A rede de supermercados Dia, em recuperação judicial, reconheceu em suas demonstrações contábeis uma perda de R$ 166,6 milhões relacionada a um acordo firmado com o Letsbank, instituição que integrava o conglomerado do Banco Master antes de ter a liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central.

Pelo acordo assinado cerca de um mês antes da liquidação do grupo financeiro, o Dia receberia R$ 116,6 milhões referentes à cessão de crédito de um precatório do Letsbank, além de outros R$ 50 milhões que seriam pagos em dez parcelas mensais, a primeira prevista para fevereiro. No relatório referente ao mês passado, os administradores judiciais destacavam que esses recursos seriam relevantes para a operação da companhia, ao gerar fôlego de liquidez para o cumprimento de obrigações de curto prazo.

No último dia 20, o liquidante nomeado pelo Banco Central informou a conclusão do processo de consolidação e validação da relação de credores de todo o conglomerado Master, que inclui ainda o Will Bank, o Banco Master de Investimento, o Letsbank e a Master Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários.

Segundo a Expertisemais, administradora judicial do Dia, até a conclusão do relatório a gestão da companhia não havia informado os efeitos da liquidação sobre o acordo firmado com o Letsbank. Ainda assim, diante das incertezas quanto à efetiva realização do crédito, o Dia Brasil optou por reconhecer contabilmente a perda integral dos valores envolvidos. A administradora disse, no entanto, que a liquidez do ativo “ainda não é certa”, indicando a possibilidade de que o acordo venha a ser reconhecido como passivo do banco na futura lista de credores.

Nelson Tanure

O relatório mais recente não menciona os problemas financeiros enfrentados por Nelson Tanure, controlador principal da rede. Desde que foi alvo da segunda fase da operação Compliance Zero, no mês passado, Tanure perdeu participações relevantes em empresas como Light, Ligga Telecomunicações e Alliança Saúde, após credores executarem dívidas lastreadas em ações dadas em garantia.

No desempenho operacional, o grupo Dia registrou faturamento de R$ 156 milhões em dezembro, alta de 1% em relação ao mês anterior. Embora o resultado tenha ficado abaixo da meta prevista no plano de reestruturação, a companhia afirmou que o número reflete a maior venda diária média desde o início da recuperação judicial. No mesmo período, os custos das mercadorias vendidas recuaram 6%, elevando a margem bruta para 24%.

Por outro lado, a queima de caixa, apontada de forma recorrente pela administração judicial como um ponto de atenção, alcançou R$ 7,7 milhões em dezembro, um aumento de 767% em relação ao mês anterior. A gestão atribui o resultado a investimentos na operação. Para sustentar o caixa, o grupo passou a recorrer à antecipação de recebíveis, que saltou 282% no mês, de R$ 15,7 milhões para R$ 59,9 milhões.

A Expertisemais afirma que solicitou, novamente, as projeções de fluxo de caixa para os três meses seguintes, mas que as informações não foram apresentadas, o que limita o alcance da fiscalização.

Redução de custos

Em janeiro, o Dia iniciou um programa de redução de custos, com foco principalmente na logística. Entre as medidas adotadas estão a redução das entregas de frutas, legumes e verduras nas lojas e a rescisão de um contrato terceirizado de armazenamento de produtos congelados e refrigerados. Com a internalização do armazenamento de perecíveis, a companhia espera reduzir custos em cerca de R$ 1,7 milhão por mês.

A gestão também trabalha em um plano para impulsionar as vendas de lojas com desempenho abaixo do esperado, especialmente aquelas que apresentavam bons resultados quando operavam como franquias e perderam faturamento após serem convertidas em unidades próprias.

Internamente, o CEO Fabio Farina defende que o equilíbrio financeiro da rede depende da expansão do número de lojas para diluição de custos, embora não haja expectativa de novas inaugurações no curto prazo. Ao mesmo tempo, a companhia afirma que o limite de compras acordado com credores tem se tornado um entrave ao crescimento das vendas e da operação, sem solução prevista no curto prazo. Atualmente, o grupo Dia opera 239 lojas ativas no Brasil, sendo 195 próprias e 44 franquias e emprega mais de 2.600 funcionários.