Desde 2021, quando listou suas ações na Bolsa, a Smart Fit dobrou de extensão. Passou de 1 mil para mais de 2 mil unidades. É um avanço tão acelerado que fez a rede reinar como a grande vencedora entre as academias low-cost não só no Brasil, mas na América Latina. São 984 unidades aqui e 1.100 em outros países da região. Uma liderança multi-continental.

Corta para 15 de janeiro de 2026. Nesse dia, a ação da Smartfit levou um tombo de 8%. Foi a reação ácida do mercado a uma fala do CEO Edgar Corona. Numa reunião fechada com analistas e gestores, o fundador da rede mencionou a competição acirrada com redes menores, deixando em aberto para o risco de que isso leve a margens de lucro mais estreitas neste ano.

O pior para a ação passou. Ela acumula alta de 5,4% desde então, e a hegemonia da Smart Fit está longe de ser contestada. A segunda colocada, Skyfit, tem cerca de 600 unidades no Brasil; a terceira, Panobianco, 400. Mas também é verdade que os grupos concorrentes começam a ganhar musculatura para tentar bater de frente.

O cenário atual é o completo oposto dos anos de pandemia, quando redes menos capitalizadas diminuíram ou deixaram de existir, liberando terreno para a Smartfit. Hoje, boa parte das concorrentes vive um momento de franca expansão, num mercado que atrai cada vez mais capital.

O boom fitness

Entre 2019 e 2024, o país aumentou sua taxa de penetração de praticantes de atividades físicas indoor de 10 milhões para 15 milhões de pessoas. O número de academias no país quase triplicou na última década, para 56 mil unidades.

A profusão das chamadas “canetinhas emagrecedoras” também fomentou o mercado no país. E entre as maiores economias do mundo, o Brasil é a que tem a maior proporção de frequentadores de academias:

“Esse cenário trouxe para o mercado um olhar de grandes investidores. Tem crescido o número de empresários que entram no mercado com uma estrutura gerencial muito bem planejada, antes mesmo de abrir as portas”, analisa Ailton Mendes, presidente da Acad Brasil, entidade que representa os interesses do setor.

A principal competição se dá no campo das chamadas low-cost, popularizado pela própria Smart Fit. São redes que atuam com mensalidade relativamente baixa (a partir de R$ 89 por mês, contra até R$ 700 das academias premium).

Não existe uma regra clara para a operação desse tipo de modelo. Algumas redes priorizam a expansão por lojas próprias (muitas vezes alicerçadas por fundos de investimentos), outras vendem franquias, como a Smart Fit. “Os dois modelos evoluem muito bem aqui no Brasil”, afirma Mendes.

Entre as que operam com franquias, a Panobianco tem experimentado um crescimento avassalador nos últimos anos. Fundada em 2012, no interior de São Paulo, por três irmãos formados em educação física, a empresa ganhou escala após migrar para o modelo de franquias em 2016. Mas foi depois da pandemia que a companhia acelerou o pace, passando de 60 para mais de 400 unidades agora. E tudo isso replicando um único tipo de negócio: com unidades de 850 m² a 1 mil m² — cada uma demanda um aporte de R$ 1,2 milhão.

O desafio ali é diversificar a parte geográfica. Hoje, mais de 90% das unidades estão concentradas no Estado de São Paulo. Para se projetar como um competidor nacional, a empresa fechou um contrato com a Rede Globo para patrocinar a academia do Big Brother Brasil. “Estamos nos projetando para tornar a Panobianco um player nacional. Por isso, estamos fazendo um investimento de marketing desse nível”, afirma o CEO da Panobianco, Felipe Barth de Castro, que não divulga quanto gastou com o patrocínio ao BBB.

BBB como jogada de marketing de marca nacional, diz Felipe de Castro, CEO da Panabianco

Após faturar mais de R$ 800 milhões em 2025, a Panobianco planeja inaugurar mais de 200 lojas neste ano. A projeção de sell-out para 2026 é de R$ 1,3 bilhão.

Com a meta de chegar a 1 mil academias em 2028, a companhia tem se preparado para voos mais altos. Recebeu recentemente um aporte do americano Chris Rondeau, ex-CEO da Planet Fitness, por 3% do negócio e com mais 2% de stock options para participar do conselho por quatro anos. A empresa começou a ser auditada pela KPMG, criou comitês internos e almeja ser listada na Bolsa nos próximos anos.

A Panobianco vai abrir suas primeiras unidades no México neste ano. A marca projeta 10 inaugurações numa primeira leva. No mapa dos países a serem explorados também está a Colômbia, revela o CEO.

Mas o desafio fora do país não é tão diferente em relação ao Brasil: enfrentar a (quase) onipresente Smart Fit. “Eu tenho bastante contato na Colômbia. Já trabalhei lá. Pode ser um mercado legal [para expansão], mas vai depender de achar alguém com capital, que tope esse desafio e, obviamente, queira enfrentar a Smart Fit, que está na América Latina toda”, afirma Castro.

A expansão via franquias facilita o crescimento, mas o risco de não conseguir manter o controle de qualidade das unidades pode desafiar a expansão, observa um gestor ouvido pelo InvestNews. “A SmartFit está muito bem preparada para lidar com competição. Ela não é só a maior. É a mais preparada para certas complexidades. Como esses negócios vão lidar, por exemplo, com saída de franqueados?”, questiona.

