O CEO Philipp Navratil afirmou que a reestruturação da companhia, cujo desempenho vinha ficando atrás do esperado há anos, está no caminho certo, ao projetar crescimento de vendas e lucros e revelar planos de reorganização do grupo centenário. As ações da Nestlé registraram a maior alta em quatro meses.
“Nossas ações estão começando a dar resultado e as tendências de crescimento estão melhorando”, disse Navratil a analistas. “Temos uma estratégia clara com prioridades.”
A fabricante do café Nespresso e da ração Purina projetou nesta quinta-feira crescimento orgânico de receita entre 3% e 4% em 2026, acima da estimativa média de 3,2% apontada por analistas consultados pela Bloomberg. A empresa também afirmou que o crescimento interno real — indicador acompanhado de perto por medir volumes vai acelerar em 2026.
Navratil assumiu o comando em setembro, após a saída de seu antecessor por conta de um relacionamento não divulgado no ambiente de trabalho. Desde então, anunciou o corte de 16 mil empregos, cerca de 6% da força de trabalho global, além da reorganização da empresa em quatro divisões principais e da gestão do recall de fórmula infantil.
A Nestlé informou estar adiantada no plano de redução de custos e já ter alcançado cerca de 20% das economias previstas.
Venda de sorvetes
Parte central da estratégia também envolve a venda ou segregação de marcas e negócios considerados não essenciais. Navratil confirmou que a Nestlé está em negociações avançadas para vender sua operação remanescente de sorvetes, que inclui marcas como D’Onofrio, Real Dairy, Parlour e Lafrutta, para a Froneri, joint venture com a PAI Partners. Entre essas marcas, apenas a Lafrutta é comercializada no Brasil. A estrutura societária da própria joint venture permanecerá inalterada, disse ele.
A potencial venda ajudaria a enxugar ainda mais o portfólio da Nestlé, dando continuidade a uma retirada gradual de negócios de crescimento mais lento e intensivos em capital, enquanto a gestão reforça o foco em café e produtos para animais de estimação.
As ações da Nestlé subiram até 4,5% no início do pregão. O papel, que vinha ficando atrás da rival Unilever nos últimos meses, acumula alta de cerca de 2,1% no ano.
Navratil disse que a empresa agiu rapidamente para lidar com o maior recall de sua história após ingredientes contaminados forçarem a retirada de fórmulas infantis em mais de 60 países.
“Não perdemos tempo e decidimos fazer o recall imediatamente. Ficamos surpresos que outros tenham demorado mais para agir”, afirmou. “Um recall nunca é algo que você quer fazer mas, se for necessário, precisa ser rápido.”
Outros produtores, como Danone e Lactalis Group, também foram afetados pelo mesmo problema na cadeia de suprimentos, inicialmente identificado pela Nestlé.
O custo estimado com devoluções e baixas de estoque relacionadas ao recall foi de 75 milhões de francos suíços (US$ 97 milhões) em 2025, informou a diretora financeira Anna Manz. Os próximos resultados refletirão um impacto pontual decorrente de devoluções e falta de estoque, enquanto eventuais efeitos financeiros adicionais ainda são incertos.
Navratil e o presidente do conselho, Pablo Isla, ambos no cargo há menos de seis meses, enfrentam pressão de investidores por uma reviravolta. Navratil é o terceiro CEO da empresa sediada em Vevey em dois anos, algo incomum para a companhia. Desde que assumiu, a Nestlé revisou incentivos, metas e estruturas de remuneração para “estimular uma cultura de desempenho”, disse ele.
Isla, primeiro presidente do conselho vindo de fora da empresa, anunciou nesta semana mudanças no board para estabilizar a Nestlé após a crise de governança do ano passado. A companhia indicou o ex-presidente do Banco Nacional Suíço Thomas Jordan e a executiva da Procter & Gamble Fatima Francisco para reforçar a supervisão e aprimorar a tomada de decisões