A destituição do ditador venezuelano Nicolás Maduro pelos EUA abalou este país de menos de 10 milhões de pessoas, que há muito depende do petróleo venezuelano para manter sua pequena economia funcionando.
Isso abre um novo e perigoso capítulo para o regime comunista da ilha, durante um colapso econômico que já rivaliza com a crise sofrida por Cuba após o colapso da União Soviética, há mais de três décadas.
Nas cidades mais pobres, as pessoas especulam abertamente sobre se os EUA derrubarão o governo do presidente cubano Miguel Díaz-Canel, sucessor de Raúl e Fidel Castro, os irmãos que lideraram a Revolução Cubana em 1959, causando ondas de choque por toda a América Latina.
“Eles estão nervosos”, disse Manuel Cuesta Morúa, ativista político baseado em Havana, sobre o governo. “A repressão vai aumentar, é a resposta típica.”
O aparato de segurança estatal de Cuba sempre manteve um controle rígido sobre todos os níveis da sociedade, desde locais de trabalho até escolas e casas de show. Mas a captura de Maduro ameaça desestabilizar o controle do governo sobre cada rua, seu profundo sistema de vigilância e sua vasta rede de informantes, dizem dissidentes cubanos e ex-funcionários.
Dois dias após a destituição de Maduro, Reynaldo Flores enfrentava seu quinto dia consecutivo sem água corrente em seu apartamento em Havana. Essa é sua nova realidade, junto com os apagões diários, o sistema de saúde falho, o lixo acumulado nas ruas e as dores nas articulações causadas por doenças transmitidas por mosquitos que assolam a ilha.
“Seis, sete, dez dias passam sem água”, disse Flores, 66 anos. “Quando a água volta, não há eletricidade para bombeá-la.”
Recentemente, ele disse que houve um dia em que simultaneamente não tinha eletricidade, água corrente nem gás para cozinhar. Como todos os cubanos, Flores economiza água em um tanque, racionando para beber, cozinhar, lavar e tomar banho. Quando acaba, ele pula de um telhado para outro para coletar baldes de água de cisternas próximas.
Ele se preocupa principalmente com os idosos que procuram comida no lixo. Quando contraem um vírus, vão a hospitais sobrecarregados para morrer. Tudo isso sem contar o calor sufocante.
“Um amigo trabalha para o governo e recebeu a tarefa de recolher idosos que vivem sozinhos e já estavam mortos em suas casas há dias”, disse Flores, aposentado e que depende de remessas de familiares no exterior.
Cuba está em uma crise econômica perpétua, que se intensificou desde a pandemia de Covid-19. Mais de 2,7 milhões de pessoas — cerca de um quarto da população da ilha, a maioria jovens e ambiciosos — fugiram desde 2020, a maior parte para os EUA. É um “esvaziamento demográfico”, disse o demógrafo cubano Juan Carlos Albizu-Campos. Ele estima que a população de Cuba seja agora de oito milhões.
O resultado combinado da emigração em massa e da queda da fertilidade feminina é que os nascimentos vivos em Cuba despencaram a níveis inferiores aos de 1899, quando Cuba emergiu de uma sangrenta guerra de independência de três anos que dizimou sua população, disse Albizu-Campos.
“O problema de Cuba já era existencial”, disse Joe García, ex-congressista cubano-americano que fala frequentemente com altos funcionários da ilha. “Do lado cubano, é desespero e ainda mais desespero”, disse García, democrata da Flórida.
O turismo, outrora um dos pilares econômicos da ilha, despencou, com ocupação hoteleira abaixo de 30%, segundo executivos do setor. A maioria dos turistas, oriundos principalmente da Rússia e da China, chega com pacotes all-inclusive, o que significa que o gasto não chega à população local, já que os visitantes não consomem muito fora do itinerário pré-aprovado.
Um novo hotel de luxo de 42 andares se ergue sobre o outrora elegante distrito Vedado, em Havana. No entanto, o hotel espanhol de US$ 200 milhões está “quase vazio”, disse William LeoGrande, analista de Cuba na American University de Washington, que recentemente retornou do país.
Ele estima que a renda em moeda forte proveniente do turismo caiu 75%.
Muitos cubanos dependem das remessas de familiares no exterior. O Estado depende de bilhões de dólares arrecadados com milhares de médicos cubanos trabalhando na Venezuela, México e outros países, e das importações subsidiadas de petróleo venezuelano para manter a luz ligada. Mas agora o fornecimento de petróleo venezuelano pode ser cortado pelos EUA.
Cuba não tem dinheiro para comprar petróleo no mercado internacional e só pode esperar que países amigos, como Angola, Argélia, Brasil ou Colômbia, compensem a falta caso a Venezuela, sob pressão dos EUA, interrompa seus envios, disse Jorge R. Piñon, que acompanha o consumo de energia em Cuba na Universidade do Texas.
A Venezuela fornecia cerca de 35 mil barris de petróleo por dia dos aproximadamente 100 mil barris diários que a ilha precisa. Cuba produz cerca de 40 mil barris por dia de petróleo pesado, carregado de enxofre e metais, que alimenta suas usinas de energia decadentes. O México, que enviou cerca de 22 mil barris por dia no ano passado, reduziu os envios para cerca de 7 mil, enquanto a Rússia envia cerca de 10 mil barris diários, disse ele.
Cortar o petróleo venezuelano devastaria a economia cubana.
“Não ficaria surpreso se os americanos disserem à Venezuela para continuar fornecendo petróleo a Cuba, para não abrir outra caixa de Pandora”, disse Piñon, que calcula os envios de petróleo para a ilha usando relatórios de serviços que rastreiam navios-tanque. Sem o petróleo venezuelano, ele estima que a infraestrutura energética de Cuba colapsaria em 30 dias.
Enquanto o país luta para sobreviver, a grande questão será a resposta da liderança cubana, que governa com punho de ferro desde a revolução liderada pelos Castros e seus “homens barbudos de verde-oliva”. A primeira ação do regime comunista foi obrigar os trabalhadores a participarem de um comício no fim de semana para denunciar a captura de Maduro e declarar dois dias de luto, com bandeiras a meio mastro em homenagem aos 32 soldados cubanos e oficiais de inteligência militar de alto escalão que morreram durante a incursão militar dos EUA.
Sem petróleo, há risco de que os apagões rotativos, que às vezes deixam os residentes da ilha com apenas quatro horas de eletricidade por dia, piorem. Aqueles que dependem de geradores terão dificuldade em operá-los sem acesso ao combustível. Até cozinhar será complicado, já que alguns moradores recorreram a fogões movidos a petróleo.
LeoGrande disse que, ao contrário da crise após o colapso soviético, conhecida como “período especial”, quando a dor econômica foi sentida em toda a sociedade cubana, o sofrimento nesta crise recai de forma desproporcional sobre os cubanos mais pobres, que não têm parentes no exterior enviando dólares.
“Há mais desigualdade visível”, disse LeoGrande. “Os pobres estão tão mal quanto no período especial, mas um segmento da classe média e alta tem acesso a dólares e não está tão mal, o que causa uma tensão social real.”
Traduzido do inglês por InvestNews
