Brasil e Índia devem fortalecer a cooperação em minerais críticos e inteligência artificial com o encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro Narendra Modi, já que os dois países se posicionam como vozes de destaque do mundo em desenvolvimento em meio a uma ordem global frágil.

Lula terá reunião bilateral com Modi no sábado, depois de participar da cúpula de inteligência artificial na Índia. Ele chegou ao país na quarta-feira para uma visita de três dias, a quarta como presidente.

Um acordo de cooperação em minerais críticos e terras raras é provável após as negociações entre os líderes em Nova Deli, segundo altos funcionários indianos diretamente envolvidos, que pediram anonimato porque as conversas são privadas. O Brasil, que abriga a segunda maior reserva de minerais críticos do mundo, também defende um debate global mais inclusivo sobre IA, de acordo com uma pessoa com conhecimento do assunto.

O ministério das Relações Exteriores da Índia não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.

A visita de Lula ocorre em um momento em que economias emergentes buscam maior influência sobre as tecnologias e cadeias de suprimento que estão remodelando a ordem global. Conforme a competição entre EUA e China se intensifica em torno de inteligência artificial e minerais críticos, uma cooperação mais estreita entre países como Brasil e Índia pode fortalecer o peso coletivo das nações em desenvolvimento na definição de como a tecnologia será desenvolvida e regulada.

Nova Deli e Brasília buscam reforçar os laços depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, impor tarifas de 50% a ambos os países. Modi visitou o Brasil em julho, quando os dois concordaram em trabalhar de forma estreita em defesa, energia e segurança alimentar, além de reduzir “barreiras não tarifárias” para ampliar o comércio, segundo comunicado conjunto divulgado na ocasião.

Lula está acompanhado de ministros e de diversos líderes empresariais que participarão de um fórum de negócios, refletindo o crescimento das trocas comerciais e dos investimentos entre os dois países, disse o Ministério das Relações Exteriores da Índia.

Os dois líderes também se reuniram à margem da cúpula do G-20 em Joanesburgo, em novembro, como parte do agrupamento trilateral Índia-Brasil-África do Sul — o chamado fórum IBSA — retomado após um hiato de uma década.

Minerais críticos

Ambas as nações querem avançar no processamento de minerais críticos, em vez de permanecer apenas como fornecedoras de matérias-primas. A China atualmente domina tanto a extração quanto o processamento, enquanto países como os EUA correm para assegurar fontes e parcerias alternativas.

As decisões devem influenciar a forma como economias emergentes coordenam o processamento de terras raras e a regulação da IA em fóruns multilaterais como o G-20 e o bloco dos BRICS, dos quais ambos fazem parte, com o objetivo de evitar a concentração de recursos em poucas capitais.

Brasil e Índia defendem modelos de inteligência artificial centrados nas pessoas, de código aberto e multilíngues. Modi tem utilizado a cúpula de IA em Nova Deli para destacar a vasta população familiarizada com tecnologia e o amplo talento em engenharia do país como evidências de que a Índia pode oferecer uma alternativa aos modelos de IA moldados por grandes empresas globais de tecnologia, uma percepção compartilhada pelo líder brasileiro.

“Projetar e desenvolver na Índia. Entregar ao mundo, entregar à humanidade”, afirmou Modi em seu discurso principal na cúpula de IA em Nova Deli, na quinta-feira (19).

O objetivo do Brasil é evitar um tipo de divisão geopolítica semelhante à que emergiu em torno da energia nuclear, na qual apenas um grupo restrito de nações foi autorizado a utilizar a tecnologia, segundo uma autoridade com conhecimento da situação. O país defenderá a democratização do acesso, ao mesmo tempo em que buscará fortalecer salvaguardas contra desinformação, viés algorítmico e manipulação digital, disseram autoridades do Ministério das Relações Exteriores antes da visita.

O Brasil emergiu como um polo regional para investimentos relacionados à IA, garantindo um compromisso de US$ 38 bilhões do TikTok, da ByteDance, para construir um complexo massivo de data centers no fim do ano passado. A Elea Data Centers, empresa apoiada pelo Goldman Sachs, também planeja um projeto de US$ 50 bilhões no Rio de Janeiro, e o Congresso avalia atualmente uma legislação voltada a atrair ainda mais investimentos para data centers.

Lula, por sua vez, tem defendido uma abordagem global para a IA que inclua vozes de países em desenvolvimento como o Brasil, argumentando que superpotências globais não deveriam deter controle exclusivo sobre a tecnologia ou sobre as regras que a regem.

“O regime de governança dessas tecnologias definirá quem participa, quem é explorado e quem ficará à margem desse processo”, disse Lula em discurso na cúpula de IA. “Colocar o ser humano no centro das nossas decisões é tarefa urgente.”

Nos últimos anos, o Brasil adotou uma postura mais assertiva na regulação de tecnologia, em um esforço para conter a disseminação de desinformação, frequentemente entrando em choque com grandes plataformas, como a rede social X, de Elon Musk, com sede nos EUA.

“Quando poucos controlam os algoritmos e as infraestruturas digitais, não estamos falando de inovação, mas de dominação”, afirmou o líder brasileiro. “A regulamentação das chamadas Big Techs está ligada ao imperativo de salvaguardar os direitos humanos na esfera digital, promover a integridade da informação e proteger as indústrias criativas de nossos países.”

A Índia exerce a presidência rotativa dos BRICS e sediará os líderes do bloco no fim do ano.