do retorno” no fim de 2024, o próprio Tanure explicou que sua inclinação por ativos estressados nasceu menos de convicção teórica e mais de necessidade prática.
“Eu tive que procurar negócios onde a minha capacidade de trabalho fizesse diferença. E onde estão essas oportunidades? Geralmente, no distress [ativos estressados economicamente]. O distress é o local de oportunidades”, afirmou.
Seu maior acerto foi a entrada na petroleira HRT, em 2014. Sob nova estratégia e gestão liderada por seu filho, Nelson Queiroz Tanure, a companhia foi rebatizada de PetroRio — hoje PRIO — e se transformou em uma das companhias mais rentáveis do setor de óleo e gás no país, frequentemente citada como o caso mais bem-sucedido de seu portfólio.

Nem todas as apostas, porém, tiveram o mesmo desfecho. Tanure também esteve envolvido em reestruturações complexas e de resultado mais limitado, como na operadora Oi, da qual foi investidor relevante entre 2003 e 2008. Por outro lado, após deixar a companhia, assumiu o controle da concorrente Interlig, que acabou incorporada pela TIM em 2009.
A lógica por trás dessas investidas sempre foi a mesma. Tanure prospera em ambientes de distress, quando o poder de barganha está concentrado em quem aceita risco e consegue impor condições mais favoráveis em renegociações de prazos e valores. Em ciclos assim, seu modelo tende a funcionar.
O problema é que 2025 marcou uma inflexão desse ambiente. Com a melhora gradual do mercado e menor tolerância a estruturas altamente alavancadas, o espaço para renegociação diminuiu, o custo do capital subiu e as engrenagens que sustentaram sua expansão passaram a trabalhar contra ele.
Em outro momento da entrevista concedida em 2024, Tanure resumiu essa lógica com franqueza: “A capacidade de recuar é uma grande virtude. Recuar de momento, se fortalecer e voltar, na maior parte das vezes, é uma brilhante ideia”.
O que diz a defesa de Nelson Tanure
Procurada pelo InvestNews, a defesa de Tanure afirmou, por meio de nota, que o empresário nunca respondeu a processo criminal relacionado a empresas das quais é ou foi acionista. Disse ainda que ele não tem qualquer relação societária com o Banco Master, do qual foi apenas cliente, e a única medida imposta foi a apreensão de seu telefone celular. Por fim, disse que durante as apurações do STF, ficará comprovada a inexistência de qualquer conduta ilícita relacionada a essa relação. Leia a nota na íntegra:
” A qualidade de advogado de Nelson Sequeiros Rodriguez Tanure e diante da notícia de que o empresário foi incluído no bojo da operação de busca e apreensão deflagrada com autorização do STF, esclarece-se:
1) O empresário Nelson Sequeiros Rodriguez Tanure, que tem décadas de experiência profissional no mercado de valores mobiliários, jamais enfrentou qualquer processo criminal em razão de suposta prática delitiva no contexto das empresas em que é ou foi acionista.
2) Nesse sentido, e não tendo qualquer relação de natureza societária com o Banco Master, do qual foi cliente nos últimos anos, nas mesmas condições em que é igualmente atendido por outras instituições financeiras conhecidas do mercado, o empresário Nelson Sequeiros Rodriguez Tanure, informa que a única medida que lhe foi imposta se resumiu à apreensão de seu aparelho de telefone celular, de modo que com isso o empresário tem certeza de que no decorrer das apurações promovidas pelo STF restará definitivamente demonstrada a inexistência de qualquer pretensa prática ilícita oriunda dessa relação.”