Em questão de dias, o setor financeiro já começou a se mexer. O fundo Amos Global Energy, liderado por ex-executivos da Chevron, iniciou a captação de US$ 2 bilhões para projetos petrolíferos imediatos na Venezuela, apostando que grandes petroleiras americanas têm em mãos uma oportunidade única de acessar ativos que estavam bloqueados há décadas. De fato, a substituição de reservas é uma métrica vital para empresas de petróleo – vide o interesse da Petrobras na Margem Equatorial.
Outro atrativo, do ponto de vista das petroleiras americanas, é que elas provavelmente pagarão menos royalties para a Venezuela. ExxonMobil e ConocoPhillips buscam bilhões de dólares em indenizações por conta de perdas causadas pelas nacionalizações de Hugo Chávez, em 2007, quando deixaram o país. Mesmo a Chevron, que opera lá, também tem a receber.
O mais provável, então, é que esses bilhões entrem na forma da economia com royalties. Mas os custos para recuperar a capacidade produtiva da Venezuela não são triviais. Um especialista do setor disse ao The New York Times que elevar a produção diária dos 900 mil bpd para o patamar de dois milhões bpd até 2030 custará US$ 100 bilhões. Por essas, não é simples fazer com que ExxonMobil e ConocoPhillips voltem ao país, ou mesmo que a Chevron decida investir pesado numa expansão.
Ainda assim, dificilmente faltará disposição para investimentos numa Venezuela tutelada pelos EUA. Ao WSJ, um consultor de Wall Street projetou que investidores estrangeiros poderão alocar entre US$ 500 bilhões e US$ 750 bilhões na Venezuela nos próximos cinco anos. Ele mesmo está organizando uma viagem para a Venezuela com 20 executivos especializados nos setores financeiro, de energia, de defesa…
“Há um enorme interesse nas oportunidades de reconstrução da Venezuela”, disse o consultor. “O país deve se recuperar mais rapidamente por estar no nosso hemisfério, com um novo governo que, desde o primeiro dia, será pautado pela atração e acolhimento do investimento estrangeiro direto”.
E o Brasil?
Em meio ao avanço do capital americano sobre a chamada “nova Venezuela”, dois grupos brasileiros estão em posição de capturar valor caso o país avance de fato para uma abertura econômica. O mais conhecido é a J&F, dos irmãos Batista, controladora da petroleira Fluxus.
A Fluxus opera campos na Argentina e na Bolívia (nesta última, focada em gás natural). A companhia mantém escritórios na Venezuela e já declarou publicamente a intenção de extrair petróleo lá.
Outro nome, bem menos óbvio, é a Maha Energy. Trata-se de uma petroleira listada na Bolsa de Estocolmo e controlada pela gestora brasileira Starboard. A companhia pagou US$ 5 milhões por uma opção de compra sobre os 40% pertencentes à Novonor (antiga Odebrecht), no campo de petróleo de Petrourdaneta, na bacia do Lago de Maracaibo, região histórica da produção venezuelana.
Ao Brazil Journal, a Maha afirma que o valor justo dessa participação no campo poderia chegar a US$ 300 milhões. A decisão de exercer ou não a opção, porém, segue em aberto, com prazo para definição até maio.
Muito além do petróleo
O interesse no petróleo da Venezuela é óbvio, mas o país também é rico em ouro, bauxita, ferro e outros minerais. Ao sul do Orinoco – rio que corta transversalmente a Venezuela –, estão as rochas de até três bilhões de anos que deram origem aos minerais sólidos. Ao norte do rio, bacias sedimentares mais jovens deram à luz quantidades imensas de petróleo e gás.
Esse potencial econômico todo, no entanto, não gerou um país próspero ou uma sociedade rica. A economia que os Estados Unidos vão “administrar” é um retrato da desolação industrial, onde a venda de petróleo responde por 95% das receitas externas, mas opera em níveis residuais, e a inflação anual passa dos 550%.
O chavismo nacionalizou a mineração – assim como fez com o petróleo – entregou as regiões ricas em ouro e outros minérios para os militares que davam sustentação ao regime de Maduro. A exploração de riquezas minerais está concentrada no Arco Minero del Orinoco (AMO), uma área de 112 mil km² criada por decreto em 2016 e que se estende por parques nacionais, reservas indígenas e pela Amazônia venezuelana.
