Trump fez o comentário na terça-feira, em meio à fraqueza do dólar que está contribuindo para a instabilidade nos mercados cambiais globais. O WSJ Dollar Index, que compara o dólar a uma cesta de moedas, caiu cerca de 8% no último ano, e a valorização constante do ouro, acima de US$ 5.300 por onça nesta semana, também indica fraqueza do dólar. A taxa de câmbio dólar-euro é uma das mais importantes na economia global, e o dólar perdeu cerca de 14% de seu valor em relação ao euro no último ano.
Outras moedas caíram ainda mais. O iene japonês caiu para perto de ¥160 por dólar na semana passada, um nível não visto desde os anos 1980 (com breve exceção em 2024). O won coreano oscilou entre forte valorização na primeira metade do ano passado e profunda depreciação na segunda. Mas a grande notícia continua sendo o enfraquecimento do dólar, e agora Trump diz que isso está perfeitamente bem para ele.
Como é retrô. Durante décadas, os defensores da desvalorização argumentavam que uma moeda mais fraca impulsiona exportações e emprego, enquanto uma moeda forte poderia sufocar a economia. Há décadas que essa visão não possui forte respaldo empírico, se é que já teve. As exportações de alta tecnologia de hoje são menos sensíveis a esse tipo de competição de preços. Para consumidores globais escolhendo entre um Ford, Volkswagen, Honda ou Kia, o preço é apenas um dos fatores considerados, junto com segurança, conforto e tamanho da tela sensível ao toque.
Muitas evidências sugerem que as flutuações cambiais produzem, no máximo, mudanças de curto prazo na atividade econômica — antes que a inflação ou deflação doméstica neutralizem os efeitos. Isso deveria soar um alerta para Trump, já que um dólar fraco aumenta o risco de inflação, algo que ele mal pode se dar ao luxo antes das eleições de meio de mandato em novembro.
Alguns economistas próximos a Trump atualizaram velhas teorias cambiais para se alinhar aos seus instintos protecionistas. A ideia é que “investimentos estrangeiros demais” nos EUA supervalorizam o dólar, prejudicando indústrias exportadoras e criando o grande déficit comercial americano.
Aqui também, é difícil encontrar evidências de dano real. Esse problema existe apenas porque tantos estrangeiros estão investindo no crescimento econômico dos EUA. Pior ainda, a suposta solução é desestimular esse investimento, por exemplo, com imposto retido na fonte sobre juros pagos a detentores estrangeiros de títulos do Tesouro.
Tudo isso reforça a lógica de uma política de dólar forte ou estável, especialmente ao considerar por que outras moedas estão se comportando como estão. Os grandes riscos estão na Ásia.
No Japão, um iene mais fraco parece ser um sintoma de um reequilíbrio econômico e financeiro mais amplo, à medida que as taxas de juros se normalizam, a inflação cresce, surgem sinais de recuperação econômica e as políticas fiscais de Tóquio permanecem excessivas. A transição do Japão para uma política monetária mais normal é arriscada o suficiente sem disputas políticas sobre a taxa iene-dólar.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, merece crédito por compreender isso e usar persuasão moral com traders cambiais na semana passada para ajudar a estabilizar o iene. Também merece crédito por afirmar na quarta-feira que os EUA sempre tiveram uma “política de dólar forte”, contrariando os comentários de Trump no dia anterior. O dólar se valorizou com a notícia.
A China apresenta o risco oposto. Pequim quer evitar a valorização excessiva do yuan. Protecionistas americanos interpretam isso como uma desvalorização competitiva, mas a preocupação maior de Pequim é que uma valorização rápida do yuan acelere uma espiral deflacionária já em formação na sua economia altamente endividada.
A taxa de câmbio do yuan, mais fraca em relação ao dólar do que alguns estimam, é um sinal de vulnerabilidade de Pequim, e não de estratégia exportadora. Ninguém — nem mesmo Trump — deveria desejar empurrar a segunda maior economia do mundo para uma depressão se puder ser evitado.
Existem bons motivos para Washington tradicionalmente adotar uma política de dólar forte. Trump gosta de se colocar como um iconoclasta econômico, mas quebrar essa tradição específica é arriscado — para ele e para os EUA.
Traduzido do inglês por InvestNews