Dono do Pão Açúcar e do Extra, o GPA está em uma corrida contra o tempo. Tem pouco menos de três meses para resolver a primeira parte do desafio de lidar com sua dívida bilionária. Em meados de maio, vencem cerca de R$ 450 milhões em passivos detidos pelo Itaú. Mas a empresa não tem caixa suficiente e o que gera de recursos com a operação é consumido justamente pelas despesas financeiras.

O novo CEO do GPA, Alexandre Santoro, que assumiu em janeiro, começou a executar um plano agressivo de revisão de despesas, que sinaliza ao mercado que a visão é que não há uma “bala de prata” que possa resolver a situação financeira delicada no curto prazo.

Alexandre Santoro foi CEO da IMC por quase cinco anos
Alexandre Santoro foi CEO da IMC por quase cinco anos (foto: reprodução/Alexandre Santoro)

Parte do passivo de R$ 450 milhões está praticamente resolvido: o prazo é próximo à data em que a companhia receberá o pagamento de R$ 260 milhões pela venda de sua participação na FIC, a parceria financeira que mantinha justamente com o maior banco do país. “A situação é apertada, mas não é crítica”, defende uma pessoa familiarizada com o negócio ouvida pelo InvestNews.

Por outro lado, esse aperto financeiro é significativo a ponto de o documento com o resultado do quarto trimestre da companhia trazer o alerta de que há “incerteza relevante” capaz de levantar “dúvida significativa sobre a continuidade operacional”. O GPA soma R$ 4 bilhões em dívida bruta, montante que equivale a quase três vezes seu valor de mercado, de R$ 1,5 bilhão.

O tamanho da crise se reflete no desempenho das ações do grupo na Bolsa. Na quarta-feira (25), sob impacto dos números do quarto trimestre, caíram -2,24%. O declínio não vem de agora: no acumulado deste ano, caem quase 23%.

Entre analistas e gestores, cresce a percepção de que a companhia precisa de uma injeção de capital para conseguir tirar a “corda do pescoço”: algo entre R$ 500 milhões e R$ 700 milhões. Por essa razão, se acendeu o sinal amarelo para o risco de diluição dos acionistas.

No conselho de administração, um possível aporte não é consenso.

Atualmente, a família mineira Coelho Diniz aparece como maior acionista, com 24%. O investidor Silvio Tini, que também é acionista da Alpargatas, da Bombril e da Gerdau, chegou a 10% do capital. Outros 22% ainda estão com o francês Casino, que era controlador do negócio até 2024.

“A visão operacional está muito alinhada, mas a visão estratégica é diferente. Os Diniz e outros sócios têm visão de médio a longo prazo, enquanto o Casino quer sair do negócio”, diz um executivo com conhecimento da empresa ouvido pelo InvestNews

Um conta apertada

Para lidar com o complexo quadro de saúde financeira, o GPA tem realizado ajustes operacionais, mas que não têm sido suficientes – e é por essa razão que está em conversas com seus credores. Da dívida bruta de R$ 4 bilhões, quase metade (R$ 1,96 bilhão) tem vencimento já em 2026.

“A conversa com os credores está correndo normalmente para uma rolagem de dívida comum às empresas em um cenário de juros altos”, diz a fonte. “Mas, claro, é uma discussão mais acirrada do que habitualmente.” 

Além do vencimento em maio, outros R$ 889 milhões referentes à emissão de uma debênture devem ser pagos em julho. Constam nas notas explicativas do GPA ainda R$ 127 milhões que vencem em novembro, referentes a uma série da 20ª emissão de debêntures, e um empréstimo de R$ 508 milhões com o Rabobank com prazo em julho.

Há ainda um problema maior do que o endividamento. O GPA mantém R$ 17 bilhões em contingências tributárias e trabalhistas. Parte relevante é herança de um grupo muito maior que o GPA já foi no passado, com o atacarejo Assaí e o colombiano Éxito sob seu controle. 

A saída dos dois negócios deixou o GPA como uma empresa mais fragilizada financeiramente e exposta, sem contar com a geração de caixa que tinha quando os passivos tiveram origem. No quarto trimestre, a empresa desembolsou quase R$ 550 milhões com questões tributárias e trabalhistas. Essas disputas exigem seguros garantia na esfera judicial e isso consome caixa e encarece o resultado financeiro.

Cortando na carne

Com o quinto maior faturamento entre os varejistas alimentares do país, o GPA vive uma crise que tem se arrastado desde 2022, quando começou a falar em reestruturação: vendeu a tradicional sede na avenida Brigadeiro Luís Antônio, nos Jardins, e se desfez da rede de postos de gasolina. Também vendeu lojas próprias para passar a alugá-las e fechou a operação do aplicativo de delivery James. 

