“O segredo para ser CEO por tanto tempo é: primeiro, não ser demitido. E segundo, não ficar entediado”, disse o executivo de 62 anos durante um evento da empresa em Las Vegas no início deste mês.
Huang, que transformou a Nvidia em uma potência de chips e na empresa mais valiosa do mundo, dificilmente será demitido tão cedo. Ele também não dá sinais de estar perdendo o interesse no cargo: o executivo incansável cruza o mundo promovendo a computação em inteligência artificial e soltando piadas de “pai” para plateias entusiasmadas.
Mas até o CEO mais enérgico precisa, em algum momento, abrir espaço para um sucessor. E, para uma empresa de seu porte — um negócio de US$ 4,5 trilhões no coração do boom da IA — a Nvidia fez pouco para mostrar que está preparada para essa transição.
A Microsoft teve Bill Gates e depois Steve Ballmer. A Apple teve Steve Jobs e depois Tim Cook. Já Huang não tem um herdeiro aparente, e a Nvidia não divulgou publicamente planos de liderança de longo prazo.
Investidores que comemoraram a valorização de 842% das ações da empresa nos últimos três anos querem saber se o conselho da Nvidia está lidando com essa questão muito antes de ela se tornar inevitável.
“Não dá para ser investidor da Nvidia sem se preocupar com o risco do ‘homem-chave’”, disse Jon Bathgate, gestor da NZS Capital. O estilo de gestão de Huang — baseado em decisões rápidas e numa estrutura organizacional enxuta — é o que torna a Nvidia única, segundo ele.
“Você teria de ter uma estrutura corporativa mais tradicional se não tivesse o Jensen no comando”, afirmou Bathgate.
Representantes da Nvidia, sediada em Santa Clara, Califórnia, não responderam a pedidos de comentário.
Huang, que completa 63 anos no próximo mês, é o rosto inconfundível da Nvidia. Sua agenda frenética de aparições públicas o torna inseparável da forma como o público percebe a empresa e suas ações. Quando outros executivos aparecem, normalmente se restringem a suas áreas imediatas e a temas técnicos, preferindo citar o que Huang já disse sobre assuntos mais amplos.
A Nvidia também conta com líderes tecnológicos respeitados, como Ian Buck e Bryan Catanzaro, disse Bathgate. Mas não há a sensação de que eles estejam prontos para tomar decisões estratégicas amplas.
Escalão da gestão
A empresa tem quatro vice-presidentes executivos. Um atua como diretor jurídico, e outros dois estão na casa dos 70 anos. A quarta é Colette Kress, diretora financeira. Embora seja mais jovem que Huang — na faixa dos 50 anos — é raro que gigantes de tecnologia escolham seus líderes a partir da área financeira.
“Planos de sucessão raramente são visíveis para quem está de fora, e as empresas normalmente não designam um sucessor com muita antecedência por razões competitivas e outras”, disse Moon Surana, gestor da Harding Loevner. “Ainda assim, mais visibilidade sobre a liderança sênior e o banco de executivos ajudaria os investidores a avaliar a profundidade da gestão e a prontidão para a sucessão.”
Uma característica marcante do estilo de Huang é a impaciência. Ele corre para aproveitar oportunidades e remover obstáculos, temendo que a falta de velocidade condene a empresa.
Projetos que não dão certo desaparecem da noite para o dia. Pessoas e equipes inteiras — independentemente de cargo ou tempo de casa — são realocadas sem aviso para trabalhar no que Huang considera a maior necessidade da Nvidia.
Ele odeia reuniões individuais. Prefere encontros em grupo, muitas vezes focados obsessivamente em um único problema até que surja uma solução que todos passam a executar. Raramente demite pessoas, mas admite abertamente que as “tortura” para que se tornem a versão mais eficaz de si mesmas.
Apresentações para grandes plateias feitas por líderes de equipe costumam ser interrompidas pelo CEO — muitas vezes de forma brutal — se ele acha que o palestrante está deixando escapar algum ponto importante.
