Mas existe uma outra conta a ser levada em consideração: o fluxo cambial. E ele nos conta uma história um pouco mais complexa: estrangeiros e brasileiros estão retirando dinheiro do Brasil por outras vias.
O fluxo de recursos estrangeiros para a bolsa brasileira não deixa mentir: o interesse do capital externo por papéis que sirvam de diversificação fora dos EUA e que sejam mais baratos na comparação com o atual nível de preços do mercado americano é uma realidade.
Ano passado, os estrangeiros ingressaram com R$ 27 bilhões na bolsa brasileira. E essa demanda se estende por esse começo de ano: esse grupo já aportou R$ 750 milhões no ano até o dia 8.
Só que os dados do fluxo cambial do Banco Central mostram uma retirada sem precedentes de dinheiro pela conta financeira.
Essa conta reúne dados de investimentos estrangeiros em ações, mas não só: entram na matemática o movimento para títulos e investimentos diretos, remessas de lucros e dividendos ao exterior, pagamento de juros de dívidas externas, amortizações de empréstimos e financiamentos internacionais e movimentações financeiras de bancos e empresas. E isso não só pelos estrangeiros, vale destacar, mas também por brasileiros.
O fluxo cambial em 2025 ficou negativo em US$ 33,3 bilhões, resultado da saída de US$ 82,5 bilhões pela conta financeira e da entrada de US$ 49,1 bilhões pela conta comercial (dados das exportações e importações de bens, que interessam menos nessa conversa). O fluxo financeiro representou, no ano passado, a segunda maior saída de dólares do país da série, iniciada em 1982.
Quer dizer, os estrangeiros querem ações, mas têm seus motivos (reforçando: junto com outros investidores brasileiros) para enviar dólares para fora do país.
A saída de recursos da conta financeira ganhou força por causa de um evento marcante no ano passado: a tributação de dividendos, que já está em vigor. A lei, que estipula a cobrança de 10% sobre o que superar R$ 50 mil por mês (R$ 600 mil por ano), foi formalmente aprovada em novembro, mas a discussão sobre o tema começou em março.
Ou seja: com a nova tributação no horizonte, investidores estrangeiros e brasileiros acabaram estimulados a retirar recursos do país, enquanto empresas antecipavam o pagamento dos proventos antes de terminar o ano.
