Autoridades brasileiras estão buscando obras de arte, imóveis de luxo e outros bens na Flórida ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro e ao seu falido Banco Master, numa tentativa de recuperar fundos após o que pode ser a maior fraude bancária da história do país.

O liquidante do Banco Master, agindo em nome do Banco Central, protocolou uma ação no tribunal federal de falências em Miami, no dia 29 de janeiro, para intimar 22 entidades. Entre elas, estão corretores de imóveis, um banco próximo a Orlando, importantes galerias de arte como Gagosian e Pace, e as casas de leilão Sotheby’s e Christie’s. 

As autoridades estão buscando informações sobre bens ligados a Vorcaro, seus sócios e algumas entidades do Master. Isso inclui uma mansão de 2.200 metros quadrados (24.000 pés quadrados) a oeste de Orlando, adquirida pelo pai de Vorcaro pela bagatela de US$ 32 milhões.

Um juiz federal aprovou o pedido de falência nos EUA em meados de dezembro, enquanto a liquidação tramitava no sistema judiciário brasileiro. Os advogados americanos de Vorcaro, acionista controlador e ex-presidente do Banco Master, apresentaram uma objeção às intimações em 9 de fevereiro, argumentando que o liquidante não tinha o direito de buscar seus bens pessoais, pois é o banco, e não ele, quem deve prestar contas aos credores e depositantes. O juiz realizará uma audiência em 4 de março. 

A disputa judicial em Miami oferece um vislumbre do estilo de vida notoriamente luxuoso de Vorcaro. As intimações sugerem que ele era mecenas de galerias de arte de elite como Gagosian e Pace, que incluem Jeff Koons, Pablo Picasso, Andy Warhol, Mark Rothko e David Hockney em seus catálogos de artistas representados. Embora os registros imobiliários não mostrem que o próprio Vorcaro possuía imóveis em Miami, o The Real Deal noticiou que ele comprou casas à beira-mar por meio de uma LLC (empresa de responsabilidade limitada).

A Galeria Gagosian e a Sotheby’s não responderam aos pedidos de comentários. A Christie’s e a Galeria Pace recusaram-se a comentar. Os advogados americanos do liquidatário do Banco Master também se recusaram a comentar. 

Vorcaro negou qualquer irregularidade e afirmou estar cooperando com a polícia. Ele se recusou a comentar para esta reportagem.

A batalha judicial da falência também pode lançar luz sobre as ambições internacionais do banqueiro, que incluíam um plano para expandir seus negócios para os EUA. 

Em poucos anos, Vorcaro transformou o Banco Master de um pequeno banco em um dos 20 maiores bancos do Brasil em ativos, atraindo investidores de varejo com taxas acima da média do mercado para depósitos segurados. Ele também alcançou os escalões superiores da elite financeira e política brasileira, cultivando laços estreitos com líderes empresariais, ministros do Supremo Tribunal Federal, parlamentares e pessoas próximas ao presidente do país.

A ascensão do banco foi interrompida em meados de novembro, quando a Polícia Federal brasileira prendeu Vorcaro e quatro associados sob a acusação de que o Banco Master estava envolvido em uma fraude bilionária. Horas depois, o Banco Central iniciou a liquidação do banco, e autoridades afirmam que o impacto no sistema de seguro de depósitos do país pode chegar a US$ 10 bilhões.

Nesta quarta-feira (18), o Banco Central informou a liquidação de duas instituições financeiras ligadas ao Banco Master, em meio à contínua disseminação do colapso por todo o sistema financeiro. 

Vorcaro era conhecido por sua predileção por ternos italianos sob medida, imóveis de luxo e festas extravagantes. Quando a polícia o prendeu em São Paulo, apreendeu milhões de dólares em obras de arte, relógios e joias — e um jato avaliado em US$ 38 milhões.

Os liquidadores do banco também planejam investigar empresas criadas pelos principais colaboradores de Vorcaro em Miami para oferecer serviços que vão desde gestão de ativos até empréstimos para folha de pagamento, de acordo com pessoas familiarizadas com o caso, que pediram para não serem identificadas por se tratar de um processo confidencial.    

Embora as fontes não tenham mencionado os alvos potenciais, o negócio mais proeminente criado pelos executivos do Banco Master parece ser a Salarly, uma empresa de empréstimos de curto prazo com sede em um escritório no distrito financeiro de Brickell, de acordo com documentos corporativos analisados ​​pela Bloomberg. Ela possui licença para operar na Flórida, Texas, Missouri e Utah.

As origens da Salarly remontam à CredCesta, uma empresa brasileira de empréstimos consignados anteriormente pertencente ao Banco Master. Executivos do banco foram fundamentais na criação da CredCesta USA em Miami, em 2023, antes de sua reformulação da marca no final de 2024. 

Não existem relatórios públicos que revelem quantos empréstimos a Salarly concedeu ou a dimensão de seus negócios. No entanto, documentos apresentados aos órgãos reguladores da Flórida 18 meses antes das acusações de fraude virem a público descrevem planos para investir US$ 20 milhões ao longo de cinco anos para recrutar pessoal de vendas, contratar lobistas e cobrir custos de marketing. O investimento seria financiado inicialmente por aportes de capital do Banco Master, no Brasil, conforme mostram os documentos. 

Salarly disse aos reguladores da Flórida que a Salarly não era propriedade do Banco Master, mas que o banco possuía uma nota conversível de sua controladora. Não ofereceu mais detalhes.

O chefe de conformidade de Salarly recusou-se a comentar.