Na terça-feira (10), enquanto operadores despejavam ações de empresas de serviços financeiros diante do temor crescente de que novas ferramentas de IA ameacem modelos de negócio consolidados, Patrick Lemmens, diretor-executivo do Robeco Group e veterano com 30 anos de mercado, circulava entre reuniões na UBS Financial Services Conference, em Key Biscayne, acompanhando o caos pelos celulares e telas de computador.
Baseado em Roterdã, na Holanda, Lemmens disse que “não veio a Miami imaginando que, a cada dois dias, um novo segmento do setor financeiro estaria sendo massacrado”.
Mas foi exatamente isso que ocorreu. O movimento dá sequência a uma tendência das últimas semanas, em que o receio em relação à IA passou a contaminar praticamente todos os elos do sistema financeiro.
Esse movimento da IA ameaçando setores inteiros foi apelidado pelo mercado de “AIrmageddon”, que traduzido para o português seria algo como “IApocalipse”.
Gestoras de patrimônio, corretoras de seguros, grandes bancos, boutiques de assessoria, provedores de dados financeiros e até bolsas de valores sofreram perdas relevantes. O índice S&P 500 Financials recuou 4,8% na semana, enquanto o KBW Bank Index caiu 5,5% — para ambos, a maior queda semanal desde o estresse provocado pelas tarifas de Trump em abril passado.
O estopim de terça-feira foi uma ferramenta apresentada pela startup de tecnologia Altruist Corp., que auxilia assessores financeiros a personalizar estratégias para clientes e gerar holerites, extratos e outros documentos.
Na véspera, investidores já haviam liquidado ações de corretoras de seguros após o marketplace online Insurify lançar um aplicativo que utiliza o ChatGPT, da OpenAI, para comparar preços de seguro automotivo.
Isso veio na esteira de um novo modelo divulgado na semana anterior pela Anthropic, voltado à automação de pesquisas financeiras e serviços jurídicos — o que também desencadeou vendas expressivas nesses papéis.
Entre uma conferência e outra, participantes com pulseiras vermelhas do Bank of America e crachás brancos da UBS buscavam respostas junto a executivos tão perplexos quanto eles sobre o real significado daquele movimento.
“Você tenta voltar às reuniões e perguntar às diferentes empresas — alternativos, bancos, bancos de investimento, corretoras de seguros, gestores de patrimônio”, disse Lemmens. “Mas acaba sendo sugado por todos fazendo a mesma pergunta: qual é a sua exposição a software? O que vocês estão fazendo com IA? Qual é o risco da IA?”
“E todos acabam dando basicamente a mesma resposta: nossa exposição a software não é tão grande e nem todas as empresas vão desaparecer”, acrescentou. “Você ouve muito isso. E então olha para o mercado — e o mercado claramente tem uma opinião bem diferente.”
Com as ações em queda, executivos foram obrigados a defender suas teses quase em tempo real. A pauta original das conferências era discutir resultados sólidos e pipelines robustos de operações — até que a disrupção via IA roubou a cena.
“Acredito que a IA vai elevar a qualidade do aconselhamento e ajudar os assessores a ganhar escala, atendendo mais clientes de forma mais eficiente com o mesmo conjunto de recursos”, afirmou Jed Finn, responsável pela área de gestão de fortunas do Morgan Stanley, durante o evento da UBS. As ações do banco caíram 4,9% na semana.
O CEO do Goldman Sachs, David Solomon, abriu a conferência na terça-feira, antes de as ações de gestores de patrimônio entrarem em queda. Ele reiterou a expectativa de força na atividade de mercados de capitais e afirmou que a economia americana segue posicionada para um crescimento robusto neste ano. Seus comentários sobre IA concentraram-se na queda das ações de software, que, em sua avaliação, teria sido exagerada.
Um aspecto curioso das liquidações é que, embora essas ferramentas de IA possam pressionar o emprego no setor financeiro, elas tendem, em tese, a melhorar lucros e margens das instituições.
O analista de seguros da UBS, Brian Meredith, por exemplo, iniciou o ano projetando que a IA aumentaria a produtividade dos corretores. No auge da turbulência, ele transitava entre reuniões enquanto atendia ligações de empresas tentando entender o que estava acontecendo.
“Eu não teria previsto o que aconteceu”, disse. “Na verdade, estou até mais construtivo com as corretoras de seguros para 2026.”
E não eram apenas os executivos que tentavam se aquecer na Flórida que estavam sendo bombardeados por questionamentos.
Devin Ryan, analista da Citizens, estava em seu escritório em Manhattan em uma teleconferência, com a caixa de entrada lotada e “uma enxurrada de e-mails chegando, e todos os canais possíveis explodindo”.
“Eu trocava e-mails, mensagens no Teams e chats no Bloomberg, e o telefone não parava de tocar”, relatou. A reação dos investidores, segundo ele, “mostra que tudo está em estado de fragilidade elevada quando surgem manchetes sobre IA”.
Ainda assim, muitos profissionais de Wall Street alertam que parte das vendas pode refletir uma reação automática e exagerada, superestimando o risco efetivo associado às diferentes aplicações da IA.
“Podem me chamar de cético”, afirmou Stephen Biggar, diretor de pesquisa em serviços financeiros da Argus Research. “O mercado reage a esses anúncios, mas o caso de uso costuma ser bem diferente do que se imagina.”
A guinada de percepção — de ferramenta de crescimento para potencial destruidora de setores inteiros — começou no fim do ano passado. A indústria de software, em particular, passou a conviver com temores sobre o que está por vir. Um índice que acompanha ações de software atingiu pico em 22 de setembro e acumula queda de 30% desde então, enquanto o S&P 500 sobe 2,1% no mesmo período.
Houve uma mudança de foco: “de olhar pela lente do que a IA pode fazer por esse negócio para levá-lo a outro patamar, para questionar se há risco de que essas empresas simplesmente não existam daqui a três ou quatro anos”, disse Ken Barry, chefe de private equity europeu do escritório White & Case.
Para ele, no entanto, os investidores precisarão começar a separar as companhias realmente vulneráveis daquelas que devem atravessar a turbulência sem danos estruturais.
“A reação foi indiscriminada e, francamente, precisa ser muito mais seletiva”, afirmou. “Há uma sensação de que os mercados públicos deixaram de ser um parâmetro confiável para alguns desses ativos, porque estão reagindo de forma excessivamente volátil às notícias que surgem.”