O lendário investidor Warren Buffett é conhecido por recomendar que nunca se aposte contra os Estados Unidos – um conselho que, a considerar o noticiário político e econômico internacional, poderia soar um tanto arriscado em 2025.
No ano passado, o presidente Donald Trump deflagrou uma violenta guerra tarifária, os investidores desconfiaram da saúde das empresas de inteligência artificial e os EUA viveram o maior shutdown da história, com a paralisação de uma série de serviços públicos por 43 dias devido à demora na aprovação do orçamento do país.
Apesar da alta volatilidade da economia, o período ainda assim foi marcado por recordes no S&P 500, principal índice acionário dos Estados Unidos. Impulsionado pela expectativa de queda dos juros no país, após terem atingido patamares recordes em 2024, o S&P 500 renovou suas máximas históricas nada menos do que 39 vezes ao longo de 2025.
Muitos investidores brasileiros viram o índice bater recordes de longe, apenas pelas notícias na tela do celular. Mas poderiam ter participado do movimento de dentro se tivessem parte dos seus recursos alocados no exterior.
“Quando começa a investir globalmente, você amplia seu leque de opções, torna sua carteira mais eficiente e fica menos dependente do desempenho dos ativos brasileiros, onde grande parte dos recursos da maioria de nós já está alocada”, diz Cristiano Castro, Diretor de Desenvolvimento de Negócios da unidade brasileira da BlackRock, uma das maiores gestoras de fundos do mundo.
Como investir no exterior?
Existem diversas maneiras de investir no exterior, das mais simples às mais complexas. Alguns fundos tradicionais, como certas classes de multimercados, possuem parte do patrimônio aplicada lá fora e são uma das alternativas para ter exposição internacional. Também é possível abrir uma conta em uma corretora ou um banco estrangeiro para negociar diretamente nas bolsas de valores.
Mas uma das formas mais simples e baratas de fazer esse movimento é investir em ETFs, os Exchange Traded Funds, ou fundos de índices listados em bolsa.
Os ETFs replicam a composição de diversos índices de ações e outros ativos, dos mais amplos e conhecidos aos mais específicos. Quem investe neles recebe uma espécie de “cesta” de papéis reunidos em um pacote. As cotas dos ETFs são negociadas no pregão da B3, assim como uma ação da Vale ou da Petrobras, por exemplo.
Potenciais vantagens de investir com ETF
Em comparação com as outras formas de investir no exterior, os ETFs podem apresentar pelo menos quatro grandes potenciais vantagens:
1. É um investimento simples
Quem já tem conta em corretora para comprar ações na B3 não precisa abrir uma nova, nem realizar processos adicionais.
2. É um investimento diversificado
Existem cerca de 60 ETFs de renda variável internacional listados no Brasil. Fora os de índices amplos, há também os de índices segmentados, como fundos só com ações de tecnologia ou só de ações de empresas argentinas.
3. É um investimento que apresenta potenciais vantagens tributárias
Quem compra um ETF é tributado como quem compra uma ação, com Imposto de Renda de 15% sobre o lucro nas operações normais e de 20% em caso de day trade. Nos fundos multimercado tradicionais, o imposto começa em 22,5% e só chega a 15% depois de dois anos de investimento. Fora o famoso “come-cotas”, cobrança semestral de IR que há nos fundos, mas não existe nos ETFs.
Investindo no S&P 500 por meio de ETFs
Só na bolsa brasileira, existem quase 60 ETFs de renda variável internacional disponíveis para compra. E o que reúne o maior número de investidores é justamente um fundo que replica a carteira do S&P 500.
Conhecido pelo seu código de negociação, o IVVB11 (ou IShares S&P 500) foi criado há onze anos e hoje tem cerca de 220 mil investidores, o que representa quase um quarto de todos os investidores de ETFs no Brasil, segundo dados dos boletins mensais de ETFs divulgados pela B3.
“O S&P 500 reúne as 500 principais ações de empresas listadas no mercado americano. O índice reflete essencialmente a economia dos Estados Unidos, mas não apenas ela, já que várias das empresas são nascidas em outras geografias, mas optaram por se listar nas bolsas americanas”, explica Castro, da BlackRock.
Esse conjunto de empresas reúne representantes de vários setores. “Há empresas de tecnologia, como Alphabet, Amazon ou Netflix, mas também da indústria farmacêutica, como a Novo Nordisk, da aviação, da logística, bancos, entre outros”, diz o executivo. “A grande vantagem é ter exposição, com um único instrumento, a uma carteira de 500 ações que exigiria gastar muito mais se compradas individualmente”.
E a rentabilidade?
Apesar de serem investimentos simples de fazer, os fundos de índices não são investimentos menos eficientes ou rentáveis. Pelo contrário: enquanto determinados ETFs asseguram um retorno igual ao do S&P 500 (ou muito perto disso), a maior parte dos fundos tradicionais que têm como objetivo superar o desempenho do mesmo índice falham nessa missão.
Tal fato foi demonstrado pela própria S&P Dow Jones Indices, empresa que mantém o principal índice do mercado americano. De acordo com o Spiva Scorecard, estudo realizado todos os anos desde 2002, cerca de 65% dos fundos de ações de grandes empresas nos EUA tiveram retorno abaixo do S&P 500 em 2024. Naquele ano, o índice subiu 25%.
Comparando a rentabilidade acumulada em períodos mais longos, o resultado é ainda pior: 90% dos fundos analisados perderam para o S&P 500 em intervalos de 15 e 20 anos, segundo o Spiva Scorecard.
Isso ajuda a entender porque cada vez mais brasileiros escolhem os ETFs como forma de investir no exterior. O número de investidores que compram ETFs de renda variável internacional já passa de 500 mil. Fazendo isso, em alguma medida essas pessoas:
- Reduzem a dependência do cenário doméstico;
- Passam a ter exposição a uma moeda forte, como o dólar, ampliando proteção e poder de diversificação;
- Têm acesso a mercados mais líquidos, inovadores e variados.
Muitos estudos já demonstraram que a correlação entre ativos internacionais e brasileiros é baixa. Isso pode significar que, quando um mercado está fraco, o outro pode estar se saindo melhor, suavizando oscilações e melhorando a eficiência da carteira.
