Agora, na corrida global para criar poder de computação suficiente para um futuro impulsionado pela inteligência artificial, os cabos da Corning se tornaram os conectores preferidos.
A história da “Cinderela” de um componente relativamente discreto, mas de alta tecnologia, tem sido um impulso para a empresa de 175 anos e uma lição de como estar disposto a perder dinheiro em ideias novas por longos períodos pode compensar.
As ações da Corning estão próximas de sua máxima histórica, impulsionadas por um acordo de US$ 6 bilhões recentemente anunciado com a Meta para fornecer cabos de fibra óptica para a crescente rede de data centers de IA da empresa.
A Corning afirmou que está em negociações com outras companhias para negócios semelhantes. A empresa também trabalha no que pode ser seu próximo grande projeto — fibras que vão dentro dos servidores, em vez de apenas conectá-los entre si.
Mais claras que cristal
Os cabos da Corning estão em alta demanda por causa da física: dados podem ser transmitidos muito mais rápido e com menos energia usando luz (feita de fótons) do que eletricidade (feita de elétrons). Os cabos geralmente contêm dezenas ou centenas de fibras de vidro ultrafinas e flexíveis para transportar sinais.
Até recentemente, a fibra óptica era usada principalmente para conectar nós da internet — às vezes atravessando milhares de quilômetros sob terra e sob o mar.
“Mesmo em distâncias curtas, transmitir dados com fótons é três vezes mais eficiente do que com elétrons”, diz Wendell Weeks, CEO da Corning desde 2005, que veio da divisão de fibra óptica. “E em longas distâncias, é mais como 20 vezes.”
Cerca de metade da produção da Corning permanece nos EUA, um feito considerando quantos outros fabricantes de alta tecnologia transferiram suas operações para fora do país. Em uma fábrica na Carolina do Norte, a empresa puxa fios de vidro tão finos quanto um cabelo humano, mas com mais de 30 milhas de comprimento. São tão transparentes que, se enchesse um oceano com eles, seria possível enxergar o fundo.
O sucesso da Corning nesse setor não era garantido, diz Mike O’Day, chefe do negócio de fibra óptica. Até pouco tempo, a empresa ainda produzia um produto que quase não mudava desde sua introdução em 1970.
Em 2018, Weeks e O’Day foram a Dallas visitar um data center da Meta, então conhecido como Facebook. Eles ficaram impressionados com a demanda por cabos de fibra óptica para conectar todos os servidores daquele enorme armazém. O Facebook usava uma mistura de cabos de cobre e fibra óptica existente, mas ambos eram inadequados para a tarefa.
Isso levou os engenheiros da Corning a tornar os cabos mais finos, mas também mais resistentes, para suportar curvas apertadas, diz Claudio Mazzali, chefe de pesquisa da Corning.
Cinco anos depois, o ChatGPT estreou, e a demanda por data centers com fibra óptica explodiu.
“Somos gratos por termos feito a visita em 2018 e por termos apostado nisso”, diz O’Day. Na época, eles não tinham ideia se seria um bom investimento ou um fracasso, acrescenta.
O ‘Modo Corning’
O que tornou possível a reinvenção da fibra da Corning é que a empresa quase não terceiriza nada, diz Mazzali. Ela até projeta as máquinas usadas para fabricar sua fibra óptica e seus cabos.
Weeks afirma que isso faz parte do “Modo Corning”. Esse modelo também se aplica à equipe de trabalho, explica o CEO. Quando a empresa muda de direção, realoca engenheiros em vez de demiti-los, permitindo que acumulem expertise por décadas, em projetos diferentes. “As coisas que nossos engenheiros fazem não se aprendem em um livro”, diz Weeks.
Após a pandemia, a Corning enfrentou seis trimestres consecutivos de queda na receita, seu declínio mais longo desde o colapso das telecomunicações em 2001. Em vez de demitir funcionários e reduzir fábricas, a empresa ofereceu aos empregados a opção de receber parte da remuneração em ações.
“Provavelmente tínhamos de 4.000 a 5.000 funcionários a mais do que nossa receita poderia suportar”, diz Weeks. A Corning emprega atualmente cerca de 56 mil pessoas em todo o mundo.
Agora que a demanda por fibra está em alta, a empresa precisa de toda essa mão de obra e capacidade — e ainda mais.
Oferta e demanda
A Corning é a maior fabricante de fibra óptica em vários aspectos e detém a maior parte do mercado norte-americano. A fibra para data centers é a parte de crescimento mais rápido da receita da Corning, diz O’Day. O sucesso contínuo depende de que as grandes empresas de tecnologia continuem construindo no ritmo previsto, segundo analistas.
“O nível em que as ações da Corning estão hoje já incorpora tudo dando certo e nada dando errado”, diz William Kerwin, analista sênior de ações da Morningstar.
Como muitos fornecedores de data centers, a Corning já vende toda a produção que consegue fabricar. “Acredito que a demanda pela fibra da Corning continuará acima da oferta no futuro próximo”, diz Kerwin. “Pode-se dizer com segurança que, se pudessem produzir mais, poderiam entregar mais.” Outro fator: a instalação de fibra óptica enfrenta escassez de mão de obra.
Independentemente de a indústria de IA atingir suas metas de crescimento, empresas estabelecidas e emergentes continuarão buscando fibra óptica da qualidade fornecida pela Corning e alguns concorrentes globais. E a Corning já tem o próximo negócio de crescimento definido: a Nvidia está explorando servidores que incorporam diretamente a fibra óptica “co-empacotada” do fabricante de vidro.
Levou quase meio século para a Corning produzir um bilhão de milhas de fibra óptica. O segundo bilhão levou oito anos, marco alcançado no ano passado. O próximo bilhão chegará muito mais rápido.
Em parte, isso ocorre porque mais dessa fibra está sendo usada nas redes internas dos data centers, suficiente para em breve superar o negócio de longa distância em termos de milhas entregues, diz O’Day. E ainda há a fibra que vai dentro dos computadores.
Embora Weeks esteja otimista sobre a relação com a Nvidia, ele afirma que ainda não foi convidado para os famosos encontros do CEO da Nvidia, Jensen Huang, com frango frito e cerveja. O desenvolvimento da fibra óptica co-empacotada exige paciência e capital, diz Weeks, assim como as inovações passadas da Corning.
“Quando realmente entregarmos, acho que é quando você será convidado para o frango e a cerveja”, brinca Weeks.
Christopher Mims é um colunista que escreve sobre tecnologia para o escritório de tecnologia do The Wall Street Journal em São Francisco
Traduzido do inglês por InvestNews