A SpaceX de Elon Musk é lembrada pelos foguetes e pelos planos de colonizar Marte. Mas quem está enchendo o caixa da empresa é a Starlink — e parte desse crescimento vem de um problema bem terrestre: o Wi-Fi ruim dentro dos aviões.

A operação de internet via satélite já fechou acordos com pelo menos 30 companhias aéreas, para oferecer conexão a bordo. Passageiros reclamam há anos da instabilidade do serviço, e a Starlink tenta se posicionar como a alternativa tecnologicamente superior.

A aviação ainda representa uma fatia pequena da receita estimada de US$ 18,7 bilhões que a Starlink deve gerar neste ano. Mesmo assim, analistas apontam o segmento como o que mais cresce dentro da divisão de mobilidade da empresa. Um relatório da Quilty Space diz que o modelo também reduz custos ao permitir que as aeronaves usem cobertura que a Starlink já precisaria manter de qualquer forma.

Pressão nos rivais

A expansão pressiona rivais tradicionais. A ViaSat informou neste mês que sua carteira de aviões a serem equipados com sistemas de conectividade caiu em 360 unidades – movimento que analistas atribuem à migração de parceiros para a Starlink. A Gogo, outra concorrente, também sofreu rebaixamento de recomendação por causa da nova competição.

O “grande salto” veio quando a United Airlines fechou acordo para instalar Starlink em mais de mil aeronaves até 2027. Nos últimos dez meses, mais de 7 milhões de passageiros já voaram em aviões da companhia equipados com o sistema. Só em 2025, a Starlink instalou antenas em mais de 1.400 aeronaves comerciais e 800 jatos executivos, atendendo 21 milhões de passageiros.

Hoje, a empresa já tem contratos com ao menos 30 companhias aéreas. A mais recente é a Lufthansa, que planeja equipar cerca de 850 aviões a partir deste ano. O principal atrativo é o custo: instalar antenas de órbita baixa da Starlink custa cerca de US$ 150 mil, contra até US$ 500 mil dos sistemas tradicionais.

Além de mais barato, o serviço é mais rápido. Um estudo da Ookla apontou que a Starlink entrega maior velocidade e menor latência – o atraso entre o clique do usuário e a resposta do sistema. “É noite e dia em relação ao que existia antes”, diz Chris Quilty, da Quilty Space.

Diferencial

O Wi-Fi gratuito a bordo deixou de ser luxo e virou ferramenta de competição entre companhias aéreas. A JetBlue foi pioneira nos EUA em 2013. Hoje, American Airlines e KLM também oferecem conexão gratuita via ViaSat.

Nem todas as empresas embarcaram. Ryanair e easyJet dizem que o custo ainda não fecha a conta. O CEO da Ryanair estima que o Starlink poderia custar até US$ 250 milhões por ano, somando serviço e aumento de consumo de combustível causado pelo peso das antenas – valor contestado pela SpaceX.

Mesmo assim, a tendência parece inevitável. A Ryanair acredita que poderá oferecer Wi-Fi gratuito em até cinco anos, se o impacto no combustível for resolvido.

Apesar do crescimento rápido, a Starlink ainda cobre menos de 5% da frota comercial global de 35,5 mil aviões. Concorrentes tradicionais mantêm presença forte. A Gogo fornece conectividade para mais de 6.500 aeronaves, enquanto a ViaSat atende cerca de 6.400 e tem fila de 1.100 aviões aguardando instalação.

A disputa está só começando. A Amazon também prepara sua constelação de satélites, o Project Leo, que deve fornecer internet para a JetBlue nos próximos anos.

“Companhias aéreas não gostam de monopólios”, diz Don Buchman, chefe da divisão de aviação da ViaSat. Segundo ele, a empresa sempre se preparou para competir com novos rivais – inclusive a Starlink.

Apesar da expansão global, companhias aéreas brasileiras ainda não anunciaram a adoção do sistema. A chegada da Starlink ao mercado local pode depender de custos operacionais e de acordos comerciais com as empresas da região.