A estatal mineira Copasa e as empresas privadas BRK Ambiental e Aegea devem testar a reabertura do mercado de ofertas no Brasil após o PicPay encerrar o jejum de IPOs de companhias brasileiras com sua estreia na Nasdaq. Embora à primeira vista a fila pareça concentrada demais em um único setor, a avaliação no mercado é de que há capital suficiente para acomodar as três operações.
Isso porque, segundo um banqueiro ouvido pelo InvestNews, a saída de grandes empresas de energia da bolsa nos últimos anos abriu espaço para uma nova geração de utilities – companhias de infraestrutura com receitas previsíveis, contratos de longo prazo e reajustes regulados, historicamente vistas como ativos defensivos.
Energia e saneamento compartilham essa lógica: operam sob contratos regulados, com receitas estáveis e protegidas da inflacão, o que transforma essas empresas em pagadoras recorrentes de dividendos e em destinos naturais para capital de longo prazo. Com menos elétricas disponíveis, gestores especializados em infraestrutura passaram a buscar substitutos.
De 2023 para cá, EDP Brasil, Neoenergia e Serena deixaram a B3, produzindo um vácuo que o saneamento poderá ocupar nas carteiras dos grandes investidores. “O setor comparável ao de elétricas em relação a tamanho é o de saneamento”, afirma. Fundos dedicados a utilities seguem com mandato para alocar, e o setor surge agora como a principal alternativa.
Para essa fonte, o saneamento entra agora num ciclo de captação cujo volume só poderá ser atendido pelo mercado de capitais. “Tem espaço para esses tipos de ativo, até porque tem um programa de capex muito relevante em todos os Estados. Essa turma vai precisar de financiamento. A gente está falando de investimento de R$ 800 bilhões no setor pelos próximos cinco anos . Então tem que dividir, tem que passar o chapéu.”
O histórico recente sugere que existe interesse do mercado por ativos de saneamento. Na privatização da Sabesp, em 2024, a demanda superou em 12 vezes a oferta, com mais de R$ 180 bilhões em ordens de compra.
Vale lembrar, porém, que se tratava da maior empresa do setor e que a ação foi ofertada com desconto muito grande em relação ao preço de tela, o que ajudou a inflar o livro de oferta. Ainda assim, a operação evidenciou o apetite de investidores institucionais por empresas de saneamento.
Puxando a fila
A Copasa deve ser o primeiro grande teste desta nova onda. O governo de Minas Gerais, dono de 50,03% da empresa, desenha uma privatização que pode movimentar entre R$ 9 bilhões e R$ 10 bilhões. A oferta combina a venda de até 15% para um sócio estratégico e outros 15% ao mercado, em formato semelhante ao adotado na Sabesp. O Estado segue sócio, com 20%, mas deixa de exercer o controle sobre a Copasa.
Segundo apuração do Valor, o investidor de referência terá que garantir ao Estado o preço previamente acordado, mesmo que a fatia distribuída ao mercado acabe precificada abaixo. A regra busca evitar críticas de que o governo estaria “deixando dinheiro na mesa”, como ocorreu na privatização paulista.
O interesse existe. A francesa Veolia, a Aegea, a Sabesp e a gestora Perfin estão entre os nomes que avaliam a operação. A presença de grupos globais e dos principais operadores privados do país reforça a percepção de que a Copasa se tornou um ativo estratégico num setor em consolidação.

Antes mesmo de a privatização ganhar forma, o mercado já vinha se posicionando. A Perfin elevou sua participação para 12,31% do capital e se consolidou como a maior acionista privada da companhia, atrás apenas do governo mineiro. Especializada em infraestrutura e sócia histórica de operadores do setor, a gestora é vista por analistas como um termômetro do apetite financeiro por saneamento.
Num relatório recente, o Itaú BBA classificou a estrutura como positiva por trazer visibilidade sobre governança e regras da transação. Os analistas destacam que o desenho privilegia um investidor estratégico com experiência comprovada em infraestrutura e compromisso com metas de universalização, além de impor limites de voto e períodos longos de lock-up – que impede a venda das ações no curto prazo, de modo a afastar aventureiros.
Mesmo após a forte valorização das ações – que já embutem um cenário de privatização – o banco ainda vê gatilhos de alta até o lançamento da oferta, incluindo a assinatura de novos contratos municipais e a definição do preço mínimo da operação.
Todos de olho
Dividindo as atenções do mercado com a Copasa está a Aegea, hoje a maior empresa privada de saneamento do país. Com sócios de peso e concessões estratégicas no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, a companhia é há anos apontada como candidata natural a um IPO, plano que inicialmente era discutido apenas para 2027.
Os movimentos de Copasa e BRK, porém, aceleraram o cronograma. A Aegea contratou no fim de 2025 BTG Pactual, Itaú BBA e Morgan Stanley para estruturar uma eventual oferta ainda neste semestre. A empresa também solicitou à CVM a conversão de seu registro para companhia aberta classe A, etapa técnica que antecede as emissões de ações na Bolsa.
Em paralelo, nos últimos dias do ano passado, a companhia estruturou um aumento de capital privado de R$ 1,2 bilhão liderado pelo fundo soberano de Singapura (GIC). A operação, como mostrou o InvestNews, avaliou a Aegea em R$ 58,9 bilhões – valor que pode funcionar como “shadow price” para o IPO e sinaliza a faixa buscada para a listagem. A título de comparação, a Sabesp hoje vale cerca de R$ 100 bilhões na Bolsa.

A Aegea atende 39 milhões de pessoas em 892 municípios e registrou receita bruta de R$ 15,4 bilhões em 2024. Seus controladores são a Equipav, o GIC e a Itaúsa, holding da família Setúbal.
Para investidores, a empresa representa a história mais completa de consolidação privada do saneamento brasileiro, transformando a Aegea no principal referência de preço para a fila de operações do setor – e no ativo que pode definir se a janela para utilities está de fato reaberta para IPOs.
Correndo por fora
A BRK Ambiental é outra empresa privada de saneamento que tenta sua listagem ainda neste semestre, mas entra na disputa carregando um histórico mais conturbado que o das rivais.
Criada a partir dos ativos de saneamento da Odebrecht, a companhia passou anos em reestruturação após a Lava Jato, num processo que envolveu reforço de governança, compliance e reconstrução da relação com reguladores e investidores.
Controlada desde 2017 pela canadense Brookfield, a BRK tem sido mais ativa que a concorrente Aegea na corrida pelo IPO. A empresa já está em agenda com investidores e busca levantar até R$ 4 bilhões na oferta, segundo o Pipeline.
Os recursos devem ser usados para reduzir alavancagem e reforçar a estrutura de capital. Hoje, a dívida líquida equivale a mais de seis vezes o resultado operacional (Ebitda), um nível considerado elevado para um setor intensivo em capital.

No fim do ano passado, voltou a ganhar uma concessão após longo hiato ao levar um bloco de 151 cidades em Pernambuco – projeto estimado em R$ 15,4 bilhões em investimentos ao longo de 35 anos.
A vitória foi vista no mercado como divisor de águas para a narrativa de crescimento da companhia, adicionando escala, gerando sinergias regionais e oferecendo um novo argumento para investidores justamente no momento em que testa a reabertura da janela de IPOs.
Apesar dos avanços em governança, o mercado ainda trata a operação com cautela. Investidores veem a BRK como um ativo em processo de convencimento, pressionado por desafios operacionais e pela competição direta com Copasa e Aegea na disputa por recursos.
A decisão dos gestores, dizem fontes do setor, não é se devem ou não investir em saneamento, mas em qual empresa apostar.