Mas nenhum desses passos foi suficiente para conter a queima de caixa em um cenário de juros a 15% ao ano e de oscilações no consumo. Em janeiro, com nova direção executiva e mudanças no quadro acionário – Tini chegou aos citados 10% no fim de 2025 –, a varejista anunciou os primeiros atos de seu novo plano de estruturação. 

Contratou a consultoria Alvarez & Marsal para mapear soluções e anunciou o corte dos investimentos pela metade do que era praticado anualmente: o aporte em 2026 não vai passar de R$ 300 milhões. Os planos de expansão, por exemplo, ficaram no passado. A companhia chegou a planejar a abertura de 50 lojas no modelo de proximidade e 50 supermercados até 2026.

Em sua primeira teleconferência com analistas como CEO, Santoro afirmou que a direção da empresa está revisando todas as despesas relevantes do dia a dia, como, por exemplo, prestação de serviços, tecnologia e aluguéis.  “Uma companhia com a operação, a marca e a posição de mercado que o GPA possui não pode permanecer anos sem gerar caixa.”

Ele chegou egresso da IMC, companhia que opera as redes de restaurantes Viena, Frango Assado e Pizza Hut no Brasil e da qual também era o principal executivo. Substituiu Marcelo Pimentel, que renunciou ao cargo em outubro após embates no conselho.

Para reforçar o controle de gastos, Santoro afirmou que o GPA criou “um comitê específico para aprovação e priorização de despesas e investimentos” e que vem cancelando contratos que “não fazem sentido”, além de reduzir ou mudar escopos para torná-los mais aderentes ao tamanho atual do negócio.

O CEO também disse que o foco é crescer com margem — e, por isso, a companhia decidiu descontinuar o Programa Aliados, um braço B2B que “trazia vendas”, mas que não só não dava resultado na última linha como consumia a geração de caixa do restante da operação. 

Santoro também deu um exemplo de medidas mais estruturais em curso: testes para reduzir o sortimento nas lojas de proximidade, com a ideia de simplificar a logística e melhorar a rentabilidade, já que esse formato tem um custo maior de abastecimento por exigir entregas mais frequentes e fracionadas. 

É justamente nesse tipo de loja, batizadas de Minuto Pão de Açúcar ou Mini Extra, que estão as unidades mais deficitárias, cuja venda por metro quadrado está abaixo do que é considerado necessário. Segundo o CEO, em torno de 20% a 25% das lojas têm performance aquém do potencial.

O InvestNews apurou que a empresa já mapeou 10 lojas de proximidade a serem fechadas. O grupo encerrou o ano com 728 lojas em diferentes formatos, dois a mais do que um ano antes. 

Minuto Pão de Açúcar: a bandeira de proximidade principal do GPA (Divulgação)
Minuto Pão de Açúcar: a bandeira de proximidade principal do GPA (Divulgação)

A direção da empresa falou em economizar R$ 416 milhões com os cortes de despesas. Uma pessoa ouvida pelo InvestNews diz que há outros 5% possíveis de serem capturados, o que representaria, no total, R$ 700 milhões ao caixa. “Com isso, a conta, mesmo sendo apertada, fecha.”

Disputa acionária 

Além de sua crise operacional e financeira, o GPA também passou por uma disputa acionária que respingou no dia a dia da operação ao se traduzir em mudanças nos rumos do negócio. O grupo chegou a contar com o empresário Nelson Tanure, o ex-CEO Roberto Iabrudi, o investidor Rafael Ferri e o controlador do atacarejo Roldão, Ricardo Roldão, como acionistas relevantes.

Em maio de 2025, a família Coelho Diniz, dona da rede de supermercados mineira de mesmo nome, começou a comprar ações do GPA, até chegarem à fatia atual de 24%. 

Nesse intervalo, os planos operacionais também mudaram. Inicialmente, a empresa planejava abrir mais lojas do Pão de Açúcar com oferta de serviços de maior valor agregado, especialmente em São Paulo. Um novo conceito de loja chegou a ser lançado, bem como uma nova marca própria. 

Quando o cenário financeiro se agravou, o conselho colocou no radar a venda de lojas no Nordeste e no Centro-Oeste. “Mas o processo de vendas de ativos non core foi interrompido. Muitas das vendas estavam engatilhadas, inclusive com bancos contratados. Sem isso, a situação se precipitou muito rápido”, diz uma fonte com conhecimento das conversas. 

Na teleconferência, Santoro e o diretor de relações com investidores, Rodrigo Manso, defenderam que a venda de lojas é “o último recurso”. 

A participação no programa de fidelidade Stix, criado em parceria com a RD Saúde, é uma opção de venda, segundo duas pessoas ouvidas pelo InvestNews, mas o valor do negócio é pequeno para o desafio. O GPA segue, portanto, sem uma “bala de prata”.