Funcionários da Nvidia, inclusive os que já saíram, continuam impressionados com ele. Falam sobre a obrigação de enviar e-mails listando as cinco principais prioridades e de receber feedback direto dele a qualquer hora, geralmente em frases curtas e secas.
Sob os holofotes
Durante a maior parte do mandato de Huang, a Nvidia enfrentou bem menos escrutínio. Fundada em 1993 por Huang e seus cofundadores, a empresa era uma fabricante de nicho de chips para placas gráficas de videogame. Isso mudou quando pesquisadores descobriram que a tecnologia era ideal para desenvolver e rodar modelos de IA — uma tarefa que exige enorme poder computacional.
Nos últimos cinco anos, a Nvidia se tornou peça central da gigantesca expansão de data centers de IA. Isso trouxe crescimento de vendas sem precedentes e força financeira, colocando a empresa e seu líder sob os holofotes.
A Nvidia foi a primeira empresa a alcançar uma avaliação de US$ 4 trilhões e chegou a superar brevemente os US$ 5 trilhões. A receita mais que dobrou em cada um dos últimos dois anos fiscais, e Wall Street espera que as vendas superem US$ 500 bilhões por ano antes do fim da década.
A empresa também é extraordinariamente lucrativa: a Nvidia caminha para registrar lucro líquido de US$ 113 bilhões no ano fiscal que termina neste mês — muito mais do que costumava faturar em receita anual antes da febre da IA.
Para os acionistas, a esperança é que Huang permaneça no cargo de CEO por muitos anos.
“Ele construiu uma empresa de US$ 4 trilhões e tem sido o principal rosto público dela”, disse Michael Kirkbride, gestor da Evercore Wealth Management. “Esperamos não descobrir como ela funciona sem ele por muito tempo.”
A abordagem de Huang foi moldada por momentos próximos do desastre. Nos primeiros anos da Nvidia, a empresa vivia sob a ameaça de extinção diante da Intel Corp. A Nvidia evoluiu como uma organização ágil, preparada para reagir a crises — algo que se mostrou extremamente valioso ao permitir a transição de chips gráficos para processadores usados nos computadores mais poderosos do mundo.
Seus discursos, que misturam humor descontraído com explorações de ciência da computação, física e matemática, têm sempre um propósito. Ele está constantemente antecipando o próximo problema ou oportunidade e tentando avançar em direção a uma solução.
A combinação de energia, visão e profundo senso de dono — ele ainda é o quinto maior acionista da Nvidia — será difícil de igualar por qualquer sucessor.
“Talvez existam cinco pessoas no mundo que poderiam simplesmente assumir o cargo”, disse David Larcker, professor de governança corporativa e contabilidade da Universidade Stanford.
A sucessão também é um tema sensível para conselhos de administração, especialmente quando o CEO atual está na sala, disse Larcker. Mas é uma função essencial.
“Todos nós temos uma data de validade”, afirmou. “É difícil para um conselho levantar esse tipo de questão provocativa quando tudo está indo tão bem.”
Transições na tecnologia
O Vale do Silício está cheio de empresas construídas em torno do carisma, da visão e da energia de indivíduos ou pequenos grupos. E há exemplos de transições bem-sucedidas.
No caso da Apple, a empresa passou de um visionário de produtos — Jobs — para um executivo conhecido por suas habilidades operacionais. Sob Cook, a companhia continuou a prosperar e a se expandir para novos mercados.
Na Microsoft, Ballmer manteve o crescimento e ajudou a preparar o terreno para que o atual CEO, Satya Nadella, fizesse a virada para a computação em nuvem. Da mesma forma, o Google, da Alphabet Inc., evolui além da busca sob o comando de Sundar Pichai.
Mas todos esses líderes tiveram carreiras de várias décadas dentro de suas organizações. Não há alguém assim na Nvidia — ao menos não um executivo que tenha ascendido a um papel de grande visibilidade.
Os investidores esperam que esse seja um tema ao qual Huang possa dedicar parte de sua famosa tenacidade.
“O fato de ele ser tão metódico e cuidadoso faz acreditar que isso esteja em algum lugar na cabeça dele”, disse Kirkbride.