Os presidentes-executivos das duas gigantes destacaram as oportunidades de longo prazo no país sul-americano, que detém, no papel, as maiores reservas de petróleo do mundo. Ainda assim, após a divulgação dos resultados trimestrais na sexta-feira, evitaram assumir novos compromissos de capital.
Segundo eles, reformas políticas e legais são essenciais para garantir a segurança dos investimentos, além de ressaltar que qualquer novo projeto na Venezuela terá de competir com alternativas em outras regiões do planeta.
Chevron não quer usar orçamento global
Única grande petrolífera americana ainda presente no país, a Chevron pretende financiar suas operações venezuelanas com o caixa gerado por ativos já existentes. Com isso, a empresa afirma poder ampliar a produção em até 50% sem recorrer ao orçamento global de investimentos.
“Continuaremos focados em geração de valor e disciplina de capital”, afirmou o CEO Mike Wirth, em teleconferência com analistas. “Trata-se de um recurso expressivo, com potencial para ganhar mais peso no nosso portfólio no futuro. Mas precisamos ver estabilidade no país e ter confiança no regime fiscal.”
No início da semana, a presidente interina da Venezuela aprovou mudanças históricas na política petrolífera nacionalista, reduzindo impostos e permitindo maior participação de empresas estrangeiras — menos de um mês após forças dos EUA capturarem o líder de longa data Nicolás Maduro. Pouco depois, o Departamento do Tesouro americano emitiu uma licença geral ampliando a autorização para empresas dos EUA exportarem, venderem e refinarem petróleo proveniente do país sancionado.
O CEO da Exxon, Darren Woods, que irritou Trump ao classificar a Venezuela como “inviável para investimentos” em reunião recente na Casa Branca, adotou um tom mais positivo na sexta-feira. Ele elogiou os esforços do governo americano para melhorar os marcos legal e fiscal venezuelanos, embora tenha destacado que o processo levará tempo.
“O que eu disse na Casa Branca foi que, com as estruturas fiscais e legais atuais, não era possível investir, mas havia espaço para corrigir isso”, afirmou Woods. “O governo Trump está comprometido com essas mudanças.”
Woods acrescentou que o país também precisará avançar em representação democrática — um ponto que, segundo ele, ainda não recebeu a devida atenção da atual administração.
As ações da Exxon fecharam praticamente estáveis na sexta-feira, mas tocaram uma máxima histórica ao longo da semana, impulsionadas pelo crescimento da produção de baixo custo na Guiana e na Bacia do Permiano, o que compensou a queda nos preços do petróleo e reduziu a necessidade de investir na Venezuela. Já os papéis da Chevron subiram 3,3%, após a empresa cortar custos, elevar dividendos e ampliar a produção.
“A Venezuela é um vetor concreto de crescimento para a companhia, já que seus ativos mantiveram desempenho enquanto concorrentes deixaram o país”, escreveu o analista James West, da Melius Research. “Ainda assim, a escala da produção depende do regime fiscal, da regulação e da estabilidade política.”
A Chevron pretende usar os lucros iniciais na Venezuela para recuperar dívidas da estatal PDVSA e cobrir custos operacionais recorrentes, como intervenções em poços e manutenção de bombas, dutos e estações de compressão. Atualmente, a empresa produz cerca de 250 mil barris por dia em joint ventures com a estatal venezuelana, o equivalente a aproximadamente 2% do seu fluxo de caixa anual.
As mudanças na lei de hidrocarbonetos aprovadas nesta semana representam um “passo na direção correta”, disse a diretora financeira Eimear Bonner em entrevista. No entanto, para atingir a meta de elevar a produção em 50%, a Chevron ainda precisará de autorizações adicionais do Tesouro americano.
Outro obstáculo é o petróleo pesado da Venezuela, altamente viscoso e de difícil escoamento. Woods comparou o desafio às areias betuminosas do Canadá, onde a Exxon afirma ter uma abordagem tecnológica que reduz os custos de produção.
O maior entrave, porém, segue sendo a segurança jurídica e política de qualquer investimento futuro. A Exxon já teve ativos nacionalizados na Venezuela nos anos 1970 e novamente em meados dos anos 2000.
“Eles mudaram as regras do jogo”, disse Woods em entrevista à CNBC. “É um terreno muito escorregadio quando se começa a cooperar e trabalhar com pessoas que estão roubando de você.”