A crise financeira da Raízen ganhou um novo capítulo nesta segunda-feira (9). A produtora de etanol e energia renovável viu seu rating ser rebaixado para grau especulativo pelas agências de crédito Fitch e S&P, em meio à crescente preocupação sobre sua capacidade de honrar dívidas. Na manhã de hoje, a empresa anunciou que contratou assessores financeiros e jurídicos para avaliar opções estratégicas que possam fortalecer sua liquidez e reorganizar sua estrutura de capital.

Diante de um impasse entre os acionistas sobre a capitalização, a Raízen iniciou negociações com o Rothschild para assessorá-la na reestruturação de sua dívida, que somava cerca de R$ 70 bilhões em setembro. A estimativa é que a empresa precisa de uma injeção de capital entre 20 bilhões e 25 bilhões de reais (US$ 3,8 bilhões a US$ 4,8 bilhões), segundo estimativa do UBS BB Investment Bank divulgada no fim do ano passado.

As discussões sobre como lidar com as crescentes pressões financeiras se intensificaram nos últimos dias, à medida que investidores passaram a vender títulos diante da preocupação de que os principais acionistas, Cosan e Shell, não cubram um déficit de quase US$ 4 bilhões.

Em reuniões recentes, a Raízen e seus assessores analisaram cenários que incluem desconto sobre a dívida (haircut), cisão de parte dos negócios, oferta de ações e injeção de capital, segundo fontes ouvidas pela Bloomberg. As conversas estão em estágio inicial e nenhuma decisão foi tomada até o momento.

Juros altos e safra abaixo do esperado

A Raízen enfrenta dificuldades devido a juros elevados, safras abaixo do esperado e apostas ambiciosas, como etanol de segunda geração e combustível de aviação sustentável, que ainda não geraram retornos significativos.

O impasse entre Cosan e Shell, que se arrasta há meses, aprofundou os problemas financeiros da companhia. Recentemente, a Cosan resgatou títulos com cláusulas de vencimento antecipado cruzado (cross-default), sinalizando menor disposição de apoiar a Raízen, enquanto a Shell evita injetar capital sozinha para não ultrapassar 50% de participação, o que exigiria consolidação da dívida em seu balanço.

Conforme mostrou uma reportagem publicado pelo InvestNews no ano passado, no plano de reduzir o endividamento, a Raízen tem vendido ativos não estratégicos identificados em um “saldão” de R$ 15 bilhões. O foco principal é a operação na Argentina, mas a venda de mais usinas no Brasil, especialmente em Mato Grosso do Sul, também está prevista. Apesar de os valores de transação serem menores que o inicialmente estimado, os desinvestimentos ajudam a melhorar o fluxo de caixa e eliminar operações deficitárias.