Trump reuniu cerca de 20 representantes do setor na Casa Branca na sexta-feira (9) e disse acreditar que um acordo poderia ser fechado “ainda hoje ou muito em breve” para reativar as operações no país latino-americano rico em petróleo, após a queda de Nicolás Maduro.
“Se vocês não quiserem entrar, é só me dizer, porque tenho outras 25 pessoas prontas para ocupar o lugar de vocês”, disse Trump aos executivos durante o encontro.
As falas de alguns participantes indicaram, porém, que o presidente ainda terá trabalho para convencer o setor. Embora muitos tenham elogiado Trump e dito enxergar oportunidade na Venezuela, reforçaram que ainda há obstáculos significativos antes de qualquer investimento relevante.
Woods expressou uma das posições mais duras. “Se olharmos para os marcos legais e comerciais existentes hoje na Venezuela, o país é inviável para investimento”, afirmou. Ele lembrou que ativos da Exxon já foram expropriados duas vezes pelo governo venezuelano.
“Qual é a durabilidade das garantias financeiras? Como serão os retornos? Quais serão os contratos, os marcos legais?”, questionou. “Tudo isso precisa estar definido para que possamos avaliar o retorno ao longo das próximas décadas.”
Ainda assim, Woods disse que a Exxon estaria pronta para “colocar uma equipe em campo” caso haja convite do governo venezuelano e garantias adequadas de segurança.
Até mesmo Harold Hamm, fundador da Continental Resources e doador histórico de Trump, evitou dizer se pretende investir pessoalmente no país, embora tenha admitido que a oportunidade “empolga qualquer explorador”.
“Há um investimento gigantesco a ser feito — todos concordamos com isso — e certamente precisamos de tempo para avaliar”, disse Hamm ao presidente.
Trump, por sua vez, saiu confiante do encontro. “Nós meio que fechamos um acordo”, afirmou a jornalistas. “Eles vão entrar com centenas de bilhões de dólares em perfuração, e isso é bom para a Venezuela e excelente para os Estados Unidos.”
Questionado sobre compromissos concretos, o secretário de Energia, Chris Wright, citou apenas a Chevron — a única grande petroleira americana ainda operando no país — como a “única promessa específica” até agora.
O vice-presidente da Chevron, Mark Nelson, disse que a empresa pode elevar sua produção atual de cerca de 240 mil barris por dia em aproximadamente 50% nos próximos 18 a 24 meses.
Garantias
Durante a reunião, Trump afirmou que os EUA ofereceriam garantias de segurança às empresas que atuarem na Venezuela, sem detalhar como isso funcionaria. Também disse que os investimentos seriam rapidamente recuperados.
“Vocês estão lidando conosco. Segurança total. Não estão lidando com a Venezuela”, afirmou.
Em entrevista posterior, Wright disse que a melhor forma de reduzir o risco para as empresas seria “mudar o comportamento do governo venezuelano” e criar “condições de negócios melhores”.
Trump também afirmou que as perdas anteriores sofridas por empresas que deixaram a Venezuela não seriam levadas em conta.
Em um momento da reunião, perguntou ao CEO da ConocoPhillips, Ryan Lance, quanto a empresa havia perdido no país. A resposta: US$ 12 bilhões. “Um bom prejuízo contábil”, brincou Trump. “Já foi baixado no balanço”, respondeu Lance.
Alguns executivos demonstraram otimismo. O CEO da Repsol, Josu Jon Imaz, disse estar “pronto para investir mais hoje mesmo” se houver um marco legal e comercial adequado.
Já Bill Armstrong, da Armstrong Oil & Gas, comparou a Venezuela a um ativo imobiliário altamente valorizado: “É como West Palm Beach há 50 anos — totalmente subvalorizada e pronta para valorização”.
Ainda assim, o tom geral reforçou o tamanho do desafio para o governo americano em convencer grandes petroleiras a retornar ao país.
A intervenção dos EUA na Venezuela surpreendeu parte da opinião pública americana, inclusive aliados de Trump, que acusaram o governo de buscar apropriação oportunista dos recursos naturais do país.
Trump, por sua vez, tem defendido a estratégia como forma de remover Maduro, neutralizar uma ameaça à segurança nacional e transformar as vastas reservas venezuelanas em fonte de poder e receita. “Se nós não tivéssemos feito isso, China ou Rússia teriam feito”, afirmou.
Após a reunião, Wright disse à Bloomberg TV que espera ver a produção venezuelana crescer já até o meio do ano. “Eles vão aumentar os investimentos imediatamente nas próximas semanas”, disse. “US$ 100 bilhões em dez anos? Acho absolutamente possível.”
Combustíveis
A pressão de Trump sobre a indústria também dialoga com sua agenda política doméstica: conter o custo de vida antes das eleições legislativas de novembro. Na sexta-feira, a gasolina nos EUA custava em média US$ 2,81 por galão, segundo a associação AAA.
Mas preços baixos também preocupam as petroleiras. Empresas menores já enfrentam dificuldades com os níveis atuais e temem que uma enxurrada de petróleo venezuelano derrube ainda mais os preços, tornando muitos poços economicamente inviáveis.
Trump disse que os investimentos serão feitos com dinheiro das próprias empresas — não com recursos públicos.
Os mercados já reagiram ao plano do governo de liberar mais de 50 milhões de barris de petróleo venezuelano para venda. O contrato do petróleo WTI operava próximo de US$ 59 por barril na sexta-feira.
Executivos relataram que havia receio de que a participação na reunião pudesse ser interpretada como apoio explícito a uma apropriação dos recursos venezuelanos. Ao mesmo tempo, precisam manter cautela diante de um presidente que pressiona por compromissos rápidos.
A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, mas sua produção caiu para menos de 1 milhão de barris por dia após décadas de sucateamento e fuga de empresas estrangeiras.
A recuperação exigiria anos de trabalho e dezenas de bilhões de dólares apenas para elevar modestamente a produção — ainda muito distante do pico de quase 4 milhões de barris por dia registrado nos anos 1970.