Empresas estatais já estimaram haver cinco mil toneladas de ouro só nas chamadas “areias auríferas”, que são sedimentos acumulados ao longo das margens dos rios e resíduos de operações mineiras (rejeitos) acumulados por mais de um século na região de El Callao.
Para ilustrar: essa quantidade de ouro equivale a 65 anos da extração brasileira. Mas é bem difícil estimar a produção anual na Venezuela, já que 70% do que é extraído e comercializado ali está nas mãos do contrabando, segundo estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). São militares, gangues locais, grupos guerrilheiros colombianos, e cartéis mexicanos controlando as minas. É praticamente impossível saber quanto ouro sai. de lá, já que a produção oficial declarada é mínima e os dados não são confiáveis.

“Eles registram um número, mas a produção é outra. Há relatórios dizendo que 26 toneladas de ouro saíram da Venezuela em 2015, mas a produção oficial foi de 1,2 tonelada”, disse um auditor de uma estatal venezuelana citado em um relatório da OCDE.
Há números extravagantes para as reservas de petróleo (303 bilhões de barris, a maior do mundo), carvão mineral (730 milhões de toneladas, a quarta maior da América do Sul) e gás natural (5,5 trilhões de metros cúbicos, 73% do total na América do Sul), mas a produção anual é minguante nos três casos. Faltam investimentos, trabalhadores qualificados, reparos em estruturas e indústrias e mesmo a demanda local tem caído conforme a economia afundou em seu colapso e oito milhões de Venezuelanos fugiram do país ao longo das duas últimas décadas.
A rede elétrica, dependente em 64% da hidrelétrica de Guri, sofre de apagões sistêmicos, resultado de uma política de racionamento que prioriza centros urbanos para evitar protestos.
China, Rússia e Irã: os antigos parceiros
Neste cenário, a Venezuela de Maduro sobreviveu com o apoio de China, Rússia e Irã, uma tríade que atuou como contrapeso vital às sanções internacionais e ao colapso da produção interna. Rússia e Irã forneceram diluentes para aprimorar o denso petróleo venezuelano, gasolina para os veículos caribenhos e até reparos técnicos nas decrépitas refinarias do regime. Já a China exerceu um papel mais profundo.
O país de Xi Jinping virou o principal comprador do petróleo venezuelano – estima-se entre 70% e 90% da extração embarque para lá. O 1 milhão de barris por dia (bpd) produzido pela Venezuela são pouco (menos de 8%) ante a gigantesca demanda chinesa, mas representavam uma corrente de comércio vital para o chavismo.
Para driblar as sanções internacionais, as exportações frequentemente utilizavam “navios fantasma”, petroleiros que desligam seus transponders.

Esse comércio, entretanto, era amplamente voltado para o pagamento de dívidas acumuladas, gerando um fluxo de caixa mínimo para o país. As receitas de exportação caíram para apenas US$ 4,05 bilhões em 2023, uma fração do que arrecadaram potências petrolíferas como a Arábia Saudita (US$ 181 bilhões), Rússia (US$ 122 bilhões) ou Brasil (US$ 45,6 bilhões).
O “socorro” da China chegou principalmente por meio de empréstimos diretos, feitos por bancos estatais chineses. A consultoria AidData estima que o total de empréstimos chega a US$ 106 bilhões. Só Estados Unidos (US$ 202 bilhões), Rússia (US$ 172 bilhões) e Austrália (US$ 131 bilhões) receberam mais empréstimos de bancos chineses do que a Venezuela – no caso do Brasil, foram US$ 63,4 bilhões.
Dos US$ 106 bilhões que os bancos chineses destinaram à Venezuela, US$ 50 bilhões foram sob o modelo de “petróleo por empréstimos”, no qual o pagamento é feito diretamente com barris de óleo bruto. Já o investimento direto da China na Venezuela é pífio. “Investimento direto” é aquele em ferrovia, porto, compra de empresa. Nos últimos 20 anos, a China colocou apenas US$ 4,8 bilhões nisso por lá. Para comparar: o que o Brasil quase isso (US$ 4,2 bilhões) em investimento direto da China num único ano (2024).
Isso mostra que a China não buscou uma integração econômica com a Venezuela. Não como faz no Brasil, onde o capital chinês entra como investidor privado, comprando ativos e construindo infraestrutura. É uma demonstração de confiança no ambiente jurídico brasileiro – que inexiste no vizinho ao norte de Roraima.
Agora, com os EUA ao volante, o natural é que os investimentos “indiretos” (na forma de empréstimos) também sequem.
Colaborou Rikardy Tooge