A apreensão de Wall Street com os custos cada vez mais elevados do desenvolvimento de tecnologias de inteligência artificial vem fervendo em fogo baixo há meses. Agora, começou a transbordar.

Na quarta-feira, a Microsoft divulgou resultados sólidos, mas o mercado concentrou sua atenção no crescimento estagnado do Azure, seu negócio de computação em nuvem, e no volume superior a US$ 100 bilhões que a empresa deve desembolsar em investimentos de capital apenas neste ano. No dia seguinte, as ações despencaram 10%. As vendas continuaram na sexta-feira, eliminando US$ 381 bilhões em valor de mercado em apenas duas sessões. O resultado foi a pior semana da Microsoft desde março de 2020.

“Em um cenário normal, esses números seriam muito bons. Mas, diante da escala dos investimentos e de ações precificadas para a perfeição, é preciso entregar exatamente o que o mercado espera”, afirmou Josh Chastant, gestor de investimentos públicos da GuideStone Funds, que detém participação na Microsoft.

Esse contraste ficou evidente com a Meta Platforms, que projetou o crescimento trimestral de receita mais forte em mais de quatro anos. Os investidores reagiram impulsionando as ações em 10% na quinta-feira, no melhor pregão desde julho, apesar de a empresa também ter anunciado planos de elevar seus investimentos de capital em até 87% em 2026. A ficha, porém, caiu no dia seguinte, quando os papéis recuaram 3%, registrando a pior sessão desde 30 de outubro.

Muitas dúvidas e gastos bilionários

A divergência escancarou o caminho cada vez mais estreito que as gigantes de tecnologia precisam percorrer, três anos após o início de um rali sustentado pela aposta de que seus cofres robustos e investimentos agressivos as colocariam na linha de frente da próxima grande transformação tecnológica. O mercado até tolera gastos bilionários — desde que haja crescimento para justificá-los. Caso contrário, a punição vem rápido.

“Estamos claramente em uma fase em que a monetização dos investimentos em IA precisa aparecer para que as avaliações das ações de tecnologia façam sentido”, disse Chastant, cuja gestora administra cerca de US$ 24 bilhões.

Essa lógica deve pesar nas análises desta semana, quando Alphabet e Amazon divulgam seus resultados, na quarta e na quinta-feira, respectivamente. Juntas, essas empresas — ao lado de Microsoft e Meta — devem investir mais de US$ 500 bilhões em despesas de capital em 2026, segundo dados da Bloomberg, grande parte direcionada à infraestrutura de computação voltada à IA.

As expectativas são mais altas para a Alphabet, de longe a ação com melhor desempenho entre as chamadas “Sete Magníficas” nos últimos seis meses, com valorização superior a 70%. O rali foi impulsionado pelo sucesso do modelo de IA Gemini, do Google, e pelo entusiasmo em torno de seus processadores personalizados, vistos como um motor para o crescimento da nuvem.

As ações da Alphabet fecharam em máxima histórica na quinta-feira, antes de uma leve correção na sexta. Negociadas a mais de 28 vezes o lucro estimado, elas estão no patamar mais caro em quase duas décadas.

A Amazon também estará sob pressão para manter o ritmo, depois que a Amazon Web Services registrou no último trimestre sua expansão mais forte em quase três anos.

“Nem todas essas taxas de crescimento vão se concretizar”, afirmou Peter Corey, cofundador e estrategista-chefe da Pave Finance, que administra cerca de US$ 20 bilhões em ativos. “No longo prazo, as expectativas podem sofrer um baque considerável.”

O recuo dos investidores

Parte dos investidores já começou a reduzir suas apostas no setor. Um índice que acompanha as Sete Magníficas — grupo que inclui ainda Apple, Tesla e Nvidia — recua 1,5% desde o recorde registrado há três meses, enquanto o S&P 500 avançou 0,7% no mesmo período. Em outros casos, as quedas foram bem mais acentuadas.

A Oracle, por exemplo, cujas ações chegaram a subir até 97% em 2025 com o entusiasmo em torno do crescimento de sua divisão de nuvem, acumula queda de 50% desde o recorde atingido em setembro. A desvalorização reflete o ceticismo em relação à materialização dos compromissos de gastos de startups deficitárias, como a OpenAI, além do alto custo para expandir a capacidade computacional.

“O que realmente nos preocupa é ver mais de uma empresa aumentando fortemente o capex e recebendo muito pouco em troca”, afirmou Bob Savage, chefe de estratégia macro de mercados do BNY. “Isso seria um motivo para parar e questionar a estratégia. Mas, neste momento, ainda não há informações suficientes para concluir.”

Esse sentimento mais pessimista vem se formando há meses. Segundo dados mais recentes do Barclays, o setor de tecnologia era o menos presente nas carteiras de gestores ativos ao fim do terceiro trimestre. Neste ano, investidores discricionários continuam migrando de ações de megacapitalização e tecnologia para setores cíclicos, como materiais e indústria, de acordo com dados do Deutsche Bank divulgados na semana passada.

“A Big Tech continua sob pressão, a rotação segue em curso e ainda não há evidências suficientes de que essas empresas estejam crescendo mais rápido do que estão gastando”, afirmou Savage.

Os hedge funds também vêm reduzindo exposição. Tecnologia da informação foi o setor com maior volume líquido de vendas por duas semanas consecutivas, segundo dados de prime brokerage do Goldman Sachs referentes à semana encerrada em 23 de janeiro.

Para Corey, da Pave Finance, a reversão desse movimento depende de uma prova concreta de que os investimentos em IA estão, de fato, se convertendo em retorno financeiro.

“No fim das contas, tudo se resume a como esse capex extraordinário vai se transformar em retorno extraordinário”, disse. “Até chegarmos à terra prometida, novos tropeços ainda podem acontecer.”