O prejuízo anual diminuiu para R$ 824 milhões em 2025, bem abaixo da perda de R$ 2,41 bilhões do ano anterior, mas a “crise de liquidez”, como a empresa reconhece, segue sendo a principal preocupação.
Em sua divulgação de resultados, a empresa dona do Pão de Açúcar e do Extra afirmou que há “incerteza relevante” capaz de levantar “dúvida significativa sobre a continuidade operacional”. O alerta também aparece no relatório da auditoria Deloitte Touche Tohmatsu, que, ainda assim, aprovou o balanço sem ressalvas.
No fim de 2025, o GPA tinha capital circulante líquido negativo de cerca de R$ 1,22 bilhão, puxado principalmente pelos empréstimos e debêntures com vencimento neste ano, que somam R$ 1,7 bilhão – cerca de R$ 500 milhões seriam já em março, segundo pessoas familiarizadas com o negócio ouvidas pelo InvestNews.
A empresa reconhece que, apesar de melhora em indicadores operacionais e de geração recorrente positiva de caixa operacional, segue com prejuízo — o que alimenta as dúvidas sobre a continuidade.
A analistas na manhã desta quarta-feira (25), Alexandre Santoro, que assumiu o comando no início de janeiro, tentou enquadrar o problema e a resposta da gestão em três prioridades: “geração de caixa operacional, disciplina financeira e aprimoramento da experiência do nosso cliente”. Antes do GPA, Santoro comandou a IMC, dos restaurantes Frango Assado, Viena e Pizza Hut.
“Uma companhia com a operação, a marca e a posição de mercado que o GPA possui não pode permanecer anos sem gerar caixa”, disse Santoro. O GPA é o quinto maior grupo de supermercados do país e fechou 2025 com R$ 20,6 bilhões de faturamento.
Na prática, o plano combina ganho de eficiência no dia a dia com ganho de tempo no balanço, renegociando prazos e reduzindo gastos financeiros. Santoro afirmou que vai ampliar o escopo do plano de eficiência anunciado no fim de 2025, criou “um comitê específico para aprovação e priorização de despesas e investimentos” e colocou contratos sob revisão — de serviços a tecnologia e aluguéis — “sempre cancelando, reduzindo ou alterando escopos”.
Um exemplo citado foi a decisão de descontinuar o Programa Aliados, voltado ao B2B. Segundo o CEO, era um programa que “sim trazia vendas”, mas “na última linha não dava resultado”. O diretor de relações com investidores Rodrigo Manso, diz que a rentabilidade era “próxima de zero”, com muita volatilidade e pouco controle sobre as margens.
O trimestre trouxe sinais positivos na operação, ainda que insuficientes para mudar o diagnóstico de caixa. As vendas nas mesmas lojas cresceram 2,7%, com alta em todos os formatos. O Pão de Açúcar avançou 1,8% e o Extra Mercado, 4%.
No digital, o grupo chegou perto de R$ 700 milhões em vendas, alta de cerca de 7% em relação ao mesmo período do ano anterior. Do lado da rentabilidade, Manso disse que a margem bruta foi a 27,7%, 0,5 ponto acima do ano anterior, sustentada por maior eficiência comercial e operacional, com destaque para redução de quebras e avanço de retail media, e que a margem EBITDA ajustada chegou a 10%.
Mesmo assim, o prejuízo das atividades continuadas no quarto trimestre foi de R$ 523 milhões. A empresa explicou que o número foi inflado por um efeito contábil sem impacto direto no caixa, ligado à venda da participação na FIC, a parceria financeira com o Itaú. Sem esse efeito, o prejuízo teria sido de R$ 175 milhões.
Peso da dívida do GPA
O que continua pesando é o custo financeiro: o resultado financeiro líquido foi negativo em R$ 920 milhões no trimestre, pressionado por renovações e emissões de seguros garantia associados a temas tributários, pelo custo da dívida com a Selic alta e por um caixa médio menor.
A empresa também está apertando o cinto nos investimentos. Manso afirmou que o GPA investiu R$ 612 milhões nos últimos 12 meses, já com um ponto de inflexão no fim de 2025, e que o orçamento de capex para 2026 ficará entre R$ 300 milhões e R$ 350 milhões, reduzindo expansão, reformas e tecnologia e preservando o mínimo necessário para sustentar a operação e a experiência do cliente.
Ao mesmo tempo, o CFO disse que o plano de eficiência de 2026 prevê cortar ao menos R$ 415 milhões da base de despesas operacionais, com capturas já a partir do primeiro trimestre.
No balanço, a alavancagem aumentou. O GPA fechou 2025 com dívida líquida/EBITDA em 2,4 vezes, acima de 1,6 vez um ano antes, e dívida líquida de R$ 2,08 bilhões, contra R$ 1,39 bilhão em 2024.
Na teleconferência, Santoro reconheceu que a renegociação das dívidas é prioridade e disse que a empresa está no meio das conversas com credores, seguindo os ritos de governança. “O alongamento das dívidas faz parte dessa agenda”, afirmou, mencionando também passivos tributários e trabalhistas como partes relevantes da equação.
A companhia ainda apontou possíveis alívios: a venda da FIC pode gerar cerca de R$ 260 milhões após o fechamento da operação e o GPA negocia um novo contrato para serviços financeiros nos balcões, com potencial de valor no curto prazo e de receita recorrente.