O crescimento de 8,6% no volume geral de crédito concedido por instituições financeiras no ano passado escondeu uma diferença importante entre o que aconteceu com os empréstimos dados a empresas e aqueles concedidos a pessoas físicas. Para as empresas, o crédito cresceu apenas 2,3% (9,5% em 2024) e para as pessoas, 13,2% (12,6% em 2024). Os dados levam em conta o crédito com recursos livres, ou seja, aqueles que não têm um uso carimbado, como é o caso do agrícola e do imobiliário.
No quarto episódio do videocast Perspectivas, parceria entre o InvestNews e o Nubank, o ex-presidente do Banco Central e hoje vice-chairman do Nubank, Roberto Campos Neto, explica as razões que levaram a esse crescimento mais forte do crédito às pessoas físicas: crescimento da economia acima do esperado, desemprego baixo e um resquício da recuperação cíclica pós-pandemia.
“Temos agora também a isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil, que deve aumentar um pouco a disposição a gastar”, diz o executivo, que é também chefe global de políticas públicas e economista-chefe do Nubank. Segundo ele, mesmo com o crescimento, o crédito está em patamar aparentemente saudável. Mas há uma pequena discrepância entre o endividamento das famílias e a disposição a tomar crédito que vale observar.
Hoje, quase 50% das famílias têm compromissos a pagar com bancos e instituições financeiras, segundo o Banco Central. Os dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC), que incluem também dívidas com lojas, apontam para um endividamento de 78,9% das famílias.
“Eu diria que é um sinal amarelo. Quando há um maior endividamento das famílias, geralmente há uma menor disposição a tomar crédito. Nos últimos tempos, isso se descolou um pouco”, afirma Roberto Campos Neto.
No videocast, o vice-chairman do Nubank explica as razões que levam a esse aparente descolamento e já joga água na fervura: não há razão para se alarmar. “Os bancos estão com balanços muito sólidos, os números de desemprego estão baixos e a economia tem apresentado uma resiliência acima do esperado.”
Maior acesso ao crédito
Não foi só a demanda por crédito por parte das pessoas físicas que esteve mais aquecida nos últimos tempos. A oferta de financiamentos também cresceu, em parte porque fintechs e instituições financeiras digitais, como o Nubank, contribuíram para ampliar o acesso das famílias ao crédito.
“O Nubank é uma das únicas instituições brasileiras que faz esse crédito massificado e que tem lucratividade”, diz o vice-chairman. Isso se explica por três fatores:
- o DNA digital, com custos mais baixos do que os dos bancos tradicionais;
- a concessão de crédito com responsabilidade, ancorada em modelos avançados, com uso intenso de dados e tecnologia;
- a cereja do bolo: escala. O Nubank tem 112 milhões de clientes no Brasil e é líder em consentimentos do Open Finance (autorização para que o Nu receba dados de outras instituições). Com isso, tem acesso ao maior banco de dados entre as instituições financeiras privadas do país, para alimentar seus modelos preditivos.
Portabilidade de crédito no Open Finance
Para quem toma crédito, a maior competição ampliou as opções e baixou o spread (veja o mais recente estudo do Fundo Monetário Internacional – FMI, em inglês). E a evolução do Open Finance tem potencial para uma redução ainda maior.
Agora, neste mês de fevereiro, entrou em vigor a portabilidade digital do crédito pessoal via Open Finance. A portabilidade de crédito via Open Finance já era possível, mas muito complicada e demorada. Levava até 25 dias – e ainda assim já resultou em queda de 16% no spread de empréstimos transferidos de uma instituição para outra, segundo dados da Associação Open Finance.
Com a portabilidade digital, a comparação entre as taxas cobradas fica mais fácil e o prazo para a troca cai para três dias. Na primeira etapa do Open Finance, segundo Campos Neto, o foco foi na qualidade dos dados. “Agora vamos para a segunda etapa, a de migração dos produtos. O crédito vai ser mais barato, mais digital e instantâneo.”
A se julgar pelo que já acontece com o cheque especial, o potencial de economia para as pessoas é promissor. No Nubank, quando um cliente dá consentimento, a instituição envia um alerta caso ele entre no cheque especial em outro banco. Estima-se que esse alerta tenha gerado para os clientes do Nu que ativaram a função uma economia de cerca de R$ 20 milhões e uma redução em três dias do tempo em que ele fica no vermelho.
A entrevista completa de Roberto Campos Neto, com informações adicionais sobre crédito consignado e o que mais vem por aí nessa área está disponível no YouTube e no Spotify.