Prestes a abrir a unidade número 100, a rede Ultra, do empresário Fernando Nero, também projeta uma expansão para além das fronteiras nacionais. Nero é fundador da BlueFit, que hoje pertence ao fundo Mabadala, dos Emirados Árabes, e tinha 184 unidades ao fim do 3T25. Seu novo empreendimento vai inaugurar uma primeira unidade no Paraguai. Argentina e México também estão no radar. Nesse caso, a expansão se dá por meio um modelo híbrido: a Ultra, geralmente, entra com uma porcentagem (pelo menos 30%) e toca o negócio com parceiros locais.

Inaugurada em 2021, após um período de non-compete firmado na saída da BlueFit, Nero projeta inaugurar cerca de 60 unidades da Ultra este ano, com investimento estimado em R$ 250 milhões. Isso significa abrir mais que uma unidade por semana. Mesmo assim, é um pace mais lento em relação a alguns concorrentes.

Nero, fundador da rede de academias Ultra, sentado em uma escada
Fernando Nero, da Ultra, é também fundador da BlueFit, hoje controlada pelo Mubadala (Divulgação)

“A gente vê as redes crescendo tão rápido que, às vezes, acabam se atropelando um pouco na expansão, buscando crescer por crescer, e fazendo algumas loucuras em relação ao mercado imobiliário, que está um pouco inflacionado”, afirma Nero.

Além da rede Ultra, o grupo opera algumas academias especializadas, caso da Spider Kick, de luta, onde Nero é sócio do ex-campeão do UFC Anderson Silva. O grupo projeta um faturamento de R$ 400 milhões para 2026.

Domínio nordestino

Um dos maiores grupos no país, a Selfit é uma rede low-cost que está ganhando força sem tentar, de saída, disputar o mapa inteiro. Criada a partir de um projeto de empreendedores pernambucanos, com a primeira unidade em 2012, a empresa escolheu o Nordeste como território natural de consolidação — e acelerou a partir de 2015, quando recebeu investimento do fundo HIG Capital. A tese é adensar praças onde a marca passa a aparecer “em todo canto” e vira opção óbvia no trajeto do cliente.

Foi com essa lógica regional que a Selfit se tornou mais presente em alguns endereços dos Estados do Norte e Nordeste do que a própria líder nacional, segundo Fernando Menezes, CEO da rede. A estratégia, ele descreve, é a de consolidação por clusters: onde entra para valer, a rede busca crescer até que tenha escala suficiente para sustentar preço baixo e uma operação “confortavelmente cheia”, sem cair no problema que mais derruba academias hoje, a superlotação.

Selfit: plano foi adensar em áreas específicas, conta Fernando Menezes, CEO

O plano agora é esticar essa presença para áreas que a companhia enxerga como sub assistidas, onde a oferta ainda depende muito de academias de bairro. Presente em 16 Estados, a Selfit tem usado algumas praças fora do eixo tradicional como laboratório de expansão — caso de Mato Grosso, onde o grupo decidiu adensar uma operação ainda pequena e que deve chegar a sete unidades em breve.

Atualmente, são 200 academias em operação, com meta de chegar a 250 até o fim do ano (em torno de 200 próprias e 50 franquias). O faturamento passou de pouco menos de R$ 300 milhões em 2024 para algo em torno de R$ 400 milhões em 2025.

Outra frente de disputa

Se com as outras redes a briga acontece no volume e no preço, uma outra concorrência começa a se formar onde a Smart Fit tem apostado para crescer fora do modelo tradicional: o universo dos “estúdios fitness”. É nesse terreno que a australiana F45, desembarca no Brasil com o peso de uma marca global, presente em mais de 70 países, com 3,2 mil endereços – e que tem o ator Mark Wahlberg como investidor.

Rede de estúdios, F45
Rede de estúdios F45 quer ter 80 unidades em um ano (Divulgação)

O “produto” da F45 não é exatamente oferecer um lugar para quem deseja malhar, mas um programa de treinos. São 45 minutos (daí o nome), combinando exercíos aeróbicos e com pesos, em unidades menores do que uma academia convencional (cerca de 200 metros quadrados).

O plano de expansão no país é via franquias. Entre as metas, está a de abrir 80 unidades neste primeiro ano e chegar a 1 mil até 2031, conta Alex Pedron, empresário que está trazendo a F45 ao país como master franqueado. “Se o local está pronto, em uma semana se coloca todo o equipamento e a unidade fica pronta para começar a funcionar.”

As primeiras unidades serão inauguradas entre março e abril no Rio de Janeiro e em São Paulo, com planos que partem de R$ 197. A companhia também fechou parceria com a plataforma de serviços de academia Wellhub, concorrente do serviço TotalPass, da Smart Fit.

A Ultra, de Fernando Nero, é outra que investe em “estúdios fitness”. Ela é dona da rede Cycle, de ciclismo indoor, e da The Flame, de treinos aeróbicos intensivos – nos moldes da F45.

É isso. Se a indústria de alimentos faz dinheiro vendendo calorias, a de academias descobre cada vez mais formas de faturar com a queima delas.