O Brasil produz muito mais energia elétrica do que precisa. Pelo menos durante o dia. Os painéis solares respondem por 23% da nossa capacidade de geração hoje – contra 2% em 2019, para dar uma ideia. 

As placas fotovoltaicas já passaram as usinas hidrelétricas, que ocupam o segundo lugar, com 32% da geração de energia. E dependendo do horário, o sol vence a água por uma margem ainda mais larga. Ao meio-dia, 44% da energia nacional vem dos painéis solares.

Só tem um problema. Quando o sol está a pino, passa a fluir mais energia do que os fios de transmissão dão conta. Para evitar sobrecargas, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) manda cortar parte da geração – opera curtailments, no jargão energético. Um desperdício: 20% da geração solar e eólica pronta para chegar aos fios acaba desplugada ao longo do dia.    

À noite, quando o sol teima em apagar, a chave vira: falta energia no sistema. A solução para esse dilema diário, é óbvia: estocar vento – e sol. Sobrou geração de força? Guarda para usar depois. 

Tanto que o governo federal está organizando seu primeiro “leilão de reserva de potência”. Grosso modo, significa buscar empresas interessadas em montar “fazendas de baterias”; mais precisamente aquilo que o setor chama de BESSs (Battery Energy Storage Systems). 

A ideia é que empresas montem complexos de megabaterias de lítio, as mesmas dos carros elétricos. E aí comprem energia barata durante o dia, quando sobra. Na verdade, energia que hoje acaba cortada para evitar sobrecarga do sistema, então o desconto pode ser forte. À noite, quando falta energia, vira-se a chave. Os elétrons estocados nas baterias vão para o mercado, a preços mais altos. Temos uma margem de lucro aí. E se há margem, há negócio. O leilão está previsto para abril.

Mas bateria não é a única forma de armazenar energia, pelo menos não quando o assunto é o sistema elétrico. Existe outro: as hidrelétricas reversíveis

De dia, ela fica desligada, já que o país não precisa de ainda mais energia com o sol a pino. Mas não é só isso. Ela aproveita esse tempo para encher o reservatório superior, bombeando água lá de baixo. Essa bombeada consome energia. E de onde vem a energia? Dos painéis solares e turbinas eólicas que, de outra forma, teriam sua geração cortada. Assim:

Em suma, é uma hidrelétrica que ‘rebobina’, usando a energia do sol e do vento. E aí, de noite, a água que subiu desce, passa pelas turbinas e gera energia. Ela vira uma usina convencional:    

Aí é a mesma lógica de negócio para as empresas do ramo: comprar energia barata e vender mais caro depois. Tudo sem se preocupar com a manutenção do reservatório. Mesmo que nunca mais chovesse, o suprimento de água ficaria garantido para sempre pelo bombeamento diurno. 

As hidrelétricas reversíveis e as baterias de armazenamento são, enfim, duas soluções para o mesmo problema. O Brasil já tem baterias assim operando no sistema elétrico, ainda que numa escala diminuta. Já as reversíveis seriam uma novidade no Brasil. Qual das duas é a melhor? É o que vamos ver agora?

As hidrelétricas reversíveis  

Hidrelétricas reversíveis são comuns no resto do mundo. Tão comuns que 15% da potência hídrica disponível no planeta vem delas. Os dois países que mais usam são justamente os que mais consomem energia: China e EUA. A Europa também adota largamente a tecnologia – cujo nome internacional é Pumped Storage Hydropower (PSH).

O fato é que 42 países têm PSHs em operação hoje. Surpreende que o Brasil, nação mais hidrelétrica depois da China, não abrigue nenhuma – ainda mais numa realidade em que o armazenamento começa a virar urgência.  

Porque os curtailments crescem ano a ano, na esteira do crescimento de uma modalidade recente de produção de energia: a geração distribuída (GD). Estamos falando dos painéis solares “caseiros”, que ficam nos tetos de casas e nos terrenos de fazendas. São 4 milhões de pontos hoje, em 5.565 dos 5.569 municípios do país.

Boa parte da energia deles vai para o sistema elétrico. E haja energia. Os painéis caseiros geram uma potência equivalente à de três Itaipus. Com isso, a GD responde sozinha por 16% da potência nacional. E por muito mais no meio do dia, claro. Dá para inferir que um terço da energia brasileira com o sol a pino vem dos painéis caseiros. 

