O Banco Central Europeu (BCE) decidiu agir de maneira mais incisiva para consolidar o euro como moeda de reserva alternativa ao dólar.

A instituição vai ampliar o acesso global à liquidez em euros, em uma iniciativa que busca fortalecer o papel internacional da moeda única.

Autoridades europeias veem na instabilidade da posição geopolítica americana, causada pelo presidente dos EUA, Donal Trump, uma oportunidade para desafiar a hegemonia histórica do dólar e impulsionar o uso internacional do euro.

Em comunicado divulgado no sábado (14), o BCE informou que estenderá suas linhas de recompra (repo lines) a “todos os bancos centrais, salvo exclusões por motivos como lavagem de dinheiro, financiamento ao terrorismo ou sanções internacionais”. As mudanças entram em vigor a partir do terceiro trimestre.

A medida vai permitir que bancos centrais fora da zona do euro possam usar essa linha de liquidez em momentos de tensão e falta de liquidez nos mercados.

A proposta é tornar a ferramenta mais flexível, ampliar seu alcance geográfico e reforçar sua relevância para investidores globais.

A decisão faz parte de um movimento mais amplo da Europa para redefinir seu espaço na ordem global, em meio às turbulências provocadas pela política externa e econômica dos Estados Unidos sob Trump.

Moeda de reserva global

No ano passado, a presidente do BCE, Christine Lagarde, já havia destacado que linhas de swap e de recompra — instrumentos que garantem a transmissão adequada da política monetária — fazem parte das responsabilidades associadas a uma moeda de reserva global.

Mais recentemente, Lagarde afirmou que o BCE vinha reformulando seu sistema de provisão de liquidez para ampliar o acesso e tornar as linhas de recompra mais atraentes a bancos centrais fora da zona do euro e da própria Europa.

Durante discurso na Conferência de Segurança de Munique, no sábado, Lagarde ressaltou: “precisamos dar aos parceiros que desejam transacionar em euros a confiança de que a liquidez estará disponível quando necessário”.

Largade destacou ainda que o novo modelo reforça a permanência, o alcance e a agilidade do instrumento — e, consequentemente, o papel internacional do euro.

Ela acrescentou que a existência de um “emprestador de última instância” para bancos centrais ao redor do mundo amplia a confiança para investir, tomar crédito e negociar em euros, mesmo em momentos de turbulência.

Recursos sem restrições de uso

Com a reformulação da chamada EUREP (Eurosystem repo facility for central banks), não haverá mais restrições prévias sobre como os recursos poderão ser utilizados pelos bancos centrais fora da zona do euro.

O BCE também deixará de divulgar quais bancos centrais utilizaram as linhas de recompra. Em vez disso, passará a informar apenas o volume agregado semanal de liquidez concedida em euros.

As linhas de recompra permitem acesso a euros por prazos determinados, mediante a entrega de ativos financeiros denominados na moeda europeia como garantia. Diferem das linhas de swap, nas quais o BCE troca moedas com grandes bancos centrais parceiros, como o Federal Reserve, o Banco da Inglaterra e o Banco do Japão.

A EUREP foi criada durante a pandemia de Covid-19. Atualmente, o BCE mantém linhas de recompra com os bancos centrais da Romênia, Hungria, Albânia, Andorra, Macedônia do Norte, San Marino, Montenegro e Kosovo.

O presidente do banco central da África do Sul, Lesetja Kganyago, já sinalizou interesse em utilizar as novas linhas do BCE, caso estejam disponíveis, citando o volume expressivo de comércio e investimento entre o país e a Europa.