E é ela, então, a responsável pela energia que sobra no país, e que gera os curtailments. O problema é que não existe uma chavinha capaz de desligar uma parte da produção das casas quando a estabilidade do sistema entra em risco. O ONS, então, desliga onde dá: principalmente as usinas solares “profissionais”, instaladas por empresas de geração, e as eólicas. E as companhias que investiram nessas usinas perdem dinheiro, já que são obrigadas a travar a produção.

Num cenário com hidrelétricas reversíveis, uma parte dessas paradas indesejáveis deixaria de acontecer. Em vez de desligar no meio do dia, a usina mandaria energia para uma PSH. Venderia mais barato, de fato. Mas ainda assim venderia.

A paranaense Copel, que atua na geração e na transmissão de energia, planeja construir a primeira reversível do país, com capacidade de 70 MW – o suficiente para suprir uma cidade de 200 mil habitantes.

Seria uma usina “de circuito fechado”, ou seja: toda a água que cai de noite é bombeada para cima durante o dia, usando o excedente de energia solar. Ou seja, uma reversível padrão, que não depende de regime de chuvas. 

Além disso, dá para converter usinas normais em reversíveis. “Conseguimos fazer um investimento complementar nas hidrelétricas que já temos, colocando máquinas novas. Tudo isso com a vantagem de que as hidrelétricas duram 50 anos, 100 anos”, disse Diogo Mac Cord, VP de Novos Negócios da Copel num evento em Brasília, no ano passado. 

A parte sobre a duração é, naturalmente, uma referência à outra tecnologia de armazenamento, a das baterias de lítio. A vida útil delas é menor: de 15 a 20 anos. Outro ponto forte das PSHs, para a realidade brasileira, é a geografia. 

“O que você precisa para reversível? Precisa de água – não muita – e precisa de queda. E existem quedas muito boas na região costeira toda: Rio de Janeiro, São Paulo, Nordeste…”, diz Amílcar Guerreiro, ex-diretor da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), órgão do governo federal que assessora o planejamento do setor energético.

Caso encerrado a favor das reversíveis, então? Não é tão simples. Porque depois de um fenômeno dos últimos anos as baterias também se tornaram uma solução interessante.      

As megabaterias

Os curtailments não são um problema só do Brasil. A geração solar distribuída é uma realidade em boa parte do mundo. E ainda não inventaram um país onde o sol não se põe. 

Na luta por armazenar os excedentes de energia, as hidrelétricas reversíveis eram a resposta mais universal até outro dia. Em 2023, a potência somada delas era de 181 GW (14 Itaipus, ou 70% da capacidade do Brasil, somando todas as fontes). Enquanto isso, o armazenamento por baterias de lítio somava 91 GW. 

Um ano depois, a capacidade em baterias tinha saltado 80%, para 164 GW. A das reversíveis, só 4%, para 189 GW. E em 2025, o lítio deixou a água para trás. Foram mais 65% de expansão para as baterias, elas já somam 270 GW. Ou seja: sete Itaipus em baterias em 12 meses. 

O dado mais recente sobre a potência somada das PSHs é o de 2024, mas dificilmente será algo que chega perto da capacidade atual dos BESSs.

Isso só aconteceu por uma razão fundamental: o preço das baterias de lítio “estacionárias” (as que vão nos BESSs) despencou. Em 2025, elas já custavam 55% menos do que em 2023. Nesse patamar, o preço por kWh de um sistema de baterias já é menor do que o de uma hidrelétrica reversível típica. 

E dá para montar um sistema em questão de meses, enquanto a construção de uma reversível leva anos, mesmo se for só o “retrofit” de uma hidrelétrica normal que já existe. Daí o próprio leilão do governo mirar nas baterias. 

A ideia é que, após o leilão, vários BESSs espalhados pelo país armazenem 2 GW de potência durante o dia. Em “Itaipus”, nem dá tanto (a maior hidrelétrica do país tem 14 GW). Mas já é metade do que o Brasil desperdiça em cortes de energia solar e eólica (4 GW). 

Significa, então, que as hidrelétricas reversíveis estão ultrapassadas? Não. Além de durar “para sempre”, elas podem fornecer energia por muito mais tempo. Os sistemas de baterias funcionam por duas a quatro horas. Uma reversível pode soltar energia por mais de 10 horas, dependendo do tamanho dos reservatórios.

Pode haver casos, então, em que elas sejam a solução ideal. O mais importante: as soluções para o dilema da energia solar em excesso existem e são viáveis como negócio. Agora é pôr para funcionar.